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Andando pelo Saara, centro do Rio de Janeiro, vi o mesmo homem de paletó antigo, boné e chinelos entregando panfletos. Escrevi um conto sobre ele, imaginando que fosse apenas uma imagem fantasmagórica projetada pela minha mente. Mas não… Lá estava o sujeito, em carne e osso!

Continuei caminhando e percebi uma criança de pouco mais de cinco anos dormindo apertada, tal qual uma sardinha vendida em supermercado, dentro de uma caixa de feira. A cor amarela, outrora viva naquele pedaço de plástico, estava completamente tomada pela sujeira. Apertada contra si mesma, a criança simplesmente dormia.

Uma mulher passa bufando entre as pessoas que estão esperando – pacientemente – o sinal que asfixia a Avenida Passos. A dona apressada olha para as pessoas em volta como se elas fossem pulgas que estivessem atravancando o seu caminho. Ela não percebe que ali, naquele canto apertado, alvo de furtadores de mãos finas ou descarados de toda sorte, todos somos formigas apressadas, sem nome ou rosto.

Há também mulheres e homens bem vestidos, recém-saídos de prédios públicos ou de enormes instalações que abrigam empresas privadas. Eles passam lado a lado de mendigos e crianças de pés sujos, sem camisa e muito menos comida na barriga. Claro, tendo o máximo cuidado para evitar esbarrões.

Mas assim são as cidades, as vidas e as almas. Ninguém faz nada. “É normal, culpa do governo”, dizem. Ouço falarem exaustivamente de Lula, PT, Temer, Crivella, Pezão, Cabral e outros nomes políticos. Falam, falam e falam. Falam direto, em qualquer lugar e a todo instante. Falam, falam e falam. Falam para exorcizar ou achar que estão exorcizando. Mas além da possessão exterior, há também a interior, rasteira e cotidiana. Mas quem tem coragem de encarar? Quem?

Caminho até alcançar a Rua Uruguaiana. Entro na igreja Matriz de Santa Rita. Há muitos pedintes na porta, panos em formato de trouxas e cheiro de vela. Entro e sento. Um pouco de paz mental e silêncio – cada um procura onde acha melhor. Ali, parada em frente ao altar e diante de tudo o que acredito, consigo vinte preciosos minutos de não-pensamento.

Saio e agradeço.

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