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Os quatro números do registro do Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB) têm uma importância para bibliotecários pretos que são difíceis de serem descritas. Até chegar a ele percorremos um árduo caminho. Caminho que não foi vivido por todos, mas pela maioria das pessoas pretas.

Estamos nas estatísticas de vulnerabilidade social dentre os sujeitos que mais correm risco de morte, adoecimento e pobreza. Um homem preto com um CRB ativo representa uma vitória para todos nós. Um povo que se vê exterminado por um processo contínuo de genocídio. A cada ano as estatísticas comprovam que um homem preto que consegue sobreviver à juventude é um herói.

Heroísmo por sobreviver a cada encontro com a Polícia Militar (PM), sobreviver a guerras às drogas, à pobreza, à oferta de drogas e ao alcoolismo. Os livros embaixo dos braços é um fator de proteção para os pretos, mas homens que foram mortos quando retiravam a carteira para se identificarem, ao utilizarem uma furadeira, ao brincarem com amigos na porta de casa.

O racismo faz com que homens pretos aprendam desde pequenos a se portar diante de uma revista da PM. Aprendem desde crianças a falar “sim senhor”, “não senhor”, como faziam os escravos diante dos seus senhores nos engenhos. Muitos dos livros, que podem ser proteção, enraízam na mentalidade que eles são perigosos e propensos ao crime. Suas roupas podem torná-los bandidos, o chamado “kit peba”, uma filtragem seletiva dos PMs que já é rotina de serviço e de escolha do tipo de criminoso.

Uma mulher preta com CRB é também uma vitoriosa, que precisou quebrar toda uma expectativa sobre seu corpo e sobre seu futuro. Se em seu histórico familiar as mulheres trabalhavam na roça ou em casas de família dificilmente elas conseguem quebrar esse círculo vicioso. Quando uma mulher com essa ancestralidade marcada pelos serviços domésticos se torna uma bibliotecária, ela quebra todo um paradigma que foi pensado para ela, um local que a sociedade já almejava para ela. E que todos os dias ela precisa superar, pois na visão dos seus colegas, ela ainda representa um ideal daquela que deve servir.

Nas entrevistas de emprego as pessoas pretas precisam demonstrar ter características profissionais muito acima de seus outros colegas para conseguir um emprego. Precisam ter um currículo avantajado e cheio de recomendações para alcançar o que os outros conseguiram somente pelo privilégio da cor.

O bibliotecário preto brasileiro do século XXI é fruto de diversas lutas, fruto de uma militância que lutou para que as universidades fossem mais plurais, que as pessoas pretas pudessem adentrar esse espaço de poder e privilégio. Ainda somos muito poucos, mas basta observar as estatísticas para entender como nossas realizações, ainda que pequenas, são importantes para todo um povo.

Nossos passos vêm de longe, vem de uma terra da qual fomos arrancados para servimos de mão de obra, para servimos de peças de reposição para criar um mundo a imagem do colonizador. Essas terras colonizadas somente existem porque foram criadas por mãos pretas, foram as mãos escuras que fizeram todo esse país. São as mãos escuras que se juntam agora para fazer a mudança que precisa acontecer.

E a escrita preta tem uma importância enorme no processo de construção de sujeitos empoderados e resistentes ao racismo. A diversidade racial de profissionais culmina na diversidade de acervos que forma uma visão de mundo diverso do padrão branco, colonizado, massificado. A seguir apresentamos alguns textos de pessoas pretas que podem estar presentes em acervos de diferentes tipos de bibliotecas, principalmente universitárias, e serem aproveitados para diferentes abordagens.

Capa de “Ponciá Vicêncio” (Editora Pallas, 2014), de Conceição Evaristo. Imagem: divulgação

Ponciá Vicêncio (Editora Pallas, 2014), de Conceição Evaristo. O livo conta a história dos Vicêncios, descendentes de escravizados que viviam em terras de pretos, trabalhando para os brancos que dominavam os meios de produção da região e mantinham o sistema escravagista de relação de trabalho. Ponciá vive com saudades de casa, da sua ancestralidade, de sua casa simples no interior. Ela e seu irmão vão viver o sonho da cidade e vivem as angústias de migrantes na capital. Esse livro é importante para estudantes da psicologia e psiquiatria para entenderem o banzo preto e como as nossas vivências são marcadas por solidões e saudades. O bibliotecário de referência pode indicar este livro para profissionais de saúde que estudam a população preta e o sofrimento psíquico, assim como os que estudam migrações. A migração tem sido um fenômeno importante desta década e Conceição Evaristo mostra aos pesquisadores dessa temática um importante recorte racial. Também é indicado a quem estuda as relações do campo, quem estuda sobre os quilombos, sobre marxismo e as dominações dos meios de produção.

 

Capa do livro “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus. Editora Ática.

Quarto de despejo (Ática Editora, 2014), de Carolina Maria de Jesus. Retrato autobiográfico de uma favelada que registra em diários, vivências particulares e comunitárias. Um livro para entender relações entre pessoas que vivem em ambientes periféricos. A autora transcende a trajetória particular para retratar as pessoas que vivem na mesma comunidade e na mesma situação que ela. É um livro importante para entender a formação de comunidades periféricas nas cidades, para entender as disparidades sociais e raciais, para entender o que é a pobreza nas suas carências e dificuldades cotidianas. A fome, pobreza, discriminação já estão retratadas em livros de sociologia, mas na obra de Carolina esses fenômenos são retratados em primeira pessoa. Podem ser indicados a estudantes de serviço social, economia, sociologia, direito e todas as áreas de humanas e sociais.

 

Capa de “Americanah” (Companhia das Letras, 2014), de Chimamanda Adiche. Imagem: divulgação

Americanah (Companhia das Letras, 2014), de Chimamanda Adiche. Este livro serve para retirar as impressões erradas do continente africano que ficaram registradas nas mentes devido aos livros e mídia que retratam o continente como local de selvageria, fome e doenças. Há no imaginário coletivo um retrato do continente africano reducionista que Chimamanda, por meio da literatura, discute esses conceitos que estão enraizados. Os livros que estão na classe nove e retratam aventuras e descobertas no continente africano geralmente tem o olhar dos filmes do Indiana Jones ou dos desenhos da Disney que mostram pessoas selvagens antropofágicas. O bibliotecário de referência pode indicar para todos que fazem pesquisas sobre o continente africano, principalmente quem estuda sobre a Nigéria. Também é recomendável para estudos feministas para entender as relações entre mulheres e homens na cultura nigeriana. Também pode ser relevante para quem estuda globalização e seus efeitos.

 

Capa de “O que é lugar de fala” (Editora Letramento, 2017), de Djamila Ribeiro. Imagem: divulgação

O que é lugar de fala (Editora Letramento, 2017), de Djamila Ribeiro. Livro recém lançado que debate este termo contemporâneo que discute aquele que pode falar sobre certo assunto. Ler esse livro conjuntamente com o “Pode o subalterno falar”, de Spivak, dá um olhar importante para entender que durante muito tempo se falou no lugar de quem sofria a opressão, e falar pelo outro pode ser importante em alguns momentos, mas que o subalterno do qual se fala, também tem o direito de falar por si próprio. Existem diversas justificativas para que uma pessoa mais letrada, com mais dicção, conhecimento, representatividade fale pelos outros, mas é preciso dar espaço para que as próprias pessoas falem por si. Falar por si próprio é importante para todas as pessoas, mas é mais para quem sempre esteve fora, como as pessoas pretas, pessoas com deficiência, indígenas, ciganos, comunidades tradicionais, população de rua, LGBTs etc. Esses livros podem ser indicados aos estudantes de políticas públicas, para eles desenvolvam empatia e capacidade de diálogo com as minorias. Também é importante para os estudantes de direito, para que saibam dar voz nos processos as minorias e suas inquietações, para que o judiciário deixe de ser um local de opressão e passe a ser um local de justiça. Recomendado aos estudantes de relações internacionais, para que possam ter olhar mais amplo dos conflitos entre diferentes comunidades e culturas. Estes livros também podem ser utilizados na revisão de literatura de estudos de minorias para justificar a importância dos estudos.

capa de “Na minha pele” (Editora Objetiva, 2017), de Lázaro Ramos. Imagem: divulgação

Na minha pele (Editora Objetiva, 2017), de Lázaro Ramos. Estudo autobiográfico de uma pessoa com múltiplas funções no mundo artístico e uma representatividade importante para o movimento preto. Lázaro Ramos apresenta sua história sem vontade de ser um exemplo da meritocracia, sem ser um exemplo de superação. A meritocracia e o exemplo de superação são utilizados contra os pretos para evitar as políticas de cotas. Os opositores as cotas utilizam os exemplos, como Joaquim Barbosa, Obama e Oprah para dizer que qualquer um consegue alcançar seus objetivos se houver esforço. Esse diálogo da oposição invisibiliza as dificuldades estruturais que o racismo impõe as pessoas pretas fazendo com que tenham um diferente ponto de partida e dificuldades em toda a sua trajetória. O livro de Lázaro Ramos pode ser utilizado pelos cursos de artes cênicas para que os estudantes desta arte possam entender as trajetórias e percursos de um artista preto no Brasil.

 

Capa de “Mulher, raça e classe” (Boitempo, 2016), de Angela Davis. Imagem: divulgação

Mulher, raça e classe (Boitempo, 2016), de Angela Davis. Ativista preta americana relacionou as três coisas que não podem ser dissociadas no estudo de uma sociedade. O capitalismo é sustentado também pelo racismo estrutural que faz com que pessoas pretas estejam sempre em situação desigual ao restante da população. O machismo, patriarcado e suas estruturas congêneres também fazem parte de uma estrutura que mantém as mulheres pretas no último patamar da sociedade. O livro pode ser indicado para todos os estudantes das áreas socais e de sociologia. Também completa os estudos marxistas.

 

 

 

Capa de “Senti na pele” (Editora Malê, 2017), de Ernesto Xavier. Imagem: divulgação

Senti na pele (Editora Malê, 2017), de Ernesto Xavier. Organizado por Ernesto Xavier o livro recolhe textos publicados na página homônima do Facebook na qual as pessoas podem explanar sobre diversas situações de racismo que foram alvo. Não é um livro de vítimas, mas um livro de pessoas que tiveram coragem de expor suas dores para uma cura coletiva. A página é uma forma de expurgar os sentimentos dolorosos causados pelo racismo e que pelos comentários dos pares raciais podem ser curados e receber empatia. A página é um quilombo virtual, lugar de empoderamento preto e de afeto preto. Afeto preto cura as dores mais profundas. Esse livro pode ser indicado para pessoas que estudam racismo, relações raciais, racismo na saúde, psicologia, psiquiatria, entre outros.

 

 

Capa de “Corpo negro caído no chão” (Editora Brado Negro, 2017), de Ana Luiza Pinheiro Flauzina. Imagem: divulgação

Corpo negro caído no chão (Editora Brado Negro, 2017), de Ana Luiza Pinheiro Flauzina. Fruto da pesquisa de mestrado da autora na Universidade de Brasília, o livro retrata o genocídio preto brasileiro. O projeto de branqueamento brasileiro tinha inspiração eugênica de acabar com a população preta. Esse projeto continua pelo sistema criminal que tem um encarceramento seletivo de pessoas pretas. Neste livro é possível entender melhor todos os aspectos do genocídio negro e porque dizemos com pleroforia que a carne mais barata do mercado é a carne negra. O livro está na segunda edição pela Brado Negro e pode ser adquirido no site da editora. A dissertação está no repositório da Universidade de Brasília. A autora também dirigiu o documentário “Além do Espelho”, no qual registra o diálogo de duas das mais importantes vozes da resistência negra da contemporaneidade: o jornalista brasileiro Edson Cardoso e o cineasta etíope Haile Gerima. O livro de Ana Flauzina é indicado para o curso de direito, principalmente para estudos criminológicos e para as áreas socais e humanas.

Esses livros indicados neste texto são somente alguns atuais que estão disponíveis nas livrarias, lojas virtuais. O pesquisador Kabengele Munanga fez diversas bibliografias sobre o preto separadas por assunto que podem ser utilizadas como referência para a seleção de livros a compor acervos. É importante assinalar ainda que a lei nº 10.639, de 2003, obriga o estudo da história e cultura afro-brasileira e, portanto, o acervo da biblioteca escolar deve obrigatoriamente ser composto por obras que contemplem esse assunto.

É importante que o bibliotecário, na seleção de materiais, pesquise referências sobre os livros para não levar livros de conteúdo racista. No livro Peppa, da escritora e ilustradora Silvana Rando, lançado em 2009, adotado pela Prefeitura de São Paulo, pelo programa Minha Biblioteca São Paulo e incluído na Minha Biblioteca Itaú, a personagem Peppa tem um cabelo crespo capaz de arrastar objetos e que para ser “bonita” precisa alisar o cabelo.

Esse livro recebeu diversos comentários na Internet sobre seu conteúdo racista por retratar de forma pejorativa os cabelos crespos de Peppa. É importante que o bibliotecário procure referências sobre livros pretos e escolha os que retratem as pessoas negras de forma positiva. Os que argumentam a pluralidade de pensamento na biblioteca precisam se lembrar que os livros que apontam os pretos em situação pejorativa já estão nas bibliotecas. Um exemplo são as coleções do Sítio do Pica Pau Amarelo que retratam os personagens negros sempre de forma pejorativa, fruto do pensamento racista de seu autor.

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