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No começo dos anos 1950, a filha de um militar enfrentou a profunda insatisfação do pai e de toda a sua família ao casar com um homem que conhecera em uma festa. Era um rapaz galante, bem-apessoado e que peitava o mundo, mas que, anos depois, viria a ser vítima de sua própria boemia. Esse amor custou muito à destemida jovem, que precisou criar sozinha sete filhos. Sem recursos, afastada da confortável vida de outrora e do afeto de sua família, ela precisou criar forças para seguir em frente com a sua missão. Conseguiu.

Não muito longe da casa desta mulher corajosa, na mesma época, outra jovem abriu mão de tudo que possuía para casar com um rapaz do interior, homem do campo, que tinha como único bem uma quitanda. Anos depois, ele acabou perdendo o comércio e dedicou o resto de seus dias ao ofício de alfaiate. O casal teve cinco filhos e a jovem, trabalhando como professora, usou de todas as forças para manter a casa ao lado do marido. Os gastos eram muitos e o dinheiro curto. Seguiram em frente. Conseguiram.

Essas duas mulheres enfrentaram a rejeição de suas famílias porque acreditaram no amor. O percurso não foi fácil. Pelo contrário: veio repleto de dores, lágrimas, opções difíceis, sacrifícios e abdicações. No auge dos seus vinte e poucos anos, essas jovens perceberam que o amor é uma construção diária, feita tijolo por tijolo e que, de modo algum, está seguro de ventos fortes e intempéries.

Sempre que pensamos no amor, baseados em nossas leituras infantis e nas infinitas estórias, músicas e filmes que assistimos ainda nos primeiros anos de vida, percebemos que tudo dá certo para o casal apaixonado. Basta que um deles, especificamente o homem, seja herdeiro de uma grande fortuna ou que, mesmo plebeu, em um dia não muito distante, torne-se rico também.

Na infância, aprendemos que todas as estórias de amor são construídas em torno de príncipes endinheirados, donos de fortunas incalculáveis. Na literatura conhecida como “chick-lit”, essa realidade continua presente, agora na forma de ricos empresários, herdeiros incompreendidos escondidos em profissões anônimas e vampiros centenários donos de fortunas equivalentes “à economia de um pequeno país”. Portanto, para o imaginário popular, é fácil amar quando se está viajando por ilhas paradisíacas, provando de iguarias em restaurantes badalados, bebendo coquetéis em praias cobiçadas, comprando e sorrindo para fotos postadas em redes sociais. Em suma, é fácil amar quando tudo dá certo.

No entanto, a vida real de cada dia oferece um outro cenário, tocado por obstáculos e condições adversas. E se, ao invés de latifundiários ou imperadores, de belíssimas princesas e futuras condessas escondidas no mais profundo anonimato e prontas para se casar com herdeiros, as histórias contassem sobre o amor que surge no meio de mãos cansadas e calejadas, que trabalham o dia inteiro, com baixo salário, muitas contas e pouco sono? Se a temática não limitasse o sucesso do amor apenas às maravilhas que uma boa condição financeira pode proporcionar e começasse a falar do desafio e da magia de continuar amando alguém em meio ao caos?

Pensar nisso por um momento nos faz aguçar nossas sensibilidades para as narrativas que sempre estiveram aqui, bem diante de nossos narizes. Histórias cheia de revezes, que duraram muito menos do que o “felizes para sempre” dos contos de fadas e dos romances apaixonados, mas que estão repletas de valor e significado. Nós começaríamos a prestar atenção nos anônimos, nos silenciosos, nos não-poetas, nas serenatas sem música que cada amanhecer pode trazer.

Há histórias como a do octogenário teresinense que espera um antigo amor de juventude, nunca concretizado, passar todos os dias pelo mesmo lugar; ou do catador de lixo carioca que achou uma bolsa em meio aos detritos e, sorrindo, disse ao companheiro de trabalho: “que bolsa linda! A minha patroa vai adorar! Vou limpar bem direitinho e levar pra ela”, ou da funcionária de um supermercado em Ribeirão Preto que, ao terminar o turno de trabalho, saiu carregando uma caixa de compras pesada para presentear os dois filhos pequenos e o marido, pois aquele era o dia do “aniversário da família”. Há inúmeras histórias de amor e sacrifício que envolvem toda a família. Tenho um amigo querido que trabalha muitas horas por dia para ajudar os sobrinhos e a mãe, que sofre de depressão. Acordando às 4 horas da manhã e indo dormir depois das 22h, ele segue uma rotina pesada de domingo a domingo porque quer dar algum conforto para a família. Alguns anos atrás, em Ouro Preto, uma garota hippie presenteou uma pessoa que havia comprado algumas peças de sua produção para ajudá-la a pagar suas refeições da semana. Essa pessoa também a ajudou com as despesas do hostel onde ela estava hospedada. A moça fez, ali na hora, um lindo brinco de penas, utilizando suas melhores pedras e adereços. Entregou à pessoa e disse: “Para você nunca esquecer de como eu te amei neste minuto”. A pessoa jamais esqueceu, certamente.

Há muitas histórias de amor espalhadas por nosso cotidiano. Biografias como as das mulheres citadas no começo deste texto – minhas avós – e de pessoas conhecidas e desconhecidas, cenas que estiveram a um palmo de meu nariz. Por sermos moldados por valores em que predominam finais perfeitos e eternamente felizes, onde todos vivem sem problemas de nenhuma ordem, deixamos passar os pequenos milagres que acontecem e perdemos o instante sagrado do amor que brilha na gota de suor.

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