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Jessé Andarilho nasceu no bairro do Lins, Zona Norte do Rio de Janeiro, e cresceu em Antares, comunidade localizada em Santa Cruz, último bairro da linha do trem, de mesmo nome, que liga o Centro aos bairros do subúrbio da cidade.  Na literatura, ideias sobre o subúrbio carioca aparecem, por exemplo, em Clara dos Anjos (1922), de Lima Barreto, onde o autor descreve o subúrbio como “o refúgio dos infelizes”.  Na música, Chico Buarque canta em Subúrbio (2006): “Lá não tem brisa, não tem verde-azuis, não tem frescura nem atrevimento. Lá não figura no mapa, no avesso da montanha, é labirinto, é contrassenha, é cara a tapa.”

Em 1974, a Comunidade de Antares surgiu como o primeiro conjunto habitacional de Santa Cruz.  O conjunto habitacional, assim como vários outros da Zona Oeste, foram destinos de vários moradores cariocas removidos da Zona Sul, de bairros como Lagoa, Gávea e Leblon.  Antares, por exemplo, em 1977, recebeu moradores do Vidigal.  A política repressiva de remoção das favelas foi uma das marcas da ditatura militar, principalmente na década de 1960.

Em 1949, no documento oficial do primeiro censo das favelas, encontramos percepções sobre os moradores de favelas como: “Não é de surpreender o fato de os pretos e pardos prevalecerem nas favelas. Hereditariamente atrasados, desprovidos de ambição e mal ajustados às exigências sociais modernas, fornecem em quase todos os nossos núcleos urbanos os maiores contingentes para as baixas camadas da população.”

A viagem de trem de Santa Cruz para o centro da cidade demora uma hora e trinta minutos.  Neste trajeto Jessé Andarilho foi escrevendo textos que vêm resultando nos seus livros.  Escrito em um celular, e em viagens de trem, Jessé Andarilho lançou em 2014 o romance Fiel (Editora Objetiva), em que conta um período determinante na vida do personagem Felipe, jovem e morador da comunidade do Antares.  O romance aborda a relação de Felipe com o tráfico de drogas e as tensões surgidas entre a sua formação familiar e as seduções do mundo.

Este ano, Jessé Andarilho lançou o livro Efetivo variável (Editora Objetiva). Este seu segundo romance narra as experiências de Vinícius. Recruta e, assim como Felipe, morador da comunidade do Antares, Vinícius tem seu cotidiano impactado pela paixão por Isabela – filha do Sargento, pelas desventuras no quartel, onde, inicialmente, não gostaria de estar, e pelas dificuldades de formulações de expectativas para o futuro, que, na idade e perspectiva de um recruta, parecem sempre ter uma urgência determinante.

A linguagem direta dos livros de Jessé é utilizada com proeza para contar uma boa história, fruto da escrita no celular. Foto: divulgação

Três aspectos na literatura de Jessé Andarilho chamam minha atenção: a extensão do mapa literário do Rio de Janeiro, seus personagens vivem e circulam por regiões pouco exploradas nas representações literárias da cidade. Santa Cruz, Sepetiba e Campo Grande são cenários das suas histórias.

A linguagem direta é utilizada com proeza para contar uma boa história, fruto da escrita no celular, como também do objetivo de produzir uma literatura que capte a atenção daqueles não muito habituados à leitura literária; observam-se também no seu texto as subjetividades dos seus personagens, principalmente os protagonistas, jovens moradores das comunidades cariocas, que, mobilizados por suas potências de viver, erram, acertam, hesitam, sonham, sofrem, se apaixonam, temem, estudam, agem e seguem lutando por uma vida melhor e aprendendo continuamente no encontro e no diálogo com o outro.

Estes personagens, em alguns aspectos próximos das realidades vividas e observadas pelo autor, rasuram os estereótipos que, tradicionalmente, são representados nos que compõem esta camada da população e as regiões onde vivem – marcadas por profundas desigualdades sociais, mostrando que há ainda muito a ser explorado na literatura brasileira contemporânea.

Jessé Andarilho inverte, ao menos no campo simbólico, a lógica das remoções.  Parece compreender que as principais disputas se travam nos campos das ideias, das narrativas, da memória e da representação.  Nesta entrevista o escritor comenta sobre os seus livros, suas influências literárias e o sarau que comanda, chamado Marginow, considerado por ele “uma revolução através das palavras”.

O seu primeiro exercício de escrita em ficção já resultou no romance Fiel, ou você escrevia outros textos? 

Comecei a escrever para fazer o romance Fiel. Durante a escrita dele, apareceram ideias de coisas que não cabiam no enredo do livro, por isso acabei escrevendo e guardando a estrutura para outros possíveis romances. Um deles foi o Efetivo variável e espero um dia poder concluir os outros quatro romances que surgiram no período da preparação do Fiel.

O romance Fiel foi todo escrito no celular.  Em que você acha que isso afeta a linguagem utilizada?

Acho que os livros que escrevo no celular afetam a linguagem, de maneira que, na minha cabeça, sinto como se eu estivesse contando uma história para alguém via WhatsApp, no meu celular. Por esse motivo, acho que o texto é mais direto.

Você participou das oficinas da FLUP (Festa Literária das Periferias).  Em que você acha que as oficinas contribuíram para o seu processo de escrita?

A maior contribuição da FLUP foi a convivência com outras pessoas também das favelas que escreviam e compartilhavam as experiências e vivências.  Conhecer autores nos encontros da FLUP também serviu de inspiração. Pois conhecer pessoas reais, me dava um sentimento de esperança, pois se aquela galera conseguiu, eu também poderia conseguir.

“A questão não é tanto o que tinha nos livros, mas sim no fato de conhecer a galera e saber que também tenho histórias para contar. Quando a gente vê as pessoas que contam histórias, e percebe que não somos tão diferentes, isso de alguma forma nos aproxima dessa coisa que é pegar e fazer do seu jeito.” – Jessé Andarilho

Gostaria de saber um pouco sobre as suas leituras…  Zona de guerra, do Marcos Lopes foi o primeiro livro de ficção que lhe causou um impacto? 

O primeiro livro de ficção que li foi o No coração do comando, de Julio Ludemir. Foi esse livro que abriu minha mente e me fez gostar de ler literatura.  A linguagem do livro me aproximou desse universo e depois dele não parei mais.  Já o livro Zona de guerra, do Marcos Lopes, serviu de incentivo para eu começar a escrever meus próprios livros.  A questão não é tanto o que tinha nos livros, mas sim no fato de conhecer a galera e saber que também tenho histórias para contar. Quando a gente vê as pessoas que contam histórias, e percebemos que não somos tão diferentes, isso de alguma forma nos aproxima dessa coisa que é pegar e fazer do seu jeito.

Me parece que você utiliza suas memórias e faz uso da percepção que teve e tem dos impactos dos problemas sociais na vida cotidiana dos jovens, do jovem que você foi e, então, você transforma essas percepções em literatura. Há no seu projeto literário o desejo de incluir a realidade que você viveu, dos seus pares, dos seus amigos e familiares na literatura?  Este grupo vem sendo pouco representado na literatura?

Cara, eu conto histórias. Mas não conto por contar. Escolho as histórias e personagens que, de alguma maneira, vão levar o leitor para um outro universo e fazer com que problemas sociais sejam revelados e expostos por quem conhece essa realidade.  Tenho essa preocupação nos meus livros.  E falar de dentro para fora me ajuda. Só falo sobre o que sei. Isso me ajuda a ficcionar as coisas para dar liga com as histórias reais que conto em forma de ficção. É uma mistura tão louca que o que é real se confunde com o ficcional e vice-versa.

Ainda neste sentido, em 1922, em Clara dos Anjos, o Lima Barreto traça um retrato desolador do subúrbio carioca, como o refúgio dos infelizes.  Uma das alegrias que tenho ao ler seus livros é ver o bairro de Santa Cruz estar no mapa literário carioca, a extensão que você promove deste mapa…

O Rio de Janeiro é muito maior que as ruas do Leblon. Muito maior que a orla da Zona Sul. Acho muito maneiro ler sobre esses lugares, mas já tem muita gente foda fazendo isso com propriedade, pois conhecem bem a realidade desses lugares.  As pessoas da Zona Oeste também se apaixonam, também sofrem de amor e vivem coisas boas e inspiradoras. Todo mundo tem histórias que dariam um livro. Já que tem muita gente colocando lupas nas vidas desse Rio de Janeiro da beira do mar, prefiro falar da galera que cruza a cidade toda para ganhar seu pão, do ponto de vista dos personagens dessa outra literatura, e de como vivem essa cidade.

Embora a sua história e sua literatura tragam muitas interseções com as dos escritores da literatura periférica, eu percebo também um distanciamento.  Então eu penso na sua frase: “Eu queria ser lido, então escolhi cada palavra pensando no leitor que não costuma ler.”

Escrevo para ser lido. Tento fazer livros com histórias boas de maneira diferente. Não saco muito de mercado e das outras literaturas. Até gosto de ler esses livros, mas o Jessé de antigamente travaria antes da décima página.

Minha missão é falar com as pessoas através dos meus textos e de alguma maneira fazer os leitores passarem da décima página. Depois, um mundo novo se abre através das próximas páginas. Quem vive as realidades que escrevo se sente representado e fica feliz, e quem não conhecia a realidade que apresento acaba gostando da experiência e gosta dos livros.

Acho que todo mundo deveria escrever. Ler o mesmo tipo de pessoa sempre é chatão. Vejo os livros como uma conversa. Quanto mais pessoas eu conheço, mais maneiro ficam os papos com o passar do tempo.  Chega de conversar com homens brancos, ricos e velhos. Tá na hora de ler as minas, os manos e toda essa galera nova que tá produzindo literatura de qualidade.

Hoje, alguns discursos estão ganhando maior repercussão no país, um deles é o pedido pela volta do regime militar; outro, o de criminalização da pobreza e de quem mora em favelas.  No Rio, estamos com sete meses de intervenção militar, e os observatórios apontam que neste período a violência aumentou.  Estas questões passaram por você enquanto escrevia e lançava o romance Efetivo variável? Como você vem refletindo sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro?

Sei que a maioria de vocês não tem a noção de que 99% dos soldados das forças armadas são jovens oriundos das periferias.   Escrevi o livro Efetivo variável com a finalidade de jogar uma lupa em cima dessa situação.  Os meninos chegam aos batalhões e aprendem táticas de guerra e técnicas apuradas sobre armamentos. Depois de um ano, a maioria é devolvida para a sociedade civil sem ter como usar o que aprendeu nos últimos meses.  Estamos no meio de uma intervenção militar e os soldados que estão na linha de frente das operações não são profissionais de carreira. Daqui a pouco, eles vão estar com seus currículos em baixo do braço procurando uma vaga no mercado de trabalho numa cidade que não tem emprego.

Vamos refletir sobre o assunto e pensar numa forma de não perder essa rapaziada para as organizações criminosas, que crescem a cada ano em nosso país.

Fiel e Efetivo variável podem ser lidos como romances de formação? Qual é o grande desafio destes dois jovens protagonistas, Felipe e Vinícius? Em que eles se aproximam?

Conto e crio histórias. Nem sei te dizer o que é romance de formação. Essas nomenclaturas e rótulos são coisas de quem quer dividir a literatura. Nem me preocupo com essas coisas. Enquanto eu estiver escrevendo e vendo a galera lendo meus livros nos aviões e nos trens, já tá bom demais.

Felipe e Vinícius são jovens que querem buscar seu lugar numa sociedade que divide pessoas por cor, classe social, grau de escolaridade e sobrenomes.

“Aquela época de silêncio para ler já passou. Eu particularmente prefiro a literatura no barulho, nos trens, nas praças. As poesias estão sendo gritadas nas ruas, a poesia é viva, é latente. É MargiNow.” – Jessé Andarilho

O Rio de Janeiro tem um movimento bacana de saraus.  Me parece que eles têm uma importância social até maior que literária. Como você vê a importância destes saraus?  Como surgiu o Marginow?

O Rio tem muito sarau, muita roda de rimas e muitos slams. Essa galera que ocupa as praças, os bares, as escolas, os viadutos e faz dos lugares esquecidos um ponto cultural, é uma coisa fenomenal. Já que os governos não investem em cultura e educação, o próprio povo se organizou e tá fazendo ao melhor estilo Nós Por Nós.

Vejo esse movimento como uma forma de tirar os livros das estantes protegidas das pessoas e do barulho. Aquela época de silêncio para ler já passou. Eu particularmente prefiro a literatura no barulho, nos trens, nas praças. As poesias estão sendo gritadas nas ruas, a poesia é viva, é latente. É Marginow.

O Marginow surgiu para colocar lenha nesse fogo que queima essa geração que quer fazer do jeito que pode. Essa galera que empreende e milita na cultura em que acredita. A galera do RAP, do FUNK, da PIXAÇÃO, da POESIA da LITERATURA que não depende de rótulos, de chancelas para dizer se é arte ou não. Criei o Marginow com a ideia de jogar no ventilador. Ainda estou só começando, mas um dia vou olhar para trás e ver a revolução que fizemos através das palavras.


Resenha

 Efetivo variável – “O tempo que nos é dado”

“Eu já estava com dezenove anos e não sabia fazer nada na vida. Precisava terminar o Ensino Médio e eu tinha trancado minha matrícula no início do ano. Conversar com a nossa mãe é sempre a pior e a melhor coisa do mundo.” – Efetivo variável, Jessé Andarilho

Capa de “Efetivo Variavel”, novo livro de Jessé Andarilho. Imgem: divulgação

O protagonista de Efetivo variável, Vinícius, estava em débito com o serviço militar, se alistou com um ano de atraso, o que fez dele um refratário.  “Mas quando fui chamado, disseram que eu era um refratário, e refratário não tinha direito a escolha. […] Sendo assim, tive que servir ao meu país e prestar pelo menos um ano de serviço militar no Exército Brasileiro.”  Vinícius deixou de se alistar no período correto por entender que não haveria problemas em se alistar um ano depois.  O romance acompanha o tempo em que ele presta o serviço militar, aprendendo a lidar com as opressões, as desventuras, e ainda, com o preconceito direcionados para os jovens moradores de favelas.  Neste sentido, a situação que ocorre em uma festa é bastante significativa. “O marido da mulher, que nem participava da festa, apareceu no quintal pedindo pra parar a música enquanto trancava o portão e vinha falando na nossa direção que ninguém entraria ou sairia dali até o celular da mulher dele aparecer.”   Mas, talvez, o grande antagonista de Vinícius seja o tempo: “Descobrimos quantos de nós iam engajar pela nossa companhia em fevereiro. Dos sessenta recrutas que sobraram, só iam ficar treze.”  Efetivo variável é o nome que se dá aos soldados não engajados, em cumprimento do serviço militar obrigatório; para estes, no horizonte estão as possibilidades de engajamento e/ou o enfrentamento de uma vida com poucas oportunidades.  Jessé Andarilho narra esse ano na vida de Vinícius, repleto de esperas, expectativas, embates e descobrimentos, fazendo-o se descobrir, com a intensidade e sensibilidade que a juventude nos oferece, para, talvez, darmos conta de todo o tempo que ainda virá pela frente.  Em Efetivo variável, Andarilho nos oferece um personagem divertido, energético, corajoso e nos sugere que é possível superar as angústias sobre o tempo que nos é dado, quando, nos embates da vida, abrem-se os olhos para a construção de novos sentidos.

Leia um trecho de Efetivo variável

Não me interrompa, recruta. Quando o corpo não aguenta, a moral é o que sustenta! E, ao terminar a frase, olhou bem pra mim e balançou a cabeça de um lado pro outro. Pela primeira vez na vida, não tentei justificar meu fracasso. Não quis colocar a culpa em situações adversas. Calei e aceitei a ideia. Percebi que eu não era pior do que ninguém ali. Fiquei com uma raiva imensa. Não era raiva do capitão, tampouco de mim ou do meu sedentarismo, mas da situação em geral. Fui pra casa e fiquei pensando naquelas palavras e em como a minha vida estava. Eu nunca tinha desistido de nada. Mesmo não querendo estar naquele lugar, eu não queria carregar comigo o peso de ter sido desligado do quartel por fraqueza ou incapacidade. No dia seguinte, fui o primeiro a chegar. Arranquei os pelinhos que sobraram da minha barba, engraxei meu coturno e comi o cuscuz amarelo que minha mãe tinha colocado na mochila, junto com uma garrafa de guaraná natural. Foi uma alegria só. Naquele dia, o capitão poderia mandar a gente dar até dez voltas no batalhão que eu estava pronto. Mas o capitão fez vista grossa para os recrutas que foram para a enfermaria no dia anterior e mandou os sargentos nos ensinarem os movimentos da ordem unida para a formatura com o coronel, na próxima sexta-feira. Formatura para mim eram aqueles eventos em que eu ia de vez em quando, geralmente no final do ano. No quartel, formatura é simplesmente o ato de juntar os militares em fila: formatura pra almoçar, formatura na hora de chegar, formatura pra ouvir as instruções, formatura pra tudo. O capitão queria que a gente estivesse pronto pra fazer bonito na frente do coronel. Não deu outra. Depois de muito treino debaixo de sol forte, a nossa companhia chegou causando frisson. As batidas com os coturnos no chão levantaram poeira. Todos que assistiram à nossa chegada ficaram abismados com a raça e a bravura na hora de marchar. Gritamos as canções puxadas pelo capitão como se fossem um pedido de socorro que fazíamos a nós mesmos. Marchamos e fizemos as ordens unidas numa sintonia jamais vista naquele quartel. Ninguém queria ficar até depois do expediente treinando a ordem unida de novo. Fomos pra casa e tivemos um final de semana de descanso, pois na próxima segunda-feira começaria o internato. Isso mesmo, teríamos que ficar isolados no quartel durante duas semanas, aprendendo as instruções de guerra, treinando ordem unida e fazendo exercícios.

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