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A poucos dias de iniciar o evento literário mais importante do país, as expectativas são grandes.  Durante os cinco dias da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, se equilibrarão pelas ruas de calçamento em pé de moleque do Centro Histórico da cidade nomes importantes da literatura nacional e internacional, que participarão de encontros literários, rodas de leitura, saraus, performances, entrevistas e festas.

A expectativa se dá, porque muito do que é apresentado, debatido e conversado durante os cinco dias de evento repercute na programação dos inúmeros eventos literários que acontecem pelas cidades brasileiras, nas estantes, sites e vitrines das livrarias e nos cadernos culturais.  Entre as novidades deste ano está a ampliação da quantidade de casas que apresentam uma programação gratuita, diversificada e interessante.

Assim foi em 2017, quando a programação do evento sinalizou um olhar mais atento para as reivindicações de grupos sociais que vinham já há alguns anos sendo pouco representados na programação principal do evento.  A guinada da Flip, neste sentido rumo à diversidade, se deu com a entrada da jornalista cultural e historiadora Josélia Aguiar como curadora do evento.

Josélia, no seu primeiro ano como curadora, equilibrou apreciação estética literária e as relações atuais entre literatura e sociedade. Este ano, com uma programação que em muitos momentos se configura até como inusitada, tanto pela escolha da escritora Hilda Hilst como homenageada, quanto pela seleção dos convidados. A diversidade se mantém, mas com outros delineamentos.

Em 1990, ao lançar o livro Caderno Rosa de Lori Lamby, Hilda Hilst, em entrevista para a TV Cultura, afirmou que o livro era uma banana que estava dando para os editores e para o mercado editorial.  Guardadas as devidas e grandes distinções entre o que afirmava a autora em 1990 e a Flip em 2018, podemos pensar que com 22 casas paralelas (muitas de editoras pequenas) e escolhas inusitadas na sua programação principal “mais intimista”, o evento soube trazer o espírito livre e transgressor de Hilda Hilst para o centro da cena literária e tende a garantir, além da apreciação estética literária, a reflexão sobre as escolhas do mercado editorial e as definições do que é cânone literário.

Conversei com a curadora da Flip, Josélia Aguiar, sobre a programação do evento em 2018 e as relações com a edição de 2017. Sobre o fato de ter uma programação em certa medida inusitada, ela explica que isso se deve ao fato de ter tentado trazer um pouco da ousadia, da transgressão e de um certo caráter não-comercial de Hilda. “Os elementos que compõem a obra dela estão no programa: o amor, o desejo, a morte, a transgressão, a investigação do humano e do animal, de Deus e da transcendência”, afirma.

A primeira impressão que tive, ao ler a programação principal, foi de uma programação, de certa forma, até inusitada.  Esta impressão tem alguma relação com a escolha da Hilda Hilst como homenageada?  Como você chegou a ideia de tê-la como homenageada da Flip 2018?

Quando fui convidada para a curadoria de 2018, eu tinha em vista que a homenageada teria de ser uma mulher. Havia alguns nomes possíveis, e o fato é que era mesmo o momento da Hilda Hilst. Assim como Lima Barreto, ela foi alguém que se dedicou totalmente à literatura, sem ter uma vida pessoal muito comum, ou seja, ela levou a literatura às últimas consequências. Quase dá para pensar na Hilda falando como o Lima: “a literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”.

Acho que o inusitado tem a ver com o fato de que tentei trazer um pouco da ousadia, da transgressão e de um certo caráter não-comercial da Hilda. Os elementos que compõem a obra dela estão no programa: o amor, o desejo, a morte, a transgressão, a investigação do humano e do animal, de Deus e da transcendência. Em algumas entrevistas me perguntam quem entre os convidados é herdeiro da Hilda. O que gosto de comentar é o quanto a maioria dos autores e autoras têm pontos de contato com ela.

“Tentei trazer um pouco da ousadia, da transgressão e de um certo caráter não-comercial da Hilda”

No ano passado, os cadernos culturais pautaram bastante a programação da FLIP e o evento como um todo como a FLIP da diversidade.  Analisando a programação deste ano, me parece que houve uma intensificação no sentido desta busca por uma programação voltada para a diversidade, até mesmo pela escolha da homenageada, mas não necessariamente, comtemplando os nomes que talvez fossem mais esperados.  A FLIP 2018 também pode ser lida como a FLIP da diversidade?

Em 2017, por causa do Lima Barreto, era mais esperado ter mais autores e autoras negras. Este ano o que tentei foi mostrar que, independentemente do homenageado ou homenageada serem negros, os autores e autoras negros vão ser todo ano parte do programa principal da Flip, com obras que muitas vezes não tratam diretamente da questão racial.

Foi algo que falei já na coletiva final do ano passado: que era preciso garantir a mesma pluralidade de autores e de público mesmo que o homenageado do ano fosse branco ou branca. Em muitos momentos desta Flip de 2018, atualizamos a de 2017. A diversidade deve ser uma característica sempre, e não a uniformidade. Portanto, essa Flip “mais intimista” porque é a Flip da Hilda Hilst, tem um conjunto de autores e autoras que garantem a mesma diversidade da Flip do ano passado.

Outro “apelido” que a edição 2017 da FLIP recebeu, foi de FLIP Preta.  Em relação a participação dos autores negros na programação principal do evento (que em 2017 se refletiu também no público), você considera que em relação a Festa esta questão está superada? Do momento em que você começou a pensar a FLIP 2017, até hoje, você percebe que ocorreram mudanças sobre a presença de escritoras e escritores negros no mercado editorial?

Devemos manter a diligência sempre, o trabalho de aumentar a representatividade está apenas começando. O que falei na coletiva e tenho repetido é que a diversidade não pode ser mais a primeira notícia. A primeira notícia deve ser a obra dos autores e autoras.  Notei esse ano que as editoras, sejam pequenas ou grandes, tinham um elenco maior de autoras mulheres e negros. Mas, repito, estamos apenas começando, e não falo apenas da Flip, falo de todas as áreas.

Eu fiquei bastante empolgado em ver o nome da Lígia Fonseca Ferreira na programação e esta possibilidade de lançar luz sobre a vida e obra do Luiz Gama.  Como o tema surgiu na programação?  Como dialoga com a programação?

“Poeta em torre de capim” é uma mesa que vai tratar de biografia, crítica e constituição do cânone. É uma das mesas que dialoga com a Flip 2017. Ao lado da Ligia Ferreira, estará o Ricardo Domeneck, poeta e editor que recentemente contribuiu para a publicação da Hilda Machado. Pessoalmente sou apaixonada pelo Luiz Gama, sua obra e história. Desde o ano passado pensei em fazer algo com ele. Então acabou ficando para esse ano.

Uma das marcas da sua curadoria é atenção dada para o que as pequenas editoras vêm produzindo.  Como você acompanha esta produção? Poderia citar exemplos de autores publicados por editoras pequenas que estarão na programação?

Sou jornalista de livros há 13 anos, então acompanho com alegria o florescimento das pequenas e independentes. Nos últimos cinco anos isso ficou particularmente visível. Entre nacionais, Bell Puã (Castanha Mecânica), Djamila Ribeiro (Letramento), Gustavo Pacheco (Tinta da China), Júlia de Carvalho Hansen (Chão da Feira), Laura Erber (Relicário), Ricardo Domeneck (7 Letras e Editora 34), Reuben da Rocha (Pitomb, Livros Fantasma, treme~terra), Tereza Maia (Editora O Lince, Editora Santuário etc), Zeca Baleiro (Reformatório). Entre autores internacionais, Alain Mabanckou (Malê), Igiaba Scego (Nós), Fabio Pusterla (Macondo), Maria Teresa Horta (Oficina Raquel).

Pelas falas na coletiva de imprensa sobre a edição deste ano da Flip, me pareceu que há um aceno mais favorável para as iniciativas que compõem a programação paralela, um desejo de fortalecer estas ações, que trazem um tempero especial, enriquecem culturalmente o evento…

Ano passado, duas mulheres foram responsáveis por iniciar esse movimento. Pilar Del Rio, que organizou a Casa Amado e Saramago, e Simone Paulino, que fez a Paratodos. Depois que anunciaram essas iniciativas, foram chegando outras, como a Casa Santa Rita de Cássia, de Cassia Carrenho. Este ano, chegamos a 22 casas parceiras, e há até um barco pirata. Creio que essas programações paralelas são das coisas mais relevantes e felizes que aconteceram na área cultural brasileira nos últimos tempos.

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