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Em “Eles”, o autor aborda temas relacionados ao universo masculino, com destaque para como as vidas e o cotidiano são impactados pelas ideias de masculinidade. Nele leremos assuntos que deveriam ser mais comentados desse universo. Na entrevista concedida para a Biblioo, o autor comenta algumas de suas referências e fala sobre literatura, afeto, lugar de fala, masculinidade negra e mercado editorial. Confira!

Vagner, você é o editor de livros da Editora Malê, editora jovem que vem publicando livros de autores pretos e tendo relevância no mercado editorial. Como é para você, sendo editor, fazer essa mudança de editor para autor. Teve muita diferença nesses papéis tão importantes?

Eu tenho visto como uma ampliação da minha atuação na literatura. Fui um grande consumidor de livros, trabalhei anos como mediador da leitura, bibliotecário, dediquei bastante tempo pesquisando sobre mediação da leitura, montei uma editora e agora publico um livro.  Escrevo ficção desde criança. Agora, motivado por um tema, resolvi mostrar um pouco como eu penso a construção do texto literário e como a minha subjetividade de homem negro talvez possa trazer novas perspectivas para o repertório de temas que vêm sendo abordados na literatura contemporânea.  Escrevi um livro simples, com contos curtos, um texto que se propõe ser conciso. Mas, também, um livro para comunicar meus espantos em relação às atitudes violentas de muitos homens na nossa sociedade.  Escrevi pensando nos impactos dessa violência e dessas repressões no cotidiano das pessoas. Como autor eu me exponho mais, alcanço mais pessoas com minha visão de mundo, com minha sensibilidade e com o que me afeta.

Sabemos que até pouco tempo atrás quem estava falando sobre nós não éramos nós, éramos estudados, mas silenciados, vistos somente para pesquisa, como objeto de estudo. Você acredita que estamos nos ouvindo e lendo mais? Você acha que os não negros têm nos lido também?

Se pensarmos nos jornais abolicionistas, na literatura produzida por autores negros no século XIX, em Maria Firmina dos Reis, na imprensa negra, no Solano Trindade, nos Cadernos Negros…  vemos que sempre conseguimos práticas insurgentes para falarmos sobre nós. O que muda a partir de 2002, é que elegemos um governo com um projeto socialmente um pouco mais inclusivo.  Se a sociedade muda, se passamos a ter uma lei que obriga o estudo da cultura afro-brasileira e africana, se possibilitamos o aumento da presença da população negra nas universidades, se melhoramos as condições de vidas dos mais pobres, se a sociedade se volta para isso, a literatura produzida a partir do lugar de fala destas pessoas também passa a ser vista com maior interesse. Isso afeta aos negros e aos não negros.  Neste contexto social de mudanças, também podemos incluir as novas tecnologias de comunicação e de informação, as redes sociais, os agendamentos da mídia e as facilidades que as novas tecnologias de produção de livros trouxeram, possibilitando, por exemplos, impressões on demand, barateando custos e tornando possível o surgimento de pequenas editoras.  Vejo como um movimento, que vai crescendo de forma mais lenta que gostaríamos.

Como que é falar sobre os sentimentos, as fragilidades, as emoções de um homem?

Foi um exercício bastante interessante, mas não caí na armadilha de querer falar sobre todos os homens. Acho isso impossível. Cada ser humano tem suas complexidades. Apresento dez personagens protagonistas que são impactados pelas visões mais aceitas sobre o que é ser homem, ideias persistentes como a de que um homem não deve chorar.  Estive mais preocupado em partir da ideia de como uma sociedade machista pode determinar a construção das identidades, a possibilidade dos afetos e o desenvolvimento das narrativas de vidas de homens e mulheres.  As cobranças que são feitas desde a infância para os meninos, para os jovens, e em como meus personagens respondem a isso, os que se identificam com estas ideias e até as defende e os que não se identificam.

Como foi sua infância em relação ao afeto, ao amor? Como foi a convivência com a sua família?

Eu tenho ótimas lembranças da minha infância. Lembro do meu pai sempre brincando comigo e com meu irmão, nos ensinando coisas como andar de bicicleta, soltar pipas, chutar a bola de futebol, cuidar de passarinhos… Lembro das conversas em que ele falava que deveríamos estudar para ter outras opções profissionais e também da minha mãe sempre presente, atenta, firme e amorosa. Já havia neles uma consciência em relação aos bloqueios que são impostos aos negros e uma sabedoria que só o estudo poderia fazer os filhos transpor estes bloqueios.

Que sentimento que te traz quando escreve?

Eu entro em uma imersão quase absoluta, não tenho domínio sobre o destino dos personagens, sofro e fico feliz com eles.  Neste livro tem um conto sobre um personagem que é violento com a sua esposa e filhas, e no meio da escrita do conto surgiu uma personagem que dominou a narrativa e deu outros contornos para a história, uma menina. Este personagem que surgiu, ganhou forma e reclamou a sua existência. É o personagem que mais gosto no livro, talvez porque mostre que mesmo uma resistência que pareça frágil, também é uma forma de mudar o rumo da história.

Bibliotecário e editor Vagner Amaro. Foto: L. Landau / El País Brasil

Há uma demanda enorme sobre o homem preto, sobre esse péssimo estereótipo de ter que ser forte, não poder chorar, ter que ser viril…

Há uma pressão enorme sobre o homem, mas essa pressão é operada quase sempre pelos próprios homens, que são soldados e vigias do sistema machista, pois garante para alguns muitos privilégios.  Mas vivemos em uma sociedade que além de machista é também  racista, então as ideias que foram formuladas sobre os homens negros e sobre a masculinidade negra recebem essa “pressão” maior.  O que se espera de um homem negro? É dado a este homem um repertório muito reduzido de expectativas. Espera-se que ele seja “viril, másculo e resistente fisicamente”, se pressupõe que ele ou traga “uma esperteza inata, uma agressividade incontrolável, ou uma tendência para o crime”, que seja “malandro, ou preguiçoso”, estas ideias servem para tirar do jogo e da competição esta população negra masculina, pois estas ideias se reproduzem nas famílias, nos espaços escolares e no mercado de trabalho – vemos mais homens negros como vigias, seguranças, carregadores… Manter-se vivo já é primeiro grande desafio para o homem negro no Brasil.  Em uma sociedade altamente competitiva, em que homens ocupam praticamente todos os postos de poder, é muito interessante para estes homens, quase todos brancos, não ter que disputar com os homens negros e ainda afirmar que os homens negros não estão na disputa porque não se esforçaram o bastante.

O filme Moonlight é um exemplo muito bom de como isso é uma grande falácia. Como que é falar sobre os sentimentos, as fragilidades, as emoções de um homem preto?

Meu livro não fala exclusivamente sobre homens negros, é uma ficção em que temas como a objetificação do corpo do homem negro aparece em alguns momentos, por exemplo.  Mas é uma ficção e não uma tese de doutorado.  Eu penso que os homens negros vivem em uma situação bastante conflitante, de serem muitas vezes algozes do machismo e em tantas outras, vítimas do racismo.  Então as emoções são muitas vezes represadas, levando a doenças, depressão, falta de autocuidado e muitas vezes a um tratamento com a mulher, e especialmente com a mulher negra, que é condenável, além do também condenável combate a outras masculinidades que não correspondam aos estereótipos elaborados sobre os homens negros. Mas vejo atualmente uma maior preocupação em se pensar essas questões, então, acredito que os meninos negros que nasçam hoje, poderão estar no mundo de uma forma mais livre, intensa e inteira e torando-se mais solidários com as mulheres na luta por um mundo que seja melhor para todos.

Como você vê a crise nas grandes livrarias e a resiliência das pequenas editoras se renovando e lançando sempre trabalhos inspiradores e autorais e não meramente comerciais? Como podemos aproveitar este momento?

O fechamento de uma livraria é algo triste, de várias mais ainda.  Mas, ao mesmo tempo, de nada adianta ter livrarias se não têm leitores, ou se o público que consome livros não está sendo contemplado em sua diversidade de interesses.  Não excluindo a crise econômica que afeta o país em diversos outros setores, foi possível perceber, nos últimos anos, uma concentração de grandes livrarias em grandes centros urbanos. Além disso, as grandes redes não se interessaram em criar mecanismos de negociação com as editoras pequenas, que vem movimento de forma promissora o interesse dos leitores e o mercado editorial. O modelo de consignação, o atraso na prestação de contas, tudo isso afeta de maneira muito mais grave uma editora pequena.

Então, a crise é de duas grandes redes de livrarias, que afeta todo o setor.  Temos que pensar também que embora existam muitas ações para o incentivo à leitura literária, estas ações ainda não dão conta de se criar de forma abrangente uma cultura de envolvimento com o livro e com a leitura. No Brasil, apenas 1.527 municípios dos 5.570  possuem livrarias.  Em 112 municípios não possuem bibliotecas públicas. Muitas escolas ainda não possuem bibliotecas. Não podemos pensar que somos o país da música e do futebol naturalmente. Estes gostos foram construídos culturalmente, assim como culturalmente podemos nos transformar em uma país de leitores, basta ter investimento. Acho que da crise podem surgir iniciativas interessantes de redistribuição de investimentos no mercado editorial, talvez uma aposta maior nas médias e pequenas livrarias, em editoras médias, que conseguem estar mais atentas e próximas dos interesses de muitos leitores.

Você poderia citar aqui algum trecho de poesia, texto, música que mudou ou trouxe reflexão marcante na sua vida?

Na minha vida várias obras literárias foram marcantes, sou muito impactado pelas poesias do Drummond, por exemplo. Parolagem da vida é um poema que sempre me acompanha, do Gullar, No mundo há muitas armadilhas. Além das letras de Chico Buarque e do Gilberto Gil, os contos de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Cuti e até mesmo, do Murilo Rubião.  Neste livro, foi interessante que depois do livro terminado, fui buscar uma epígrafe e encontrei Especulações em torno da palavra Homem, do Drummond, e o sentimento que eu trazia sobre o livro estava totalmente conectado com o poema dele. E também no clima do livro cito um trecho de uma  letra do Caetano Veloso, “A mais triste nação, na época mais podre, compõem-se de possíveis, grupos de linchadores.”


Serviço

Evento: Lançamento do livro “Eles”, do jornalista, editor e bibliotecário Vagner Amaro

Local: Livraria da Travessa, Rua 7 de setembro, nº 54, no Rio de Janeiro-RJ

Dia e hora: 18 de dezembro, as 18h

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