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“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.”  Paulo Freire (em sua obra: Educação como prática da liberdade)

Muito se tem falado sobre a inclusão social em bibliotecas, principalmente pelas vastas possibilidades e oportunidades que podem ser geradas a partir do acesso aos acervos e a terminais de computadores com Internet que disponibilizam ao seu público-alvo. No entanto, pergunta-se para quem? A quem é permitido adentrar o espaço da biblioteca? Para quem a biblioteca é idealizada e realizada?

Num mundo onde as tecnologias de informação possibilitam o acesso imediato e, praticamente, irrestrito a uma infinidade de informações de toda sorte, é a qualidade da educação que direciona o tipo de conteúdo que o indivíduo pretende ler e absorver, definindo os atributos do que apreende do mundo virtual e converte para a sua realidade. Funcionando, a educação, como filtro dentro da virtualidade para a construção de si mesmo e de seu mundo real.

A educação como prática libertadora, proposta por Paulo Freire, continua sendo a garantia da liberdade do homem, diante das ilusões criadas pela grande rede, aprisionando as mentes dos incautos com um mundo de futilidades, por textos e vídeos de entretenimento visualizados por milhões e que pouco acrescentam à elevação moral e intelectual de quem assiste. Chegam aos montes e sem nem um esforço, invadem imediatamente o mundo virtual de milhares, sem pedir licença, tirando a todos, com facilidade, do rumo edificante de uma literatura saudável.

Roubam o tempo, de forma sutil, sem que percebamos e lá se vão, pelo menos, 30 minutos diários em leitura ou visualização de informações, pouquíssimo relevantes para qualquer um. Durante 365 dias por ano, lendo ou visualizando 30 minutos de conteúdos de qualidade questionável, temos 10.950 minutos perdidos por ano. Colocados lado a lado, minuto a minuto, podemos considerar que perdemos pelo menos cerca de 7 dias por ano com inutilidades, isolados do real, num mundo que nada nos acrescenta. Porém, quem acessa tais informações por apenas 30 minutos por dia?

Para a criança que utiliza tais tecnologias existe ainda a dificuldade de diferenciar o que é real e o que é virtual, como coloca com bastante riqueza Lenny Abrahamson, cineasta e roteirista irlandês, em “O Quarto de Jack”. Filme lançado no Brasil em 2015, vencedor do Oscar de melhor atriz em 2016, que conta a história de um menino de cinco anos nascido em um pequeno galpão onde vive com sua mãe, refém a sete anos de um sequestro, que conhece o mundo a partir da televisão e do que ela lhe diz. Não sabe ainda diferenciar o que é real, do que é virtual, no espaço que habita e no que cria a partir de sua imaginação.

Como a pequena Maria (nome fictício) de 9 anos de idade, que buscou na Internet vídeos que comprovem ou refutem a existência de seu amado Papai Noel. Fez isso antes de enviar-lhe uma cartinha que tratava de seu bom comportamento e de sua recompensa em brinquedos que gostaria de receber, em troca de seu esforço por permanecer dentro dos moldes da boa educação no nosso século. O corpo parado por horas, silencioso, inerte, incomunicável com quem está fisicamente presente, mas viajando, dançando, criando por horas a fio, em sua mente de menina hiperativa no mundo virtual.

Considerou apenas as postagens mais visitadas, aos milhares. Comprovou que o Papai Noel existe, depois de inúmeros vídeos e evidências em sua ingenuidade infantil, refutando a idéia de seu amigo de que o bom velhinho é apenas um bom ator disfarçado, fazendo justiça aos bons meninos e meninas, com o dinheiro dos pais.

Comportou-se bem, afinal passou horas procurando sobre a vida do Papai Noel e outras histórias em seu mundo virtual, tal qual o Jack, em seu quarto, com sua televisão e sua mãe prisioneira de um bandido.
Somos também sequestrados diariamente há anos. Enclausurados nas tecnologias de informações, que nos insulam as emoções, nos mantendo isolados, porém com a ilusão de participarmos de um universo de possibilidades de realizações.

Trabalhando com estudantes de graduação em 2017, pretendíamos realizar uma ação social como meio de exercitarmos o nosso conhecimento compartilhado em gestão de projetos, com uma prática, singela, mas que possibilitasse ao aluno identificar as facilidades e dificuldades do processo de gestão de alguma coisa.

Passando em frente à biblioteca universitária, perceberam que havia um grupo de pessoas em situação de rua, vivendo em sua porta, sem acesso às condições básicas de higiene e segurança física, muito menos à educação. Pesquisaram artigos que tratavam da temática, entrevistaram essas pessoas, pesquisando sua origem e a motivação para a vida nas ruas, planejaram um projeto e escreveram uma comunicação científica.

Debateram em sala de aula: como podemos falar de inclusão social, se nossos “vizinhos” ainda vivem nessas condições? Num ambiente de extremo contraste, com turistas vindos de todos os lados do globo em visita a um dos maiores cartões postais do Rio de Janeiro, praticamente embaixo do conjunto de montanhas que formam o Pão de Açúcar, vivem os “invisíveis” da sociedade.

Sim, pois todos passam, mas quase ninguém consegue enxergar seus rostos, perceber suas necessidades e identificar algum resquício de humanidade em suas vestes rasgadas e no seu corpo sujo. Mudam o significado de casa, de lar, de família, de existência e de necessidades. A biblioteca, também invisível para eles, pouco lhes interessa já que não se sentem parte desse mundo, sua vida é o hoje, é o meio que encontraram para obter a água e o alimento, o medo de a Comlurb arrebatar-lhes os pertences na madrugada, quando recolhem os lixos dos moradores da Zona Sul carioca e as poucas referências que sobraram a estes “vizinhos invisíveis”.
Muitas das pessoas em situação de rua fogem de suas antigas vidas pela opressão que sentiam em suas famílias.

São milhares de mulheres que passaram por abusos sexuais e violência doméstica; homossexuais não aceitos; homens que perderam sua dignidade, junto com seu emprego; dependentes químicos e outros. Relatos da nossa frágil condição humana e da delicadeza das relações sociais que se fragmentam nas diferenças ou na indiferença.

Surpreendentemente, alguns “vizinhos” possuem celulares e estão conectados ao mundo pelo Facebook, assistem às mudanças políticas e socioeconômicas dos noticiários de uma grande empresa de comunicação brasileira, em uma televisão velha colocada na praça onde residem.

A mesma empresa que publicou em seu jornal que são usuários de drogas e consumidores de craque e que pressionou indiretamente, ou diretamente, não se sabe, a prefeitura para que os retirasse do lugar, em frente ao ponto de ônibus onde os turistas do Pão de Açúcar esperam transporte para visitarem outra beleza carioca.Este enorme confronto de realidades fez com que os alunos repensassem o significado de inclusão social e o papel da biblioteca.

Quantos “Quartos de Jack” estão espalhados pela nossa cidade? Quantos pequenos universos incomunicáveis aprisionam as pessoas e limitam suas possibilidades? Quantos precisam ser incluídos? Quem precisa ser ajudado? Quem se encontra em condição de ajudar e como? E, finalmente, a mais importante reflexão: o que diria Paulo Freire sobre a liberdade nos dias de hoje?

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