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“Mesmo nos tempos da informação imediata, da internet, do e-book, dos celulares e da leitura rápida das redes sociais, o livro sempre terá vez”, diz a portuguesa Andreia Joana Silva, radicada na França e colaboradora do selo editorial Cephisa Cartonera. O livro, neste caso, é mais do que aquele conhecido das estantes de lares e bibliotecas. Confeccionados de maneira relativamente simples, com capas feitas à mão e papelão reciclado, folhas costuradas à mão e copiadas em fotocopiadoras, a chamada literatura cartonera tem ganhado espaço tanto entre os chamados literatos como junto das camadas menos favorecidas da população.

As edições do tipo cartonera são uma tendência das editoras alternativas na tentativa de descobrir não apenas novos talentos, mas também na forma de disseminar a cultura do livro e de tentar, de alguma forma, promover o resgate da cidadania, além de garantir uma melhoria de renda para os que trabalham na cadeia da editoração e publicação cartonera.

“De certa forma, fazer uma publicação cartonera é uma decisão política. Envolve desde o catador que faz a coleta do papelão até a editoração”, disse o coordenador de Literatura da Secretaria de Cultura de Pernambuco, Welington Melo, durante uma oficina sobre o tema durante o 2º Congresso Internacional do Livro, Leitura e Literatura do Sertão (Clisertão), realizado esta semana, em Petrolina, Sertão de Pernambuco.

O movimento cartonero surgiu na Argentina por volta do ano 2000. Naquela época, o país vivia o “corrralito”, uma grave crise econômica que deixou milhares de desempregados. Foi quando o escritor Washinton Cucurto teve a ideia de fazer livros a partir do papelão recolhido nas ruas pelos desempregados que acabaram virando catadores em função da crise econômica. E oq eu foi criado amis como uma espécie de fonte de renda alternativa virou um fenômeno na Argentina, onde centenas de livros do gênero são comercializados diariamente apenas na capital. “Aqui temos a tradição de ler jornal no café da manhã. Lá eles saem para comprar o pão e trazem junto um livro”, relata Andreia.

E a ideia acabou por ganhar o mundo. Apesar de não existirem dados precisos, a estimativa é que existam cerca de 300 editoras cartoneras em atividade em todo o mundo. No Brasil a expertise ainda é pequena, embora o potencial seja considerado enorme. “A distribuição de renda ainda é muito desigual. E, independente de outras questões, estas pessoas também querem consumir literatura. E quando elas estão envolvidas em todo o processo mais do ter um livro na estante, existe um resgate da cidadania”, ressalta Welington. Segundo ele, o quilo do papelão coletado nas ruas vale cerca de R$ 0,20. “O livro pode ser comercializado por R$ 2,00 ou até R$ 10,00”, ressalta Welington. Detalhe, com tiragens pequenas e confeccionados individualmente, incluindo a arte de capa, cada obra é uma peça única em si mesma.

Além da melhria da renda, os livros cartoneros também ajudam na autoestima das comunidades. “Em sua maioria, os autores são das próprias comunidades de catadores, dos bairros onde atuam. Ao verem o livro publicado, algo que eles jamais tiveram acesso ou mesmo pensaram em produzir, provoca uma transformação imensa na vida destas pessoas”, diz Andreia. “cada cidadão passa a ser um autor em potencial contando suas histórias e vivências”, ressalta Welinton.

Segundo ela, os tempos da informação rápida da internet e televisão ainda não foram capazes de assinalar a morte dos livros. “O livro não tem como desaparecer. Ele pode mudar o formato, virar e-book e afins, mas não vai acabar. Quantas pessoas possuem smartphone, tablets e assemelhados? Quantos consomem leitura desta forma. Não que não se leia muito hoje em dia, pelo contrário. Nunca se leu tanto como hoje em dia, mas em outra linguagem. Os jovens estão aí via redes sociais, grafites… O movimento cartonero vem nesta linha, como uma alternativa um meio a mais. É um formato diferente para um produto tradicional” observa a pesquisadora. Para ela, o ovimento cartonero também revela a existência de um leitor que até então era desprezado, o que poderá fazer com que em um futuro próximo as editoras tradicionais acabem por desenvolver produtos mais acessíveis.

Enquanto isso não acontece, o debate sobre o tema durante o 2º Clisertão lançou a semente para algo inédito em todo o mercado literário e editorial brasileiro: a criação de uma editora cartonera em comunidades indígenas. A ideia seria um contraponto ao fato das histórias dos índios serem levadas para o grande público através de pesquisadores e editoras tradicionais. Pelo visto, o debate está apenas começando.

Publicado originalmente no Brasil247

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