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Todo ano a história se repete. Na calada da noite, um menino nasce. Enquanto outros meninos de boas famílias, ou de famílias de bem, se empanturram de comida, de mimos e de presentes, um menino nasce.

Diz que nasceu lá pras bandas da periferia. No Pirambu. No Jangurussu. Na Barra do Ceará. No Bom jardim. No Canindezinho. Não se sabe ao certo. Pode ser que ele tenha rebentado em todos esses lugares aí. Já que é onipresente. Como erva daninha (ou erva danada), se esparrama em qualquer nesga de terra bruta. Quase que nem precisa de água pra rebentar, fortaleza que é.

E logo a Mãe percebe que o Menino está nu e morre de fome. “Que dirão de mim se o virem assim, pelado, e gritando de fome?”. Trata de pegar o primeiro busão para a cidade iluminada e abençoada pelo mar.

Quem passar por Meireles, Aldeota, Varjota, Mucuripe, Praia de Iracema… vai ver vários presépios montados nos cruzamentos das avenidas. Muitas Marias, envergonhadas, estarão quase que escondidas nas marquises, enquanto seu Menino, nuzinho, vestido apenas com gorrinho vermelho brinca nos semáforos fechados, faz acrobacias sobre latas esperando receber em troca do show qualquer coisa dos motoristas que passam confortáveis nos seus carros em direção à praia ou aos sítios no sertão.

Crianças morando nas ruas de Fortaleza, Ceará. Foto: Cláudio Rodrigues / Arquivo pessoal

“Uma moedinha pro meu Natal, moço!”, pede o menino. E, certos de que vão ao céu dos afortunados, os abastados caridosos entregam seu óbolo – cinco centavos, dez centavos, vinte e cinco centavos, cinquenta centavos. “Mais do que isso, não, que não vou sustentar vagabundo!”.

A noite chega.

A catedral da Sé se ilumina toda, e um coro angelical canta “Noite Feliz!”. Famílias bem-vestidas entram solenemente no templo e se dirigem ao presépio de imagens de gesso. A cena é um perfeito paradoxo. O coração desses pais e mães se enche de ternura olhando a imagem do Menino-Deus.

“Veja, filhinho, nosso Deus nasceu pobre para nos ensinar que devemos amar a pobreza”. Os filhinhos pensam: “Que legal! Amar a pobreza é dar moedinhas aos pobres, como o papai fez agorinha ali no sinal”.

Lá fora, as Marias, os Josés e os Meninos ainda pedem esmola. Suas sacolas estão cheias de comida da ceia dos ricos, as caixinhas de oferta também estão cheia de moedas. Maria está feliz, embora saiba que na próxima semana tudo vai estar como antes lá pra onde os ricos não andam.

E o Menino também tem consciência de que vai precisar voltar para a cidade iluminada e receber trocados por um pouco de malabares. Mexer pauzinhos, erguê-los e depois segurá-los firme enquanto se equilibra numa lata é ensaio para malabarismo da vida. O Menino sabe bem disso. Pode ser que ele sobreviva. Pode ser que não. Antes de completar 33 anos, talvez, perderá o equilíbrio e tombará, não numa cruz, mas na droga, no crime, na bala.

Crianças com gorros de Papai Noel numa esquina em Fortaleza, Ceará. Foto: Cláudio Rodrigues / Arquivo pessoal

Todo ano a história se repete. “A primeira vez como tragédia; a segunda como farsa”. É Natal. E nenhum anjo desceu à terra para cantar “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”. Mas os homens e mulheres de bem estão cantando, certos de que seu lugar no céu está garantido por terem dado migalhas de bondade aos pobres.

Depois… bem, nos 364 dias seguintes, os homens e mulheres de bem fecharão os olhos para as mazelas sociais enquanto hão de cantar em coro o discurso da meritocracia.

Belém fica na Cisjordânia. Mas Belém é aqui também. Fortaleza é todo lugar. Um brinde à meritocracia, se possível ao som de “Então é Natal, e o que você fez?”

Feliz Natal para quem?

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