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Em 1970, o médico militar Jeffrey MacDonald estava no auge do vigor físico e profissional. Integrante das forças armadas norte-americanas, MacDonald era bem-apessoado, promissor, casado e pai de duas meninas – em pouco tempo, seria pai de mais uma criança. No início do ano, em uma madrugada silenciosa na base militar de Fort Bragg, alguém invadiu a casa dos MacDonalds e desferiu golpes de faca e picador de gelo contra Collete, de 26 anos, Kimberley, de 5 anos e Kristen de 2, esposa e filhas de Jeffrey MacDonald, respectivamente. A violência das mortes chocou a sociedade norte-americana e o mundo. Além de esfaqueadas inúmeras vezes, as vítimas foram espancadas e golpeadas. Jeffrey MacDonald sofreu apenas ferimentos leves.

Antes de supostamente perder a consciência, o médico ligou para o serviço de emergência e disse que sua casa havia sido invadida por lunáticos pertencentes a uma seita. Forneceu descrições precisas e descreveu a situação em que se encontrava a casa no momento do ataque. A história contada por MacDonald começou a ser questionada pelos investigadores, que não localizaram provas concretas da suposta invasão.

Depois de ser detido pela polícia do exército, o médico atravessou extensa investigação e uma longa audiência preparatória de corte marcial. Foi inocentado. Não demorou muito para que concedesse uma entrevista para um programa de grande audiência nacional onde se queixou do tratamento injusto que recebeu durante seu encarceramento sem, no entanto, mencionar a família brutalmente assassinada.

A partir desse ponto, diversas reviravoltas ganharam força no caso. O sogro de MacDonald tornou-se seu incansável perseguidor e as investigações foram reabertas. Em 1979, Jeffrey MacDonald foi condenado à três penas consecutivas de prisão perpétua. Antes do julgamento, o médico permitiu que o jornalista Joe McGinniss tivesse acesso irrestrito a todos os documentos e passos do processo.

MacDonald e McGinniss se tornaram amigos inseparáveis, no melhor estilo Damão e Pítias, trocando confidências e encarando a vida como dois playboys de trinta anos, com amor a esportes e o retroalimentado fascínio por mulheres jovens e bonitas. Joe McGinniss foi contratado pelo médico para escrever sua biografia e ajudar a torná-lo a vítima que ele tanto clamava ser. O jornalista, que trazia na sacola livros como “The Selling of the President” (1969), uma narrativa sobre os bastidores da campanha presidencial de Richard Nixon em 1968, aceitou a incumbência.

Capa o livro “O jornalista e o assassino” de Janet Malcolm. Imagem: divulgação

O que Joe McGinniss esqueceu de avisar ao crédulo (será?) amigo Jeffrey MacDonald é que ele não estava para brincadeira. Sem qualquer escrúpulo, o jornalista usou de toda a sua influência sobre o acusado para escrever “Fatal Vision” (1983), um relato inclemente que descreve Jeffrey MacDonald como um sádico, psicopata, narcisista e indubitavelmente homicida qualificado, responsável pelo assassinato da esposa grávida e das duas filhinhas. Estarrecido e traído, MacDonald processou o ex-amigo jornalista. Para evitar maiores gastos, McGinniss e sua seguradora chegaram a um acordo e pagaram uma polpuda indenização ao médico.

Esse é o cenário que a jornalista veterana Janet Malcolm disseca. Uma das mais importantes profissionais do ramo, Malcolm tem longas reportagens veiculadas na The New Yorker, vários livros publicados, inúmeros prêmios e menções honrosas. Nascido de uma reportagem, “O jornalista e o assassino” (2011) é uma narrativa argumentativa essencial para profissionais da área e estudiosos da imprensa.

Logo na introdução do livro, Janet Malcolm dispara: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que não está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas”.

O petardo certeiro não está ali por acaso: durante as quase duzentas páginas da edição publicada pela Companhia de Bolso, selo da editora Companhia das Letras, Malcolm drena as nuances da relação entre o jornalista Joe McGinniss e o médico condenado por assassinato Jeffrey MacDonald, ressaltando a arapuca desenvolvida por McGinniss para conseguir criar um romance. A jornalista deixa claro que no jogo entre entrevistador e entrevistado não há inocentes e, se houver, certamente não é o profissional bem treinado para fisgar fatos, manipular falas e deduzir pensamentos, inserindo-os nos textos como afirmações.

Por meio da pena analítica de Janet Malcolm, acompanhamos os depoimentos de quem esteve nos bastidores do caso MacDonald X McGinniss: advogados, especialistas, repórteres e outro batalhão de envolvidos. Descobrimos também um McGinniss receoso em conceder entrevistas, titubeante em suas afirmações e hesitante, a qualquer custo, em reconhecer em si mesmo um manipulador.

Adjetivo este que não gaguejou ao se referir ao ex-melhor amigo MacDonald. O médico condenado, por sua vez, parece não aprender nunca com os erros e tenta persuadir até mesmo Janet Malcolm a tomar seu partido na história toda. Narcisista e bom ouvinte, o condenado revela duas faces de sua personalidade sem, no entanto, ser conclusivo.

Até hoje, quase cinquenta anos depois, o caso gera polêmica e reacende os ânimos – sentimento de natureza similar provocado por Janet Malcolm no meio jornalístico. Muitos profissionais da área apontam o dedo para as acusações e o ceticismo da colega que, em suas conclusões, diz que o grande erro de Joe McGinniss foi ter agido ardilosamente, iludindo e enganando da forma mais pérfida possível seu entrevistado.

Entre idas e vindas reflexivas, Janet Malcolm questiona o papel da ética jornalística de maneira lúcida e direta, o que torna esse trabalho leitura fundamental nas faculdades de comunicação e nos espaços de debate sobre a atuação da imprensa.

Se, enquanto profissionais da área, recorrermos às nossas paixões e a nós mesmos para solucionarmos enigmas que não nos pertencem, o que será da tentativa de objetividade, zelo, apuro, moral e ética do trabalho realizado como produtores de notícia? No cenário brasileiro, basta lembrarmos do desastroso caso da Escola Base, ocorrido na cidade de São Paulo, em 1994.

Acusados de abusar sexualmente de crianças, os proprietários da instituição e mais seis funcionários tiveram suas vidas devassadas pela opinião pública e pela imprensa. Sem provas ou qualquer materialidade que os apontassem como culpados, os donos da escola morreram com a fumaça desse erro policial, jornalístico e social pairando sob suas cabeças.

Ainda surfando na crítica de Janet Malcolm, fica a reflexão honesta para entrevistadores e entrevistados: “As pessoas contam as suas histórias aos jornalistas do mesmo modo que os personagens dos sonhos transmitem as suas mensagens elípticas: sem aviso, sem contexto, sem levar em conta o quão estranhas elas vão parecer quando o que sonha acordar e repeti-las”.

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