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Há alguns anos, li em uma revista de fantasia, FC e horror uma declaração interessante do escritor e quadrinista Neil Gaiman em que ele afirma que “voltar a ler um livro favorito é uma das coisas mais infelizes e absurdas que podemos fazer”. Nessas linhas, eu revisito não apenas o livro, mas também o seu autor.

Daniel Piza, falecido em 2011, é o jornalista que mais admiro e um dos críticos brasileiros que mais me enche de contentamento e satisfação. Ler as suas inúmeras produções – ensaios, entrevistas, matérias, livros e críticas – exerce sincero enlevo em meu estado de espírito, permitindo que eu mantenha o foco e não me distraia com nada ao redor. Nos momentos de leitura, todos os meus esforços de concentração, inspiração e criatividade acompanham as palavras de Daniel que, como diria o jornalista americano H.L Mencken, me permitem “sentir o vento do mundo no rosto”.

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Foto: Jornal Lirismo

A propósito, meu primeiro contato com a citada expressão de Mencken foi em novembro de 2012, em uma manhã nublada de sábado, ao som da voz de Elvis Costello e sentindo o perfume do odorizador de ar espalhado pela minha mãe por toda a casa. Naquela época, eu ainda estava com o coração balançado por dúvidas sobre rumos profissionais – como ainda estou -, martirizando meu cérebro com perguntas nas quais eu já sabia a resposta. Também naquela manhã, eu estava lendo “As senhoritas de Nova York: descoberta de Pablo Picasso” (editora FTD, ilustrações de César Landucci, 1996, São Paulo, pág. 96), livro de estreia de Daniel Piza.

A obra traz a troca de correspondência virtual entre os amigos Fernando e Gustavo, quando o primeiro vai passar uma semana em Nova York com a família. Impressionado com a organização, fluidez e avanço cosmopolita da cidade, Fernando remete suas impressões ao amigo. Logo no começo, percebemos a diferença de personalidade entre os dois, mas nada a ponto de abalar a amizade e o diálogo frutífero que surge das perguntas, dúvidas e afirmações levantadas pela dupla.

Aliando o sensorial ao intelectual, Fernando se permite equilibrar as descobertas que encontra pela frente, sem deixar que o ‘desencanto tome conta’. Apaixonado por Adriana, o jovem une o mundo de percepções que vai se descortinando à sua frente durante a viagem ao sentimento que nutre pela colega de escola. Gustavo é mais cético, racional e eremita, e está sempre disposto a não se perder em abstrações. Por ter um relacionamento complicado com o pai, o rapaz amarga esse tipo de contato e busca na leitura de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, as respostas para as angústias diárias que tomam conta de sua alma.

Já em Nova York, ao visitar o MoMA (The Museum of Modern Art), Fernando esbarra na tela ‘As senhoritas de Avignon’ (Les demoiselles d’ Avignon), de Pablo Picasso, e um lampejo de consciência e iluminação transformam a visita em um insight. Fernando cria uma nova obsessão e passa a pesquisar e estudar tudo sobre o quadro. Dentre as curiosidades registradas nas cartas que envia a Gustavo, Fernando argumenta detalhes da construção da tela, como os setecentos desenhos preparatórios feitos por Picasso antes de começar a projetar a pintura; revela também os detalhes técnicos, como os tipos de planos e o uso das cores, assim como a escolha das posições, formas e localização de cada mulher na tela. Em poucas páginas, temos uma verdadeira aula de arte como questão e como processo de consciência.

A arca do tesouro desenhada por Daniel Piza ainda fica maior quando Gustavo submerge em discussões sobre a obra de Dostoiévski. Para ele, o conflito de consciência do personagem Raskolnikov e os questionamentos que surgem a partir desse torvelinho moral, emocional e intelectual, é parte integrante do que enfrentamos no nosso dia a dia. Gustavo começa a apontar o dedo para normas e regras sociais, criticando-as. O “embate” intelectual entre os dois amigos, onde um defende a arte visual como propulsora de mudança e o outro argumenta a favor da força inegável da literatura na metamorfose de vida do homem, é acompanhado de perto pelo leitor que, de acordo com suas próprias inclinações, toma partido de um dos lados.

A riqueza do debate, trazendo ideias novas e argumentos, além da aposta em um novo formato para a clássica correspondência epistolar, torna o livro do jornalista um ótimo estímulo para ampliar a consciência, onde o prazer também é posto em questão. Conhecido por seus aforismos e reflexões críticas, Piza começou a mostrar a que veio logo na obra de estreia, com frases como:

“Eu prefiro o novo, e é por isso (faz parte da vida bem vivida) que minhas expectativas se frustram ou se superam”. (pág. 30)

“Esforço e prazer não são coisas opostas!” (pág.72)

Por trás de uma aparente proposta juvenil, esconde-se mais uma – de muitas – pérolas deixadas por Daniel, que precisou se despedir da vida bem mais cedo do que deveria. Deixou imensas saudades, mas continua fazendo pessoas terem o que dividir e descobrir. E toda vez que um leitor, assim como eu, regressa às produções de Piza, arrisca-se em universos desconhecidos que nunca terminam. Porque assim foi Daniel: um homem que não coube no seu tempo e que arriscou a segurança das crenças estabelecidas em troca de uma vida com independência intelectual. Como diria o poeta E.E Cummings: “É preciso coragem para crescer e se tornar quem você verdadeiramente é”. Daniel Piza teve essa coragem.

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