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Uma das pastas mais disputada em qualquer governo é a da Educação, cuja sigla do ministério ainda se apresenta como MEC. A Educação como um todo é alvo de disputas das mais acaloradas, algo que não acontece apenas em nosso tempo, mas, desde a primeira metade do século passado. Disputas de lá, polêmicas de cá, o ministro da Educação em viva voz, e sua acessória, geraram algumas polêmicas com altas temperaturas, tudo isso em menos de 60 dias de mandato.

Escolhido pelo próprio presidente do Brasil para ser o ministro da Educação, o professor naturalizado brasileiro, Ricardo Vélez Rodrígues, disse em entrevista à Revista Veja que foi questionado pelo chefe do executivo nacional da seguinte forma: “Vélez, você tem faca nos dentes para enfrentar o problema do marxismo no MEC?”. Você que me lê neste momento, de forma honesta, acredita mesmo que teve uma ideologização marxista dentro do Ministério da Educação?

Para acreditarmos que o MEC tem um viés marxista, é preciso entender que o PT se aproximasse do marxismo, algo inimaginável até mesmo para os quadros do próprio PT. Entretanto, há quem acredite piamente que o PT é marxista, socialista e comunista (assim mesmo, tudo junto e misturado, sem ao menos entender a diferença entre eles); para essas pessoas (e se você for uma delas), sugiro a leitura de um texto de minha autoria publicado aqui na Biblioo (Luiz Inácio Lula da Silva: um animal político, esculpido e acabado)

De volta ao tema deste texto. No prédio sede do ministério em Brasília, vê-se um mosaico com a esfinge de Paulo Freire. Muitos eleitores do presidente, embarcando na onda frenética do discurso ideológico durante a campanha eleitoral, acusavam Paulo Freire de inúmeros impropérios. Consta que o professor pernambucano (Paulo Freire) é reconhecido internacionalmente como o grande pedagogo brasileiro, ícone para várias gerações de estudantes e admiradores.

De acordo com o ministro, na década de 1990 (durante o governo Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso, por assim dizer), já havia indícios do aparelhamento petista no ministério da Educação, e que ele próprio vai trabalhar a frente do ministério, para debelar e “despetizar” o MEC. Embora vivamos a todo vapor na sociedade da informação, em que temos a oportunidade nos informarmos dando apenas alguns cliques em computadores e em dispositivos móveis, uma parcela significativa da população brasileira acredita em coisas inacreditáveis que são veiculadas nas mídias sociais de largo alcance.

O discurso do atual governo tem uma estratégia bem parecida com o que se usou na campanha eleitoral: solta uma notícia bombástica, daquelas que causam frisson em toda a sociedade, e que faz com que as pessoas, mesmo de forma involuntária, falem sobre o fato no seu dia a dia. Daí, a equipe governamental que trata de assuntos relacionados à imprensa, fica monitorando a tensão causada pela notícia, e recomenda ao governo voltar ou não atrás. Inúmeras vezes o presidente voltou atrás sobre o que fora dito dias antes. O governo sabe com quem fala e para quem fala, os cidadãos que votaram no atual presidente têm a sua fala como que verdade absoluta, e por isso, vivem soltando notícias que qualquer pessoa que fez lógica no ensino médio, desconfiaria.

O MEC, como não poderia deixar de ser, tem feito muito do que fora dito acima. Em uma nota oficial, em resposta a um comentário de autoria do jornalista Ancelmo Góis (de O Globo), o ministério desmente que o Instituto Nacional de Surdo (Ines) tenha retirado de sua página na internet, vídeos que falavam sobre autores, digamos, que vão de encontro com a ideologia do atual governo. Os vídeos relatavam fatos sobre a vida e obra de Marx, Foucault, Rosa de Luxemburgo, Weber, dentre outros, e acusa o colunista de ser agente da KGB, uma espécie de polícia da extinta União Soviética. Além da loucura de associar o Ancelmo Góis à KGB, o texto trazia erros de separação de sílabas, além de estar disposto fora dos padrões estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas. Longe de mim fazer a patrulha normativas aqui, mas o MEC tem a obrigação de soltar uma nota oficial que respeite os padrões da norma culta da língua vigente.

Na mesma entrevista que já fiz menção acima, o ministro da educação do Brasil, afirmou que os brasileiros agem como canibais no exterior; que roubam tudo, inclusive assentos salva-vidas de avião, não obstante, atribuiu ao Cazuza, uma frase que não é dele, gerando um desconforto com sua mãe (Lucinha). Lambança atrás de lambança, o MEC vai tentando conquistar a confiança dos brasileiros, mas, conforme o tom da música que se toca, penso que a confiança neste novo MEC, será algo próximo da imaginação.

Pesquisa do MEC sobre gênero na Educação

O Ministério da Educação do Brasil, dispondo de suas atribuições constitucionais e orçamentárias, encomendou uma pesquisa de caráter informacional ao Instituto GPP em janeiro de 2018, sobre o que deveria estar no currículo escolar. Para a surpresa geral da nação, e desgosto dos conservadores de plantão, o resultado da pesquisa foi algo que me encheu de alegria, porém, a pesquisa não foi divulgada.

Sem muito mistério, vamos aos fatos. O MEC solicitou essa pesquisa ao GPP, no valor de 216 mil reais. À pesquisa seguiu a mesma lógica que as pesquisa eleitorais seguem, ou seja, semi estruturadas, em que o/a entrevistado/a responde as indagações do entrevistador. O questionário foi apresentado da seguinte forma: questões de gênero e sexualidade devem estar no currículo? 55,8% disseram que sim; 38,2% não; 6% não responderam. Resposta entre os católicos: 57,5% sim; 35,5% não; 7% não responderam. Resposta entre os evangélicos: 46,7% sim; 48% não; 5,3% não responderam.

Outra pergunta foi feita pelos entrevistadores da pesquisa, e as respostas são as seguintes: você sabe explicar o que é ideologia de gênero? 37,4% sim; 62,6% não. É um tema que deve estar no currículo escolar? 34% sim; 38,6% não; 27,4% não sabem /não responderam. A pesquisa segue com perguntas sobre racismo, homofobia e gênero, tudo relacionado com o ambiente escolar; vale à pena dar uma lida na matéria do portal de notícia G1 sobre a pesquisa.

É preciso tornar público aqui que, o Ministério da Educação do Brasil encomendou uma pesquisa que custou 216 mil reais aos cofres públicos, e que não foi divulgada para conhecimento geral dos contribuintes brasileiro, que de resto, mantém a estrutura estatal de pé. Qual seria o motivo pelo qual o MEC não quis divulgar o resultado dessa pesquisa? Será que podemos intuir que o ministério não gostou dos números obtidos pelos entrevistadores? Podemos nós imaginar que o MEC está ideologicamente aparelhado por forças conservadoras? É bem verdade que a pesquisa foi encomenda em janeiro de 2018, ou seja, ainda no governo do presidente golpista Michel Temer.

O portal de notícia G1, só teve acesso aos resultados referentes à pesquisa, fazendo valer a lei de acesso à informação. Somente assim, alguns brasileiros puderam ter contato com uma informação importante para debatermos os rumos da Educação que se deve ter neste país. Se a maioria da população entrevistada quer que se ensine sobre gênero, racismo, homofobia nas escolas, que assim se faça! Entenda que aqui não se está fazendo nenhuma convocação para a famigerada ditadura gay, como algumas pessoas insistem em acreditar; não existe ditadura gay! O que se quer aqui são duas coisas: ter acesso amplo e irrestrito à informação; e que as diferenças sexuais, raciais, regionais e de gênero, sejam respeitadas e tratadas com dignidade, tal qual precisa ser o tratamento dispensados aos seres humanos.

O MEC errou em ocultar da população o resultado de uma pesquisa fundamental para se pensar o futuro do país através da Educação. O MEC continua errando em tratar a Educação que visa liberdade dos que ensinam e aprendem como problemas relacionados ao marxismo. De forma flagrante, o Ministério da Educação está enviesado com doutrina altamente conservadoras (ou que se pretende serem conservadoras), em detrimentos de conhecimentos necessários para a humanidade, e que são respeitados internacionalmente.

Sabemos que o conhecimento liberta, e prepara cidadãos para a vida. Pode ser que o atual governo (e não só este, diga-se de passagem), tenha medo de que a população tenha conhecimento que possa ir de encontro à forma com que se está conduzindo as coisas no país. Com o frenesi que se instaurou no Brasil de alguns anos pra cá, em que a patrulha moral ganhou largo terreno na sociedade (mesmo que as práticas sejam contrárias ao discurso), é preciso que os cidadãos do campo progressista levantem-se para combater retrocessos em uma sociedade altamente plural com a brasileira.

Pela informação continuarei na luta, seja aqui na Biblioo, seja no Canal Entrestantes no youtube, e nas redes sociais de forma geral, é preciso falar e se posicionar contra os retrocessos feudais que querem impor à sociedade brasileira (que cá pra nós, já tem muita coisa da Idade Média).

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