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Esse corpo nasceu para se exibir. Na verdade, ele serve para vender tudo o que veste. E fica ali, exposto, estático, quase como se o tempo tivesse sido suspenso. Não há uma loja de roupas que não tenha um desses. São a vitrine. Estão na vitrine. Os membros podem se encaixar para simular uma pose, mas há quem prefira exibir apenas o tronco, as pernas, o braço. A cabeça careca, quando colocam cabelo, fica um tanto tosca, estranhíssima. Eu prefiro que o corpo seja mesmo apresentado aos pedaços, como se a falta fosse uma necessidade de estimular aquele que observa.

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Manequins expostos em depósito / Foto: Claudio Rodrigues

Recentemente andei lendo o Anti-édipo e o volume 3 de Mil Platôs nos quais Deleuze e Guattarri elaboram a filosofia do Corpo sem Órgãos (CsO). O que me fascina nessas leituras é a construção de um pensamento esquizofrênico como sintoma do nosso tempo, todo aos pedaços, quebrado, tanto quanto os corpos ali descritos. Isso é poético porque a criação não está acabada, mas exige de nós uma participação no processo de elaboração de imagens. E é também um discurso político. Fiquei delirando – esquizofrênico que sou também (isso não é um dado negativo) – e as imagens foram se amontoando em mim, não sem um tantinho de confusão.

Aliás, tem tempo que ando meio confuso. Melhor, confuso e meio.

Sinto que o tempo, que fisicamente nunca deveria trazer o passado, tem se comportado com a estranheza de quem roda, roda e não sai do eixo, enquanto tudo também se move, mas na direção do que já ocorreu. Deve ser por isso que ando interessado por corpos despedaçados, sem órgãos mesmo. Não sei se foi porque li Deleuze-Guatarri que me veio a imagem dos manequins que vez ou outra fotografo nas feiras populares do centro. Não sei se cheguei ao Anti-édipo por conta de uns manequins que vi na periferia da cidade no dia em que fui acompanhar a caminhada do Grito dos Excluídos.

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Registro de catadores / Foto: Claudio Rodrigues

A van que levou o corpo docente (corpo, vejam bem!) estacionou na frente de um depósito de manequins velhos. Fiquei fascinado por eles, saquei o celular e tirei umas fotos daqueles corpos-objetos que se expunham sem nenhum pudor ou vergonha diante da multidão que empunhava bandeiras, faixas e cartazes pedindo mais respeito com o corpo humano, vilipendiado e ultrajado por corpos políticos egoístas que apenas legislam e executam em benefício de seu bem-estar e de suas famílias. Aqueles manequins de adultos, crianças, homens e mulheres contrastavam com os homens, mulheres e crianças que se concentravam para bradar contra um sistema violento que exclui, degrada e mata, parafraseando um cara argentino (vê se pode) e líder religioso. Fiquei atônito em meio ao silêncio dos que nasceram para apenas servir de ostentação à cultura do consumo e da posse e aos gritos dos que não aceitavam justamente ser boneco de vitrine, emudecidos e estranhamente bonitos por isso.

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Loja com manequins expostos / Foto: Claudio Rodrigues

Esses bonecos de vitrine um dia já foram trabalhadores também. Passaram horas, dias, meses silenciosos e estáticos na sua função de corpos perfeitos, ainda que quebrados. Imaginei que aqueles manequins do Jangurussu estavam já aposentados. Mas como não falam porque não tem boca, não sentem porque não têm cérebro, não precisam de alimento porque não têm estômago, não receberam salários, férias, auxílio-moradia, e aposentadoria. São corpos sem direitos. Nasceram apenas com deveres. Não sentem um pingo de remorso por serem assim tão… manequins?

Juro que até ouvi um murmúrio entre um belo corpo negro feminino e um manequim másculo. Pareciam estar constrangidos com minha admiração. Pensei ter ouvido deles algo do tipo: “não é para nós, corpos sem órgãos, que você deve lançar seus olhos de contemplação”. Meu coração vibrou quando me dei conta de que esses corpos também estavam ali para me orientar. Eles não são tão subservientes ao sistema. Na sua mudez acabam revelando também um grito. E os cantos entoados pelo carro de som, as paradas para reflexão, os carros dos catadores de lixo reciclável, a louva-a-deus que acompanhava a estranha mania dos humanos de se rebelarem e protestar, os vendedores de picolé faturando uns trocados, a multidão que dizia #ForaTemer #NenhumDireitoAMenos, os moradores às portas dos casebres acompanhando a balbúrdia… tudo isso fazia os órgãos do meu corpo incendiado pelo sol sentirem comigo a dor de ser gente. A dor de pensar. A dor de existir.

Deleuze-Guattarri falam de uma “desfile lúgubre” de corpos costurados, esvaziados, cateterizados, vitrificados e esvaziados. Sei que estão se referindo a certos comportamentos masoquistas. Mas também perguntam por que temos que ver esse desfile de corpos esvaziados em lugar de plenos ao invés de dança, alegria e êxtase. A longa procissão de corpos esvaziados me dá certas garantias enquanto corpo cheio: quero também me esvaziar, quero sem um corpo sem órgãos, mas nunca, nunca, jamais insensível. Entendam o que estou querendo dizer com esse vazio. Andamos cheios demais de nós. Ensimesmados e repletos de coisas. Talvez o manequim oco ressoou em mim desejos de libertação. O vazio é bom porque aceita ser enchido, parafraseando a poesia de Manoel de Barros. E termino meu desabafo com esse trecho que é uma ode ao corpo sem órgãos: “é sobre ele que dormimos, velamos, que lutamos, lutamos e somos vencidos, que procuramos nosso lugar, que descobrimos nossas felicidades inauditas e nossas quedas fabulosas, que penetramos e somos penetrados, que amamos” (Mil Platôs, v. 3, p. 12)

 A série de imagens ilustra o que escrevi. são minha tentativa de sair de um estado de lassidão em tempos de embrutecimento.

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