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Nós somos continuamente direcionados a seguir um caminho religioso no decorrer de nossas vidas. Quando nascemos, somos inseridos na fé praticada por nossos familiares. Durante o processo de crescimento e maturidade, somos compelidos a continuar com as mesmas crenças ou, por circunstâncias pessoais ou externas, mudarmos nosso olhar no que se refere à religião.

Alguns optam por abandonar o barco das crenças tradicionais e fundam “religiões e deuses pessoais”. Existem aqueles que preferem acreditar em outra forma de convicção, como a ciência, o dinheiro e a paixão por certo estilo de vida, por exemplo. Seja qual for a época ou o grupo social, discutir religião é como jogar queimado com uma bola repleta de espinhos: competitivo, polêmico, árduo, gera maniqueísmos e, não raro, discordâncias excessivas.

No cinema, a crítica ou discussão que tem como foco a religião acaba esbarrando em tendências de “certo ou errado”, “necessário ou desnecessário”, “única salvação ou ópio do povo”, dificultando o debate esclarecedor. A busca por uma discussão equilibrada do tema é proposta por Higher Ground (Em busca da fé, no catálogo brasileiro), filme da atriz e diretora Vera Farmiga (Invocação do Mal, Amor sem Escalas, Bates Motel).

Inspirado no livro Este mundo das trevas: uma memória da salvação encontrada e perdida (tradução livre de “ThisDark World: A MemoirofSalvationFoundandLost”), relato autobiográfico da escritora Carolyn S. Briggs, o filme narra a crise existencial enfrentada por Corinne Walker, uma mulher que deixa de sentir pertencimento em relação à religião e à comunidade em que vive.

Acompanhamos cronologicamente três fases da vida de Corinne, vivenciando sua infância entre a escola e a igreja cristã, a adolescência tumultuada pelas brigas familiares e uma gravidez precoce, até alcançarmos a idade madura, em que Corinne assume o papel de mãe e evangelizadora.

Na década de 1960, observamos a pequena Corinne (McKenzie Turner), interessada por leituras nada dóceis, como O Senhor das Moscas, de William Golding, e dona de pensamentos lascivos, refletidos na cena em que a garota imagina a mãe e o pastor juntos no banco da igreja. O tempo passa e a adolescência surge na vida de Corinne. Nessa fase, a atriz Taissa Farmiga – irmã e cópia fiel de Vera – dá vida à personagem, agora uma garota linda, tímida e que prefere o anonimato à popularidade na escola. Corinne demonstra intensa preocupação com as brigas familiares, o que acaba resultando no divórcio dos pais.

Presa a um estilo de vida insuficiente, a jovem acaba engravidando do namorado, o músico Ethan (vivido pelo ator Boyd Holdbrook). É nessa etapa do filme que um acontecimento trágico acaba direcionando a vida do jovem casal, levando-os à intensa experiência religiosa dos tempos posteriores. No entanto, não escapa a olhos curiosos o pé na dúvida que Corinne sempre pareceu fincar durante toda a sua vida. Incerteza que vai consumir sua rotina de mãe de três filhos, atuante na igreja e na comunidade. Vera Farmiga encarna a etapa madura e integrada à comunidade religiosa, iniciada pela cena de batismo nas águas do rio e pelas cantorias gospel.

O que torna HigherGround uma proposta interessante é a capacidade de diálogo com preceitos religiosos estabelecidos, sem apelar para fundamentalismos ou excessos. O duelo entre destino e eventualidade aparece para deixar cicatrizes profundas, sendo esse o grande peso nos questionamentos e nas decisões dos personagens. As passagens engraçadas e leves ficam por conta de Anikka (Dagmara Dominczyk), melhor amiga de Corinne. Inclusive, é através das vivências ao lado de Anikka que as primeiras dúvidas diretas começam a pairar na cabeça de Corinne.

É também por uma circunstância envolvendo a amiga que a certeza da fé começa a desmoronar na vida de Corinne, fazendo-a questionar a própria existência, seu relacionamento conjugal, a comunidade a qual está inserida e seus valores pessoais. Outra possibilidade curiosa levantada pelo filme vem com a indagação sobre a autenticidade de nossas crenças: serão elas inteiramente nossas, frutos de reflexão sincera e íntima, ou apenas resultado de convivências e influências socais?

A redenção que tanto procuramos pode ser o labirinto no qual nos perdemos. Ou não. Essa é a charada que Higher Ground deixa como legado. Um filme sem grandes empurrões de bilheteria, certamente. Mas uma proposta de pensamento, o que já torna o longa um grande começo para a então estreante diretora Vera Farmiga.

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