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Por Arnaldo Bloch de O Globo

Doutor em filosofia pela UFRRJ e defensor da tese de que a filosofia não nasceu na Grécia, carioca vai dar curso na Casa do Saber sobre o sentido da vida

“Nasci em 1972 em Oswaldo Cruz. Sou casado com uma pedagoga e tenho duas filhas. Além de minha formação em filosofia, sou marcado por dois signos fundamentais africanos: fui circuncidado por minha avó materna e treinado na tradição grio pelo meu avô. Meu trabalho é abrir portas para o pensar filosófico além-Ocidente”

Conte algo que não sei.

A filosofia não nasceu na Grécia. Ela já existia na África e em outras regiões séculos antes. No Egito, há uma palavra, rekhet, que significa exatamente o que a palavra filosofia significa para os gregos. É uma arte da palavra, do saber. Os maias tinham aforismos filosóficos. Há diferentes estilos de fazer filosofia, mas há uma disputa política para que só uma voz filosófica fique conhecida. Essa voz é a do Ocidente.

Mas a palavra filosofia é grega, não?

Não importa quem veio antes nem a palavra, mas a atividade. Através dessa arte do saber egípcia busca-se uma fotografia da verdade, mas esse lapidar se assume como algo inconcluso, nunca chega a uma destreza perfeita ou conclusão. Esse é exatamente o caráter da filosofia, e o discurso de muitos filósofos ocidentais. O pensamento é uma balança que tem a medida da verdade. Maat, uma deusa da verdade, da harmonia, da adequação, segura uma balança.

E a filosofia, batizada pelos gregos, funda-se no rompimento com a mitologia.

Sim. Mesmo assim, Platão usa mitos e produz uma teologia. Um filósofo ganense diz que a filosofia é o suprassumo da cultura ocidental. Eu diria que a filosofia é o bichinho de pelúcia do Ocidente. O Ocidente adora brincar, mas não gosta de dividir o brinquedo.

O curso que você vai dar é sobre o sentido da vida. Qual é?

Essa não dá para responder num único gole, mas vamos tentar uma síntese. O sentido da vida é aquilo que define a existência humana.

E o que a define?

Em geral as pessoas se definem a partir de dois marcadores: o nascimento e a morte. A certidão de nascimento e o atestado de óbito, com a carteira de identidade no meio. O sentido da vida de alguém deveria ser, e é, mais decisivo para entender o sujeito. De que maneira as pessoas vivem. Um vetor existencial.

Então, a vida tem sentido?

A ausência de sentido é um sentido. Mas um sentido rígido é perigoso por formar fundamentalismos existenciais. É algo para além da vida que passa a defini-la. Alguém que, num momento de satisfação e alegria, está mais preocupado em como vai sair na foto do que em experimentar o prazer daquele momento. Algumas ideias passam a ter mais relevância que o fluxo da existência.

Mas não é isso a singularidade do humano? Pensar sobre a vida em vez de vivê-la?

É uma questão de problematizar o pensamento como atividade unicamente mental. Mas o pensamento não seria uma atividade corporal? É preciso acabar com o divórcio entre corpo e alma, para que ação e pensamento sejam copertinentes.

Como chegar a esse estado?

Em geral as pessoas vão assistir a uma aula, mas o corpo fica fora. Há uma técnica em que crianças aprendem matemática dançando. Os registros escritos e orais não são os únicos, há os simbólicos e os corporais. Podem ser fugazes, mas hoje você pode filmar.

Você escreveu sobre samba e a filosofia. Qual é o ponto?

No samba se pensa através de uma tal complexidade de movimentos, que é como se corpo e alma não tivessem dessintonia. Entre mestre-sala e porta-bandeira há argumentação. A batalha do passinho é dialética. E assim caminhamos.

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