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Existe um brocardo latino que pode ser encontrado flanando por aí, nos textos e nas falas de doutos, rábulas e filósofos. Sua importância quase poética também virou título de álbum de banda de Heavy Metal e figura em manifestações ocultas. Eu, mais um alguém que anda e observa, peço licença às mentes ilustres para usar o provérbio em tom de conselho ao povo brasileiro.

Mas não me entendam mal: não estou aqui para dar conselhos sérios, proféticos e aprofundados em sua própria complexidade. É mais um epigrama sem intenção de apontar lanças afiadas para a testa de quem quer que seja. Sem mais elucubrações, vamos à mensagem: Abyssus abyssum invocat.

Como meu conhecimento de latim nasceu e quase morreu nos bancos universitários – foi salvo pela curiosidade, essa maravilhosa mosquinha que fica zumbido em nossos ouvidos e só nos deixa em paz quando a satisfazemos -, prefiro recorrer à tradução oficial: “Um abismo atrai o outro”.

Para a completa perplexidade de nossos antepassados – isso eu posso apostar sem tentar qualquer tática mediúnica -, estamos deixando o nosso país e tudo o que nos pertence na mão de um grupo de vermes e baratas, cuja única preocupação é dançar conforme a música que toca em sua vitrola de ouro. Vitrola esta comprada com dinheiro público. Trocando em miúdos, com o nosso dinheiro.

A aniquilação do patrimônio cultural é um dos resultados do desinteresse generalizado, como aconteceu com o Museu Nacional, uma instituição bicentenária, lar de imperadores e pessoas da corte, guardião mais antigo do passado brasileiro, ardendo em chamas no último domingo, dia 02 de setembro. Uma visão infernal que só deve atrair o demônio ou gente como Nero Cláudio César Augusto Germânico, conhecido entre nós apenas como Nero ou, para os mais íntimos, como o “imperador incendiário”. Dizem as línguas batedeiras da História que Nero foi responsável pelo Grande Incêndio de Roma, ocorrido em julho de 64 d.C.

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Pois bem, ao que parece, o Brasil não tem apenas Neros, mas também Calígulas, Bórgias, Médicis e, pasmem, até figuras míticas da literatura sobrenatural, como Conde Drácula, Frankenstein e múmias vindo direto de sarcófagos soterrados. O que esse grupo de sugadores e vampiros quer? Bem, o provérbio latino fala por si só.

Não é razoável que nós, enquanto povo e donos do país – este pedaço de terra continental pertenceu a nossos antepassados, pertence a nós e poderá pertencer aos nossos filhos e tetranetos, se não recuarmos diante da imensidão do fosso – continuemos andando como ratinhos indefesos atrás da flauta de som nada encantador tocada por essas cópias fajutas de Flautistas de Hamelin.

Se o canto fosse sereno e agradável, como a voz das sereias da Odisseia, poderíamos até nos agarrar à essa tentação irresistível. Se estivéssemos vendo doces e balas apetitosos em nossos caminhos, como as pobres crianças João e Maria, quase devoradas pela bruxa má, ainda poderíamos usar o atributo da inocência.

Mas, sinto dizer: em nosso caminho só há pântano, lama, pedras, espinhos, deserto sem água e focos de incêndio. Não há aqui nada para alegar engano, ilusão, ingenuidade. Pelo contrário: estamos em um momento de desesperança e perdas, que não deve ser usado para nos fazer baixar a cabeça e dizer “o que não tem remédio, remediado está”, antes de bocejar e coçar o sovaco.

É momento de articular nossas questões e pensamentos para as eleições, agindo com consciência e clareza, e não motivados por discursos vazios, autofágicos, de candidato que prega a violência, a lei do mais forte e o “canibalismo” disfarçado de “bandido bom é bandido morto”. Ou ainda nos alistando como cruzados, morrendo em prol de uma “guerra santa” que nunca foi nossa (pedindo licença mais uma vez, vem aqui outro brocardo latino que grita sozinho: “Ab auditione mala non timebit”, que quer dizer “O homem honrado não teme murmúrios”, sentença autoexplicativa).

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Vamos parar de atrair abismos e depois chorar sentados na pedra como vítimas de um sistema. Quem é esse sistema? Como interromper o seu fluxo? Como não ser um reflexo desse sistema? Afinal, não adianta fazer dancinha carnavalesca vestindo a camisa da seleção, bater panela na janela, renovando o serviço dos matraqueiros do século XVII ou fazer falcatruas cotidianas para salvar a si e aos seus, pensando com uma mente que ajoelha no banco da igreja ou aos pés do pastor, sussurrando com lábios serenos: “Deus no comando! Deus é mais! Antes eles do que eu”.

Também não se fala em fugas. Pelo contrário: não olhar para o abismo significa enfrentar as questões do país com respeito, reflexão e consciência (notem que insisto nesta última palavra), agir com responsabilidade, com conhecimento, curiosidade, sem preguiça, tratando a tudo e a todos como membros de uma só comunidade. E, importante: partilhar boas ideias e não usá-las como armas de opressão ou maquinação.

Afinal de contas, como diz a pichação que sobrevive na Rua Frei Caneca, no centro do Rio de Janeiro: “Maldito é o soldado que aponta a sua arma contra o seu povo”. Adaptando sem plagiar: “Biltre é aquele que usa suas prerrogativas, sejam elas quais forem, contra o seu povo”. Pegando o gosto pela coisa, mas sem esquecer de referenciar: “O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação”. A frase é de Oscar Wilde, um homem que viveu e morreu sem medo.

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