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Rio – Recentemente o Complexo do Alemão [conjunto de favelas carioca] passou por intervenções militares oriundas da política de segurança do Estado do Rio de Janeiro, em que os resquícios dessas operações ainda continuam presentes no cotidiano da comunidade.

Quando nos deparamos com notícias e comentários sobre o Complexo do Alemão na mídia, uma das primeiras imagens que nos vem à mente são as cenas de guerra e de violência da ocupação militar e recentemente dos conflitos entre o Exército e a comunidade local. Mas a periferia não se resume somente a esses fatos. A periferia também é poesia, é uma viagem pelo universo dos livros através da atuação do Livreiro do Alemão.

É através da leitura que Otávio Junior pretende mudar a história de violência dessa região. Nascido na Penha, zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, ele criou o projeto “Ler é dez, Leia favela”. Sua história se confunde com a de muitos jovens moradores das periferias brasileiras. A falta de perspectiva e dos direitos básicos como saúde, educação e cultura acabam engessando muitos deles para um caminho sem volta: o tráfico. Mas Otávio preferiu seguir o rumo contrário: o caminho da leitura e dos livros.

Carioca, escritor, morador de comunidade, torcedor do Vasco e um apaixonado por livros, Otávio é um exemplo de quem acredita nos seus sonhos e ideais. Hoje ele se sente realizado ao fazer um trabalho de incentivo à leitura com a sua comunidade.

Ler é dez, Leia Favela

Ler é dez, Leia Favela” surge a partir de uma inquietação de Otávio Júnior. A falta de interesse das crianças da comunidade pela leitura e a carência de movimentos culturais despertou nele a vontade de ser um agente cultural. A partir disso, decidiu levar os livros e a leitura para as crianças que residem na região do conjunto de favelas do Alemão. O objetivo do Ler é dez, é aproximar a criançada do mundo da leitura através de oficinas de leituras, contações de histórias, palestras e até mesmo peças teatrais, tudo com autoria de Otávio, que em prol do projeto cede seus direitos autorais.

Mas a trajetória de Otávio à frente do Leia Favela também foi marcada por momentos difíceis. No ano de 2007, seu projeto ficou ameaçado de ser extinto devido aos intensos conflitos entre policiais e traficantes no Complexo do Alemão. A falta de segurança e medo das mães em deixar seus

filhos nas atividades de leitura devido aos conflitos chegou a fazer Júnior pensar em desistir de tudo. “Mas quando acreditamos em um sonho, não são os obstáculos e nem as adversidades que nos fazem desistir”, destaca. Otávio Júnior persistiu e está colhendo os frutos de sua perseverança.

Em 2006 ganhou o prêmio de 10 mil reais do quadro Agora ou nunca, do programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo. Com esse dinheiro fez o registro de marcas e patentes do projeto, comprou um computador, uma impressora, uma câmera digital e criou o blog Ler é 10 – Leia favela

(http://www.leredezleiafavela.blogspot.com/). Em 2008, recebeu o prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo.

Atualmente o seu projeto conta com apoio de duas instituições não governamentais: o Instituto Kinder do Brasil e da Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica (Afeigraf). Mesmo com esse reconhecimento, Júnior comenta que ainda tem dificuldade para captação de recursos para contribuir com as atividades desenvolvidas por ele, podendo assim, atingir um número maior de crianças.

Em 2011 lançou o livro, O Livreiro do Alemão, pela editora Panda Books em que conta sua própria história de vida, até chegar à ideia de criação do Ler é dez, Leia Favela.

O sonho do Livreiro do Alemão

Otávio almeja ver todas as crianças do Alemão lendo. Para ele o trabalho de combate à violência tem que ser democrático: “tem que democratizar o acesso à educação e a cultura, para que uma nova geração de pensadores seja criada; tem que democratizar o acesso a informação nas comunidades”, ressalta Júnior.Sabemos que muito ainda precisa ser feito para combater a violência na cidade do Rio de Janeiro. Como é de conhecimento geral, em breve a cidade maravilhosa será palco de grandes eventos esportivos. Sendo assim, o mínimo que se espera é que as políticas de governo que estão sendo criadas venham atender as necessidades do povo e não as demandas do turismo e dos interesses mercadológicos.

O seio das comunidades carioca precisa de educação e cultura e não de repressão. A atuação do Livreiro do Alemão, já está contribuindo para que as crianças do Alemão venham pelo menos a ter o direito de sonhar, nem que seja no universo e na imaginação das estórias dos livros e das contações de histórias do projeto.

O sonho de Otávio Júnior é transformar o Complexo do Alemão na maior biblioteca a céu aberto do mundo. Quando esse dia chegar, finalmente os versos de Cartola de fato terão mais sentido, “Alvorada lá no morro que beleza, ninguém chora não há tristeza, ninguém sente dissabor, o sol colorido é tão lindo, é tão lindo”.

Clique aqui e leia integralmente a entrevista de Otávio Júnior que compôs essa reportagem.

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Comentários

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1 Comentário

  1. 6 de outubro de 2011 a 20:45 — Responder

    São iniciativas como essa que toda comunidade precisa!

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