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Passado o susto de uma eleição marcada por notícias falsas, baixeza, mau caráter, falta de compromisso e flagrante ausência deliberada de um candidato aos atos públicos de campanha, o Brasil tenta se levantar da lona do octógono e seguir seu caminho rumo à ordem e ao progresso.

Entretanto, a caminhada que se pretende pura, e anunciando fazer uma faxina na política nacional, inicia-se com personagens, digamos, com uma avançada quilometragem na vida política e um histórico que atenta contra os próprios discursos.

As eleições de 2018 ficaram marcadas na história política e social do Brasil. “Nunca antes na história deste país” flagrou-se tanta participação popular em um processo eleitoral, embora nos dias de votação o nível de abstenção tenha se mantido alto em todas as regiões do país.

É bem verdade que esta adesão popular à campanha eleitoral (num todo) se deve majoritariamente aos dispositivos eletrônicos e as poderosas redes sociais que, assim como foram fundamentais nas eleições estadunidense de 2016, e o processo denominado de Brexit (saída do Reino Unido da União Européia), no mesmo ano, deram o tom, a retórica e o rumo que às eleições tomaram no Brasil.

Desde o início da campanha oficial na mídia, em 31 de agosto último, eu fui analisando o comportamento do eleitorado nas redes sociais. Claro que não disponho de mecanismos/instrumentos de pesquisa que me garantem resultados amplos, como garantem aos órgãos que se debruçam sobre fatos relacionados ao dia a dia da campanha.

Minhas análises foram meramente observações que beiravam à curiosidade, valendo-me de algumas teorias adquiridas em estudos durante a minha formação de futuro cientista social.

Prometendo ser a campanha mais barata da corrida presidencial, a candidatura de Jair Bolsonaro iniciou os trabalhos anunciando algo novo no cenário político do Brasil. Ele, mesmo estando há 28 anos diretamente na política como parlamentar, prometia ser o diferencial da política, principalmente na questão da segurança pública e no combate à corrupção.

Dono de um vocabulário esdrúxulo e uma flagrante incapacidade cognitiva, o capitão da reserva e (até então) candidato a presidente do Brasil flertou com setores, digamos, pouco requisitados no país, a começar pela indústria armamentista, que desde a derrota no referendo, em 2005, sobre a posse de armas da população, não logrou mercado superior ao que já possuía por aqui.

É curioso esse aceno do capitão da reserva à industria de armas, visando a segurança do “cidadão de bem”, uma vez que, sendo parlamentar desde a redemocratização do país, nunca apresentou um projeto de lei que contemplasse a questão da segurança pública.

Aproveitando o ensejo, é preciso ter uma política voltada à segurança pública, que valorize a inteligência antes de apertar o gatilho. A chamada guerra contra as drogas só obteve resultados desastrosos em todo o mundo e uma significativa parcela da comunidade internacional está repensando às políticas de combate ao tráfico de drogas.

Política de segurança pública perpassa planos estratégicos que guarneçam fronteiras, portos, rodovias, aeroportos. Muito mais do que as famigeradas operações em comunidades descobertas de proteção estatal, é preciso traçar planos de ação e economizar munição.

Bom, voltando ao fio da meada deste texto, Jair Messias (com o perdão do trocadilho) apresentou-se como o messias da política brasileira; o paladino da justiça tupiniquim.

Fez discursos inflamados para sua militância aguerrida (sim, não houve militância mais aguerrida do que a do Jair; nada que se falasse dele em um tom que o colocasse no patamar de humano, ou seja, passivo de erros, passava despercebido pelos seus atentos soldados), atacou adversários no tom que lhe é peculiar, acusou de fraude às urnas eletrônicas, etc. Porém, nada mais foi tão exaltado por ele e pela militância, do que o combate à corrupção.

Antes mesmo do dia 28 de outubro (segundo turno das eleições), já havia certa peregrinação ao condomínio que Jair mora com a família, no Rio. Esse lugar tornou-se nos últimos dias uma espécie de Meca a la Barra da Tijuca em que peregrinos, novos convertidos e a imprensa nacional e internacional se deslocavam.

Dentre os muitos que foram para o condomínio, uns nomes que farão parte do anunciado governo Jair Bolsonaro, a partir de janeiro de 2019, e, cá prá nós, alguns com implicações que, segundo o discurso de campanha, deveriam ser eliminados.

Vamos falar sobre o homem forte do governo Bolsonaro (não estou falando do General Mourão, tá ok?!). O já anunciado ministro-chefe da casa civil, Ônyx Lorenzoni (DEM/RS), admitiu em entrevista que recebeu uma “doação” da JBS, para cobrir despesas de campanha de 2014. Foram 100 mil reais não declarados, ou seja, via caixa 2, o que configura crime eleitoral.

Questionado por não ter declarado este montante na prestação de constas à Justiça Federal, o parlamentar pediu desculpas aos eleitores do Rio Grande do Sul, mas a grana não foi devolvida. O que leva um parlamentar a receber uma quantia de 100 mil reais via caixa 2 (ou seja, ilegal), pedir desculpas ao eleitor, e agir como se nada tivesse acontecido?!

O que faz com quê este fato não tenha a atenção devida a um ato de corrupção, em contrapartida com tantos outros da mesma natureza?! Cá pra nós, o que leva uma empresa a “doar” 100 mil reais para um parlamentar, em vistas a sanar dívidas de campanha, tão somente?!

Em uma entrevista coletiva concedida em Curitiba, o futuro ministro da Justiça (e cia. Ltda), Sérgio Moro, ao ser questionado sobre o caixa 2 do Lorenzoni, disse que: “ele já pediu desculpas sobre o ocorrido”. Eu posso entender então, diante da fala do futuro super ministro, que basta um corrupto pedir desculpas dos males feitos, que está tudo bem (desde que não seja do PeTê, é claro).

Outro homem forte da equipe de transição do Bolsonaro, chamado pelo presidente eleito de “homem forte da Paraíba” e “amigo de primeira hora”, Julian Lopes (PSL-PB) foi acusado por três vezes, via Lei Maria da Penha, por ter agredido a ex-esposa e por ameaçá-la com arma de fogo.

Em 2011, o eleito deputado federal supracitado foi condenado no primeiro grau de jurisdição por estelionato. Jair, quando se referiu ao Julian Lopes, disse: “ele deu suas caneladas na vida também…”, e minimizou o fato chamando-o de “homem forte da Paraíba”. Ameaçar a ex-esposa e cometer crime de estelionato, agora, nas palavras do presidente eleito, é “dar umas caneladas”…

Várias respostas podem surgir das indagações acima; vários olhares sobre o mesmo fato; várias interpretações sobre quem recebe “doações” de empresas para políticos. Eu tenho uma visão sobre esse fato do Ônyx: se o próprio presidente eleito recebeu 200 mil, entregou ao partido dele quando estouro o escândalo da JBS e recebeu do partido sob o viés de doação de campanha, imagina se o seu homem forte não poderia receber 100 mil?!

Antes que pense que eu estou torcendo para que o governo Bolsonaro dê errado, que seja repleto de escândalos e mergulhe o Brasil numa crise pior do que estar, eu vos digo que não sou masoquista e, sendo assim, não quero que o país que nasci e vivo fique pior do que se encontra.

Quero que nosso Brasil possa elevar os níveis de educação, emprego, satisfação, felicidade; desejo que a população brasileira celebre bons e favoráveis tempos, sem violência, sem preconceito, sem ódios, sem rancor. Aceito o resultados das urnas sim, e não vou ficar no ouvido do presidente eleito, como ficaram no ouvido da Dilma, de 2014 até o seu impedimento.

Que o Brasil encontre o caminho da harmonia, da paz, da segurança, mas respeitando as diferenças, as necessidades regionais e as leis. Tinha vários assuntos que poderia tratar neste texto, porém, deixá-los-ei para outras oportunidades, até porque 2019 vem aí, e como oposição programática e responsável, ficarei vigilante aos caminhos que serão percorridos pelo próximo governo.

Fiquemos atentos e vigilantes, mas com a certeza de que queremos o melhor para o nosso tão sofrido Brasil.

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