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No dia de Corpus Christi, a cidade de Ouro Preto, antiga Vila Rica, em Minas Gerais, se enfeita para a procissão que segue da Igreja de São Francisco à Igreja do Rosário, num sobe e desce interminável de ladeiras calçadas de pedra. Alheio às festividades e ao burburinho dos turistas que não param de chegar à cidade, Wanderson Lima se apressa em finalizar uma peça em madeira que irá decorar a fachada de um restaurante.

Ladeiras de Ouro Preto (MG) enfeitadas para a comemoração de Corpus Christi. Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo.

No Atelier de Entalhes e Pinturas Vila Rica, localizado no centro histórico da cidade, o artesão divide o espaço de trabalho com seus filhos, também artesãos. “Os meninos cresceram em contato, querendo pegar nas ferramentas, ora desenhando, ora pitando, porque criança não pode ver uma tinta, então eles tiveram sempre contato comigo, com esse trabalho”, explica.

Artista Wanderson Lima. Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo.

Há mais de vinte anos no ramo, Wanderson se orgulha da atividade que exerce, mas se queixa da pouca valorização que a arte recebe. “A galera não valoriza muito não, mas eu me valorizo!”, dispara. Mas apesar da pouca valorização da atividade, ele explica que é necessária flexibilidade nas negociações, de modo a cativar a clientela.

Wanderson mostra uma peça, uma porta de madeira, onde uma imagem das ruas e do casario foi cuidadosamente talhada por ele ao longo de duas semanas. “Uma peça dessa custa em torno de R$ 3.200, 00 [três mil e duzentos reais], mas poderia valer mais”, explica.

A arte, a propósito, faz parte da paisagem e do cotidiano ouro-pretano, gentílico pelo qual se qualifica o cidadão de Ouro Preto. Na cidade, localizada à cerca de 90 km da capital mineira, Belo Horizonte, se observam por todos os lados ateliers e lojas dedicadas a produzir e a comercializar estes produtos, muitos dos quais desenvolvidos a partir de um produto abundante na região: as pedras.

Vista de Ouro Preto (MG). Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.
Músico faz canções nas ruas de Ouro Preto (MG). Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo.
Vendedor de livros e vinis em Ouro Preto (MG). Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.

Uma parte desta produção está na Feira de Pedra Sabão do Largo do Coimbra, localizada em frente à Igreja de São Francisco de Assis. Nesta feira, como o próprio nome sugere, uma grande variedade de peças é feita de pedra sabão, o que garante um charme especial aos produtos. “A maioria destas peças são feitas em Cachoeira do Campo [distrito de Outro Preto]”, explica dona Maria que trabalha há anos na Feira.

Feira de Pedra Sabão do Largo do Coimbra. Ouro Preto, MG. Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo.

Mas se Ouro Preto vive de arte, ela respira mesmo é história. Suas igrejas em estilo barroco estão por todos os lados, ora marcando uma época da hegemonia religiosa católica, ora lembrando a correlação de força entre os nobres locais que construíam estes prédios quase que lado a lado para afirmar seu poder. Da Matriz Nossa Senhora da Conceição à São Francisco de Assis, passando pela do Pilar, um elemento une as construções: o estilo barroco.

A Igreja de São Francisco de Assis, no Largo do Coimbra, é uma das obras mais emblemáticas da arte colonial. Projetada pelo mestre Aleijadinho, conta com elementos decorativos Rococó. O teto da nave tem a decoração de mestre Ataíde, que criou aquela que se tornaria sua composição mais famosa, além de pintar outros painéis e dourar o altar-mor.

Igreja de São Francisco de Assis. Ouro Preto (MG). Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.

No Museu da Inconfidência, localizado de frente para a Praça Tiradentes, no Centro de Ouro Preto, um sem número de peças garante um mergulho na história do Brasil colonial. No edifício erguido em 1785 pelo governador da Capitania de Minas, Luís da Cunha Meneses, para ser Casa de Câmara e Cadeia, o Museu se dedica a contar a trajetória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), bem como dos conjurados que afrontaram a monarquia.

Museu da Inconfidência. Ouro Preto (MG). Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.

De frente para o Inconfidência, o Monumento a Tiradentes, escultura em bronze feita em 1894 por Virgílio Cestari, marca o local onde a cabeça do líder dos inconfidentes ficou exposta “para ser consumida pelo tempo”, como determinava sentença de morte de Joaquim José da Silva Xavier, proferida em 19 de abril de 1792.

Representação de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.

Do lado direito do monumento, uma rua se estende ladeira abaixo, como não poderia deixar de ser. A Rua da Direita (em referência aos nobres que moravam naquele trecho) é hoje uma das mais movimentadas da cidade, em função principalmente do farto comércio e do número abundante de lanchonetes e restaurantes. Um destes restaurantes é o Spaguetti, do húngaro radicado no Brasil, Peter Boszi, que mora em Ouro Preto desde 1986.

Restaurante Spaguetti. Ouro Preto (MG). Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo.

O espaço, uma antiga senzala, serve também para lembrar o importante papel que os negros tiveram no desenvolvimento da história local, algo muitas vezes ignorado pela historiografia. Mas além do seu papel histórico, o estabelecimento, que é tocado por Boszi, a esposa e os filhos, comprova a aptidão dos mineiros para a boa cozinha.

O papel dos negros

Fazendo frente a uma história dos homens brancos e nobres, o guia turístico Jandeilson destaca a participação dos negros no processo de formação da região. “Os negros que trabalharam nas minas de ouro da região não foram escravizados apenas por conta de sua força física, mas também em função do domínio da técnica de extração do minério, que já traziam da África, das regiões onde foram capturados”, explica.

De fato, como bem explicam as professoras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/Minas) Tânia Maria Souza e Liana Reis, muitas técnicas de extração, remoção e beneficiamento, indispensáveis nas várias etapas do processo mineratório, foram trazidas pelos escravos africanos, como bateia, canoas e carumbé.

“Cumpre lembrar que o processo de fundição do minério aurífero e de ferro, com utilização de fornalhas e foles, já era conhecido e usual no continente africano, como na África Central, hoje Zimbábwe, antes de 1500”, destacam as professoras.

Na Mina do Veloso, que é aberta à visitação para turistas, o guia Carlos Eduardo (Cadú) – “nascido e crescido no local”, como bem destaca – também conta (ou reconta) a história da perspectiva do negro. “Os portugueses não dominavam a técnica da mineração, por isso utilizaram a mão de obra escrava em função principalmente dos conhecimentos que estes detinham”, explica.

Guia Carlos Eduardo (Cadú) da Mina do Veloso. Ouro Preto (MG). Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.
Mina do Veloso. Ouro Preto (MG). Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.

Mas ao mesmo tempo em que se orgulha do papel intelectual dos negros no processo mineratório da região, Cadú não deixa de destacar o imenso sofrimento aos quais estes homens eram submetidos pelos seus senhores. “Muitos negros eram castrados para não se desenvolverem, não crescer, e assim serem destinados ao trabalho neste local”, destaca.

A Mina do Veloso está localizada no Bairro de São Cristóvão, também conhecido como Veloso, em referência ao último grande dono da região, José Veloso do Carmo, proprietário de 1761 até 1819. Construída a cerca de 300 anos, ela tem 500 metros de extensão, sendo que somente parte dela, 300 metros, pode ser visitada.

Livros e leituras

De volta ao Museu da Inconfidência, uma edição clandestina de 1778 da Constituição dos Estados Unidos (em francês, Recueil des loix Constitutives des États-Unis) é uma das peças mais importantes do Museu. O livro teria inspirado a conspiração das Minas Gerais, em função do seu caráter liberal e antimonárquico. A obra é uma dentre as várias que compõem a exposição permanente sobre a Inconfidência Mineira, comprovando o papel fundamental dos livros no processo de circulação das ideias naquele momento histórico do país.

Não muito longe dali, uma geladeira, a Biblioteca Ativa, convida à leitura. A lanchonete onde o equipamento está instalado não serve só açaí, especialidade da casa, serve também conhecimento e diversão por meio da leitura.

Geladeiroteca em Ouro Preto (MG). Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo.

Em Mariana (distante 14km de Ouro Preto), destino indispensável para quem viaja à região das minas gerais), a Biblioteca da Estação atrai os passageiros do Trem da Vale – Ouro Preto e Mariana para uma viagem literária. Trata-se de uma maravilhoso espaço destinada principalmente ao público infanto-juvenil, com uma acervo de cerca de 5 mil títulos, entre livros, periódicos e DVDs.

Biblioteca da Estação em Mariana (MG). Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo.
Estação de trem de Mariana (MG). Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo.

E embora o site da Vele, empresa da área de mineração responsável pelo projeto, informe que o material está disponível para empréstimo, ficamos sabendo que o espaço está sem sistema de controle do acervo (o que tem impossibilitado os empréstimos) e sem bibliotecários, ficando a responsabilidade do espaço a cargo de dois estagiários, ambos estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Procurada pela Biblioo, a Vale não havia nos dado retorno até o fechamento deste texto.

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