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“É preciso acreditar num novo dia,na nossa grande geração perdida, nos meninos e meninas, nos trevos de quatro folhas. A escuridão é bem pior que esta luz cinza. Mas estamos vivos ainda…”

(Natalia – Renato Russo)

O pouco mais de um ano trabalhando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ainda não me concedeu a comodidade mórbida que a comunidade universitária convive com os frequentes suicídios que ocorrem no campus. Essa semana que passou, tivemos mais um. É claro que mesmo antes de ir trabalhar lá, eu já conhecia a fama desse campus, mas me deparar, de tempos em tempos, com bombeiros e tumultos consequentes de mais uma pessoa que se jogou das sacadas do prédio ainda me deixa bastante abalada.

Nada mais real e assustador do que se deparar com a total falta de esperanças que leva uma pessoa a lutar contra o instinto mais básico do ser humano que é o de sobrevivência. Mas a rotina na UERJ continua: é só mais uma pessoa que perdeu toda a esperança.

Como diria Richard Mayhem, personagem de Neverwhere, “acontecimentos andam em matilhas”. E, ainda que a maior de nós não pense em situações extremas como as que acontecem na UERJ, em algum ponto da vida, tudo parecia estar dando errado. Até a mais otimista das pessoas tem momentos como esse, em que você começa se perguntando o que você fez de errado para merecer tudo aquilo e termina pedindo para, por favor, por favor, por favor, por favor, pararem o mundo que você quer descer.

E quando você chega nessa hora, o que faz você continuar?

Um número enorme de pessoas responderia tendendo para as explicações religiosas e é basicamente sobre isso que essa pergunta é mesmo: não sobre religião em si, mas sobre crença. Ela seria facilmente traduzida para: em que você acredita tanto que ainda faz valer a pena continuar? Não só continuar a viver, mas continuar batalhando.

Ateia até o último fio de cabelo, me pego pensando no que motiva as pessoas. Às vezes, a curiosidade se torna ainda mais forte quando esbarro com um desses budas anônimos com quem topamos todos os dias no ônibus ou na padaria: ele acordou pelo menos 3 horas antes de você, engoliu um café da manhã troncho, pegou sabe-se lá quantas horas de trânsito para chegar a tempo no serviço e vai pegar o mesmo transito para voltar pra casa depois de um dia cansativo de trabalho e, amanhã, quando você entrar de novo no ônibus reclamando que queria ter dormido mais, ele vai te dar bom dia, com o mesmo ânimo de sempre.

Então, qual o sentido maior para a coisa toda? Algo que você acredita e que extrapola, compensa, consola qualquer momento ruim pelo qual você possa estar passando, mesmo um daqueles onde todos os problemas parecem se unir contra você.

Em que você acredita?

A vida é injusta? Que a humanidade é injusta e cruel? Que os bons morrem primeiro? Que nem sempre aqui se faz e aqui se paga?

Tudo parece um monte de pontos isolados, aleatórios e confusos.

E isso é o que nós sabemos, porque é que vemos todos os dias: a rotina da falta de esperança do noite após dia de cada um. E isso é o que eu vejo, mas, ainda assim, não muda o que eu acredito.

Eu acredito que você tem que fazer por você mesmo. E esse é o grande mistério por trás da minha pequena pessoa.  Eu acredito que só o fato de se estar vivo, sem considerar nenhum outro fator, já é uma avalanche tão grande de possibilidades que se torna até confuso. Desistir seria ser injusto com toda uma infinidade de caminhos que você ainda poderia seguir, só porque um ou outro acabaram não te levando para o melhor dos lugares.

Esse amontoado caótico de escolhas e perdas que é a vida faz sentido. Cada chance, cada momento, cada ausência e cada alegria estão ligados uns aos outros de uma maneira que faz tudo significar algo maior. Só que nada pode fazer sentido de perto, de tão de dentro como nós estamos. E infelizmente é mais difícil se afastar do que parece, mas quando você consegue olhar de longe você vê:

Tudo faz sentido. Não são só pontos. Estamos todos conectados.

E é bom.

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Comentários

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2 Comentários

  1. 14 de março de 2013 a 10:21 — Responder

    Sábias palavras – a dicotomia apresentada de forma tão leve me fez rever meus pensamentos, que ontem eram negativos, hoje, como sempre costumo buscar, estão positivos. Belo texto. Parabéns e obrigada

  2. 18 de março de 2013 a 10:05 — Responder

    Enquanto leio você, fico imaginando os corpos se jogando na cama dura do chão da UERJ. Que força negativa há naquele lugar que manda as pessoas pularem? E, de repente, me pergunto: por que a instituição não coloca grades nos vãos para evitar que jovens ceifem suas vidas num lugar que deveria ser símbolo de luta. E vamos sobrevivendo, com perdas e ganhos, com catástrofes e aleluias. e a vida nos diz que, mais que crer, é preciso ser e estar. parabéns por seu texto, emilia.

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