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Dados do Censo Escolar 2016, disponibilizados pela plataforma QEdu, mostram que, do total de 183.376 escolas, apenas 67.088 possuem biblioteca, o que equivale a 37%. Outras 43.218 unidades (24%) alegam possuir sala para leitura. Os números parecem evidenciar que o objetivo estipulado pela lei nº 12.244/2010, de ter pelo menos uma biblioteca em cada unidade de ensino básico até 2020, deve se frustrar na medida em que faltando três anos para o prazo final, pouco mais de um terço das escolas têm este tipo de instrumento.

Sobre a presença de bibliotecários nestes estabelecimentos não existem números consistentes, mas se estima que a maioria não tem com este tipo de profissional. Não é o caso do Colégio Pedro II (CP II) do Rio de Janeiro que além de contar com 10 bibliotecas, também conta com 18 bibliotecários e 22 auxiliares de bibliotecas com formação em biblioteconomia nas bibliotecas de sua rede, embora a coordenadora da Seção de Biblioteca e Sala de Leitura do Colégio, a bibliotecária Márcia Feijão, admita que precisa de mais cinco unidades nos campi 1 para atender a demanda do primeiro segmento do ensino fundamental.

De acordo com a Márcia, as bibliotecas do sistema do CP II contribuem para o processo educacional de diversas maneiras. “Posso citar algumas: o bibliotecário e sua equipe devem estar sempre atentos ao ambiente da comunidade escolar, a comunidade do entorno e seus anseios para não ser reativo, mas pró-ativo nas suas ações”, diz a coordenadora.

Neste dia 23 de outubro, dia da biblioteca escolar, Márcia destaca o papel da biblioteca na sociedade brasileira, sua experiência com este tipo de instrumento no CP II, bem como comenta sobre a responsabilidade dos bibliotecários no que se refere à democratização das bibliotecas escolares no Brasil. “Tenho percebido que existem muitos profissionais que, além de realizarem atividades no seu espaço profissional, trabalham voluntariamente para a criação de bibliotecas em escolas periféricas, onde o público é mais carente de acesso à informação”, destaca a profissional.

Qual é ou qual deveria ser o papel da biblioteca escolar na sociedade brasileira hoje?

Existe um documento internacional intitulado Manifesto IFLA/UNESCO da Biblioteca Escolar que responde bem ao seu questionamento. Nesse Manifesto se afirma que “a biblioteca escolar habilita os estudantes para a aprendizagem ao longo da vida e desenvolve a imaginação, preparando-os para viver como cidadãos responsáveis.” E a partir daí propõe uma formação cidadã onde não pode haver distinção de pessoas, sob quaisquer circunstâncias, e o mais importante: “o acesso às coleções e aos serviços deve orientar-se nos preceitos da Declaração Universal de Direitos e Liberdade do Homem, das Nações Unidas, e não deve estar sujeito a qualquer forma de censura ideológica, política, religiosa, ou a pressões comerciais”. Esse Manifesto deve ser o primeiro documento norteador do bibliotecário escolar para pensar seu ambiente de trabalho, missão e objetivos, e para contribuir nos Projetos Políticos Pedagógicos Institucionais – PPPI.

Recentemente, fomos novamente incitados a pensar no papel da biblioteca, e em particular da biblioteca escolar, para implementação da Agenda 2030 da ONU, onde a biblioteca atua “promovendo oportunidades de aprendizagem ao longo da vida”, conforme observa o documento da IFLA.

Esses documentos internacionais evidenciam que a sociedade brasileira precisa criar o estímulo e o hábito da leitura como uma das maneiras de formar um cidadão consciente e crítico de seu papel, e a biblioteca escolar pode contribuir bastante se estiver acessível à criança desde a primeira infância, ainda na educação infantil e presente até a conclusão do ensino médio. Para professores, técnicos e pais, pode oferecer recursos de informação para a continuidade da formação e se mostrar aberta ao diálogo para aprimorar as coleções, os produtos e serviços oferecidos. Se for possível, que esteja disponível para acesso pela comunidade de entorno, os moradores de onde a escola se localiza.

A partir da sua experiência no Colégio Pedro II, de que forma a biblioteca pode contribuir para o processo educacional?

As contribuições ocorrem de diversas maneiras. Posso citar algumas: o bibliotecário e sua equipe devem estar sempre atentos ao ambiente da comunidade escolar, a comunidade do entorno e seus anseios para não ser reativo, mas pró-ativo nas suas ações. A biblioteca deve participar das reuniões pedagógicas para entender o andamento do conteúdo curricular na sala de aula, se planejar para atender os anseios dos estudantes e ser apto a ouvir o usuário no balcão, desde a recreação até a sugestão de aquisições. É necessário autonomia para o desenvolvimento de atividades e apoio da gestão escolar para essas ações.

Márcia Feijão, coordenadora da Seção de Biblioteca e Sala de Leitura do Colégio Pedro II. Foto: Emília Sandrinelli / Agência Biblioo

Temos bons exemplos realizados em campi diversos do Colégio Pedro II: exposição realizada pela Biblioteca de Duque de Caxias que uniu literatura e cinema; exposição de literatura de cordel na Biblioteca de São Cristóvão III; oficinas de história em quadrinhos na Biblioteca de São Cristóvão II; projeto Biblioteca no Pátio do Campus Niterói… No dia a dia, ainda ocorrem ações de bibliotecários na sala de aula, através de aulas de metodologia científica, como ocorre no Engenho Novo II, participação no Laboratório de Humanidades na Tijuca II, contação de estórias e troca-troca de livros nos campi I… Essas e outras atividades foram possíveis porque os bibliotecários e suas equipes não esperaram o usuário simplesmente aparecer para pegar um livro. Deixo por sugestão colocar no Google “cp2 biblioteca” e ver as diversas matérias sobre as ações do Sistema.

Os bibliotecários estão preparados para trabalhar nestes espaços contribuindo com plano pedagógico? Como?

A formação do bibliotecário, a princípio, é muito generalista e tem por objetivo habilitar o profissional para qualquer tipo de biblioteca, mas tenho observado que os cursos de graduação em biblioteconomia, tanto a licenciatura como o bacharelado, têm se preocupado bastante em oferecer atividades que envolvam o aluno de graduação no ambiente escolar e isso aumenta a possibilidade de ter um profissional engajado e mais preparado quando sai da graduação.

Uma ação que não é nossa, mas tem sido realizada desde 2015 com nossa mediação e participação são os Projetos de Competência em Informação, promovidos por professores de biblioteconomia da EB/UNIRIO [Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro] e do CBG/UFRJ [Curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação da Universidade Federal do Rio de Janeiro], esse último no terceiro ano, que ganhou menção honrosa na UFRJ e com adesão crescente de bibliotecários e alunos de graduação e pós-graduação.

Na prática, acredito que o bibliotecário é apto sim porque, como os demais funcionários do espaço escolar, trabalha com o aluno cotidianamente, observa as demandas de pesquisa e recreação e pode diariamente sinalizar a gestão e aos professores como a biblioteca pode contribuir para o êxito da missão da escola. Existem também diversos cursos atualmente na área da educação e da biblioteconomia que trazem insumos para a formação continuada do bibliotecário, como as especializações em biblioteca escolar, mediação de leitura, ação cultural e literatura. O importante é o profissional estar sempre atento ao ambiente escolar e aos seus usuários, reais e potenciais.

É possível atribuir aos bibliotecários alguma responsabilidade no que se refere à democratização das bibliotecas escolares no Brasil? Qual?

Sim, tenho percebido que existem muitos profissionais que, além de realizarem atividades no seu espaço profissional, trabalham voluntariamente para a criação de bibliotecas em escolas periféricas, onde o público é mais carente de acesso à informação. E como disse na pergunta anterior, muitos alunos de graduação participam de projetos como estagiários ou voluntários de modo que fazem a diferença na vida de outras pessoas, principalmente crianças, nosso principal foco.

Embora exista uma lei que determine a obrigatoriedade de bibliotecas nas escolas até 2020, dados do Censo Escolar 2016 mostra que apenas 37% das unidades de ensino básico têm este tipo de instrumentos. O que fazer para mudar este quando e fazer valer a lei?

O que percebo é um grande desafio para o cumprimento dessa lei. A impressão que tenho é que o gestor escolar desconhece a lei nº 12.244, de 2010, que trata desse dispositivo. Acho que é necessário uma grande campanha de divulgação dessa Lei para os gestores, o benefício de oferecer uma biblioteca para seus alunos e as implicações da falta de uma biblioteca para a escola, na esfera legal e de formação do cidadão. E essa divulgação já é feita pelo bibliotecário, mas falta engajamento de outros profissionais da educação para lograr êxito.

Outro ponto relevante é o profissional: um consultório médico não funciona sem a inclusão do médico e do enfermeiro, uma obra não ocorre sem a assinatura do engenheiro, uma sala de aula não recebe alunos sem professor, porque a biblioteca escolar deve abrir com outro profissional se existe uma lei desde 1962 que determina o exercício do bibliotecário nesse ambiente? Temos desafios para a criação das bibliotecas e a atuação do bibliotecário nesses espaços.

E a relação professor/bibliotecário. Como ela pode contribuir para o processo de ensino/aprendizagem?

Entendo que é uma relação que deve ser pautada no diálogo e na complementaridade de ações. O professor tem na essência o papel pedagógico de fomentar o interesse do aluno e muitos recursos criativos para a formação curricular e cidadã e o bibliotecário escolar uma formação dividida hoje em organizar o acervo e atender aos anseios do seu usuário, no caso escolar, dos alunos e todos que estão na comunidade escolar. Ao bibliotecário cabe sinalizar as equipes de professores o interesse em ações conjuntas de fomento ao uso da biblioteca e também demonstrar suas competências e habilidades na formação do acervo, e em promover produtos e serviços aos usuários. Em algumas exposições que ocorreram nas nossas bibliotecas, as equipes desenvolveram todo o percurso e a organização do espaço e o professor agendou horário para levar as turmas e promover mediação com os recursos de informação.

Contudo, esse diálogo não é fácil. Ainda há dificuldades de ambos os lados em conciliar as diferentes ideias no cotidiano, o que afeta a qualidade do trabalho nas bibliotecas.

Por fim, no dia da biblioteca escolar, qual a reflexão que necessariamente deve ser feita pelos profissionais bibliotecários?

Que pergunta difícil. Como disse no inicio, temos alguns documentos internacionais que contribuem para essa reflexão, de fazer com que a biblioteca escolar deixe de ser um espaço morto para se tornar um local vivo, de interesse da comunidade escolar e principalmente dos alunos. Mais ainda, observo que alunos que frequentam as nossas bibliotecas desde o início do ano letivo dificilmente estão nas últimas provas com alguma pendência. Isso quer dizer muita coisa, mas principalmente que a leitura o ajudou em todas as outras disciplinas. Observo que esses mesmos alunos saem da escola e iniciam uma trajetória universitária com maior segurança. Para nós é uma sensação de dever cumprido, que ficou uma semente da biblioteca naquele indivíduo.

Mas para o profissional, acredito que a maior necessidade seja o interesse e a inquietude com a biblioteca escolar. Isso quer dizer que o bibliotecário deve conhecer o frequentador, deve circular em toda a escola, deve divulgar cada novidade para seus usuários por meio dos murais e das redes sociais e deve insistir com o gestor sobre a necessidade da biblioteca em comprar livros, mobiliários adequados e recursos de informática para se adequar aos tempos atuais. E por fim, o bibliotecário deve ter amor pela biblioteca escolar e pelos seus usuários, como tem ocorrido no Sistema de Bibliotecas do Colégio Pedro II. Posso lhe afirmar que tenho visto em nossa escola diariamente exemplos de como transformar as bibliotecas em locais interessantes para seus usuários, graças ao engajamento dos bibliotecários e equipes.

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