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“O cano do fuzil refletiu lado ruim do Brasil nos olhos de quem quer e me viu único civil rodeado de soldados como se eu fosse o culpado, no fundo querendo estar a margem do seu pesadelo, estar acima do biótipo suspeito mesmo que seja dentro de um carro importado”… (Tribunal de Rua – Marcelo Yuka)

Domingo é um dia de lazer, ideal  para ficar junto da família e descansar da rotina dura de trabalho da semana. Assim como muitos de nós, Evaldo Rosa dos Santos reuniu sua família e se dirigiu para participar de um chá de bebê. Em seu carro estavam sua esposa, Luciana Nogueira, com quem era casado por 27 anos, seu sogro, Sérgio Gonçalves de Araújo, de 59 anos, seu filho de 07 anos e uma amiga da família. Ao chegar na região da Vila Militar, em Guadalupe, na Zona Oeste do Rio, o passeio de domingo à tarde com a família foi interrompido por mais de 80 tiros de fuzil disparados pelo Exército.

Como de praxe, a resposta oficial padrão é a de que os militares disparam porque estavam respondendo a uma “suposta agressão de assaltantes”. Mas, como diz o dito popular: “contra fatos não há argumentos”, no carro não foi encontrado arma de fogo e não existiu nenhuma abordagem ou sinalização por parte dos militares para averiguar o veículo. O status quo estabelecido nas favelas cariocas pelo Estado e segurança pública é o de primeiro puxar o gatilho e depois checar a identidade.

Nesse caos urbano, perdemos de vez a ternura e a “carne negra” como sempre é a mais barata e cada vez menos valorizada. De acordo com os dados do Atlas da Violência de 2018, os negros, especialmente os mais jovens, são o perfil mais frequentes de homicídios no Brasil. Um jovem negro está muito mais suscetível a ser vítima de violência do que os jovens brancos. Os negros, por sua vez também são as principais vítimas das ações letais do Estado, e, além disso, é o perfil majoritário da população carcerária.

A omissão e a desumanidade das “autoridades” 

Em qualquer país sério ter um pai de família executado seria motivo de indignação e até mesmo solidariedade por parte dos governantes. Mas nas terras tupiniquins, a ignorância e o descaso por parte dos políticos eleitos pelo povo são desumanos e perversos.

O governador, Wilson Witzel, em um dos seus primeiros compromissos depois do ocorrido, logo procurou se eximir de qualquer responsabilidade, “não me cabe fazer juízo de valor sobre a ação de militares em Guadalupe”, afirmou Witzel ao jornal O Globo na noite da segunda-feira após a execução. Postura bem diferente da qual assumiu assim que foi eleito ao cargo de governador ano passado. Em entrevista ao Estadão depois das eleições, Witzel garantiu que a autorização para o abate seria oficializada em seu governo, em um Estado que conta com em torno de 500 registros de assassinatos por mês, sendo 16 por dia: “a polícia vai mirar na cabecinha e.. fogo”, disse o governador.

O então presidente, Jair Bolsonaro, ainda não tinha se pronunciado a respeito da execução de Evaldo dos Santos e cinco dias após o caso Bolsonaro pela primeira vez se pronunciou em evento de inauguração de um aeroporto em Macapá. “O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo e não pode acusar o povo de ser assassino. Houve um incidente, uma morte”, disse o presidente.

A declaração de Bolsonaro é de uma desumanidade e de uma falta de solidariedade sem tamanho. Em momentos como esse o que se espera de um presidente é que ele venha a público com uma palavra de solidariedade, que cobre da Justiça Militar, responsável pela investigação, celeridade na apuração do caso e que disponibilize uma assistência e apoio aos familiares do músico executado pelo Estado brasileiro.

Depois dessa declaração era melhor que o presidente ficasse calado. É inadmissível o representante maior da nação se comportar dessa maneira. Demonstra mais indignação com uma “urinada” no Carnaval do que com a vida de um pai de família, demonstra solidariedade com a prisão de Danilo Gentili, acusado de ofender a deputada Maria do Rosário chamando-a de “puta”.

Não se trata de uma questão de diferenças políticas, estamos falando de solidariedade, de compaixão e de respeito a uma família que teve seu ente executado com mais de 80 tiros. Isso na foi um incidente, não foi por acaso ou engano, foi uma execução e ponto final.

E não parou por aí. Três dias após a execução de Evaldo, deputados do Rio aprovaram na Alerj o Projeto de Lei que lhes garante o porte de armas de fogo. O referido projeto é de autoria do deputado Marcos Muller (PHS) e a medida foi incluída em uma proposta para armar agentes de segurança do sistema socioeducativo do estado. O placar da votação foi de 44 votos a favor e 11 contra.

A perversidade de Bolsonaro, a omissão de Witzel e a insensibilidade de alguns deputados cariocas reflete em que o Rio de Janeiro se transformou: um faroeste urbano, uma selva de pedra, uma cidade que dá o aval para um segurança asfixiar um jovem negro até a morte; de prender jovens negros injustamente; de executar um pai de família; de acorrentar um jovem negro no poste de rua; de executar jovens na Candelária; de executar jovens em Costa Barros, de executar uma juíza, de executar uma vereadora, etc.

Diante da tragédia cotidiana, o tempo fechou, ficou sombrio e a “cidade maravilhosa” chorou através de uma chuva torrencial que levou vidas, destruiu histórias e revelou nossa ignorância e crueldade.

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