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“Pode chamar isso de amor tortuoso, paixão barroca, perversão, pulsão masoquista ou, simplesmente, de submissão a uma personalidade esmagadora, diante da qual ela não conseguia opor nenhuma resistência”. Essa afirmativa, exposta nas páginas 280 e 281 da obra, catapulta uma história de amor que habita entre o animalesco e o terno; entre o desejo e a reparação; entre a fidelidade e a traição. O premiado autor peruano e ex-candidato à presidência do Peru, Mario Vargas Llosa, soube como construir uma narrativa que vai além do certo ou errado através das sutilezas de “Travessuras da menina má“, um romance que alcança muito mais do que o triunvirato amor-mudanças-destino para ir de encontro às grandes mudanças recebidas pelo mundo na década de 1950 até o final dos anos 80.

Capa do livro Travessuras de uma menina má. Imagem: Divulgação

Ricardo Somocurcio, um jovem peruano cujo maior objetivo na vida é ir morar em Paris, conhece, ainda na adolescência, a bela e misteriosa Lily, menina conhecida no tradicional bairro de Miraflores como chilenita. Desde esse tempo, Ricardito, como era chamado, tenta cortejar a menina e ocupar o posto de namorado. Muitos acontecimentos mais tarde, Ricardo vai viver em Paris – sonho finalmente realizado – e se emprega como tradutor da Unesco. Lá, o peruano faz amizades com guerrilheiros e ativistas do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) e reencontra a ex-chilenita com o nome de camarada Arlette. A partir desse momento, a história de Ricardito e da menina má (alcunha que ele oferece à conterrânea, já que não sabe nada sobre seu nome verdadeiro e suas origens) se intercala em longos períodos de ausência e um tórrido romance, atravessando Paris dos anos 60 e toda a revolução e pensamento que pareciam borbulhar da capital francesa para esbarrar em Londres das comunidades de paz e amor, dos ácidos lisérgicos e marijuanas,  do movimento do amor livre, da aids. Uma década depois, respira arduamente na Tóquio dos yakuzas. O repouso final está em Madri de 1980, cercada pelas grandes mudanças políticas, pela babel urbana e últimos suspiros.

Llosa, que conquistou prêmios importantes como Cervantes, Príncipe de Astúrias, PEN/Nabokov e Grinzane Cavour, criou personagens sinceros e com toques suaves de experiência autobiográfica. Não há como ficar indiferente aos encontros sexuais de Ricardo (o “coisinha à toa”, “menino bom”) e da menina má, uma mulher que tem ânsia de riqueza, poder, prestígio e status. Uma personagem que inverteu os papéis tradicionais: ao invés de dar prazer, resignada aos pedidos masculinos, ela ordena ao amante proporcionar-lhe prazer e se concentra em tal.

A narrativa de “Travessuras da menina má” é próxima, acolhedora e gera identificação. Até mesmo aquela tiazinha beata pode ter atravessado uma fase de Ricardito embalada por antigas canções; ou ainda podemos fisgar o olhar perdido do pós-doutor famoso em uma mesa de bar, devaneando na melodia de outras canções igualmente saudosas e lembrando como seu coração foi sumariamente pisado por tantas meninas más. Llosa também invade corações como o seu, nobre e moderno leitor, ao fazer a história do “coisinha à toa” pular no seu copo de cerveja ao som daquela memória devastada.

Ler sobre as intempéries desse casal de peruanos do mundo nos faz lembrar como o amor não está a salvo, preso em uma redoma. Ele está solto no ar, na vida, e sujeito aos imponderáveis do destino.

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