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Aconteceu no último dia 15 de dezembro o II Encontro dos Trabalhadores em Bibliotecas e Arquivos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Organizado pela Comissão dos Trabalhadores em Bibliotecas e Arquivos da UFF, com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores da UFF (SINTUFF) e da Editora da UFF (EdUFF), o Encontro é um evento político-pedagógico que visa à conscientização e mobilização dos profissionais da UFF, e demais instituições públicas de ensino superior das universidades federais do Rio de Janeiro.

O evento, realizado no Auditório da Faculdade de Economia da UFF – Campus do Gragoatá, contou com as seguintes apresentações: Ana Paula Lopes, doutora em Saúde Coletiva pela UNIFESP e professora do Instituto de Psicologia da UFF; Rogério M. Araujo, mestre em Gestão de Arquivos pela UNIRIO e Técnico Administrativo da UFF; Chico de Paula, Bibliotecário do Centro de Tecnologia da UFRJ e editor-chefe da Biblioo e ainda Fabiano Caruso, mestre em Ciência da Informação pela UFF e produtor social.

Durante o evento foram discutidos os conflitos, as relações interpessoais, a democracia e as condições de trabalho no ambiente das bibliotecas e arquivos universitários. Na abertura a bibliotecária da UFF e membro do CTBA, Lucyene, ressaltou que a universidade está em greve e abordou a crise que o país está sofrendo. Carlos Abreu, coordenador-geral do SINTUFF, falou da criação deste encontro do CTBA e da importância do apoio do Sindicato aos profissionais da informação contra a prática do assédio moral.

Dando prosseguimento, a também bibliotecária da UFF e membro do CTBA, Jussara Moore, iniciou a sua fala levantando o grito da platéia de “Fora, Temer!” e agradeceu o apoio de todos para a realização desta segunda edição do Encontro. A bibliotecária Gilda Alvarenga, membro do CTBA, abordou em sua fala a crise da universidade pública brasileira em plena sociedade do conhecimento. A sessão de abertura foi finalizada pela leitura do poema Somos Livre, de autoria de Nildo Lages.

Gestão do trabalho e saúde

Ana Paula Lopes iniciou a sua fala apresentando conceitos de saúde sob os pontos de vista da Constituição Federal de 1988 e da Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo ela, a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, conforme determina artigo 196.

Em seguida Ana Paula apresentou a origem da palavra trabalho que remete a uma carga negativa como tortura, escravidão, etc. e mencionou que o trabalho, além de ser a fonte de renda, é a principal atividade de contato social, traz exigência física e mental, porém a sua falta também atinge a saúde. Ao abordar a transformação no mundo do trabalho, cujo objetivo era acelerar o modo de produção apoiado na intensificação do trabalho e na exploração do trabalhador, a professora destacou o quanto à revolução industrial (Taylor, Ford e mais tarde, Toyota) transformou o mundo do trabalho e que esta influência é exercida até hoje, como casos de pessoas que trabalham até a exaustão.

Para Ana Paula existe uma relação intrínseca do trabalho e do processo de identidade (status social, espaço social, atividade etc.) e a dicotomia do trabalho, ao promover a saúde e ao desgastar a mesma (sendo o desgaste físico, orgânico, mecânico, químico, fisiológico e psíquico). Ela mencionou que uma prática do mundo do trabalho e que gera doença no trabalhador, principalmente em órgãos públicos, é o assédio moral ou “psicoterrorismo”, como ela prefere chamar.  Citou que, a forma de punição no setor público, geralmente, ocorre com a remoção de funcionários para outro setor. Citou um exemplo de uma instituição pública na qual os funcionários eram removidos para o “Arquivo Morto” como forma de punição.

Gestão de Arquivos setoriais na UFF

Rogério de Melo Araújo apresentou parte dos resultados obtidos na sua pesquisa de dissertação de mestrado intitulada “Dimensões dos arquivos setoriais no âmbito das Universidades Federais do Estado do Rio de Janeiro: uma análise comparativa por meio do BENCHMARKING em 2016”. Rogério citou que, infelizmente, ainda é comum a prática de acumular materiais dos setores em locais impróprios nas universidades públicas, como em porões, quando deveriam estar em arquivos setoriais.

Segundo Rogério, embora a Administração Pública Federal, no caso as Instituições Federais de Ensino (IFES), reflitam pouco sobre a importância dos arquivos setoriais, estes são importantes fontes de informação dentro da instituição, pois são os responsáveis pelos arquivos correntes e intermediários. Durante sua apresentação, o arquivista apontou a política (ou não-política) relacionada a gestão de documentos na UFF, o que reflete em trabalho insalubre aos profissionais da área.

Ele destacou conceitos referentes à Gestão de Documentos/Terminologia Arquivística. Comentou sobre a criação e a consolidação da lei nº 8.159/1991, que dispõe sobre a Política Nacional de Arquivos, o decreto nº 4.915/2003, que trata da Gestão de Documentos de Arquivos e a importância da Lei de Acesso à Informação (LAI). “Os arquivos são instrumentos de acumulação de conhecimento”, defendeu Rogério.

Rogério M. Araujo falou sobre a política de gestão de arquivos setoriais na UFF. Foto: Luciana Rodrigues

Apresentação de trabalhos

O período da tarde foi iniciado com a apresentação de trabalhos no modelo e-pôster de 1 minito onde discentes e profissionais da informação (arquivistas e bibliotecários) de diversas instituições (UFF, UFRJ, UNIRIO, FIOCRUZ, etc.) puderam  apresentar trabalhos aprovados em Trabalhos de Conclusão de Cursos recentes e em eventos nacionais e internacionais, mostrando o quanto é rica a produção acadêmica da nossa área.

Bibliotecas universitárias e democracia

 Chico de Paula falou sobre a necessidade de se discutir a democracia no âmbito das bibliotecas universitárias.  Chico iniciou a sua fala abordando a origem da palavra democracia (do grego demokratía, que é composta por demos, que significa povo, e kratos, que significa poder). Segundo bibliotecário, o conceito de democracia é dicotômico, fragmentário e contraditório. Mencionou que países como os Estados Unidos invadem outros países e se valem da justificativa da falta de liberdade de expressão e dos direitos humanos, sinônimos de democracia, para tal medida.

“Como pensar em democracia se há uma necessidade de universalização das bibliotecas?”, indagou. “É preciso que haja uma democratização do uso da biblioteca, que seja acessível para os portadores de necessidades especiais, os deficientes físicos, que esteja aberta para todos como para os moradores de rua, os de baixa renda, a população negra, LGBTs, etc.”, defendeu.

Para Chico, é preciso que haja também uma democracia decisória/administrativa, isto é, que haja eleições para os cargos de direção, bem como a participação destes profissionais em acentos de órgãos de decisão, como os conselhos superiores das universidades. “No caso das bibliotecas universitárias, percebe-se que os responsáveis pelas unidades permanecem durante anos nas chefias, não permitindo a participação de outras pessoas e inviabilizando o processo democrático”, destacou. Ainda sobre as bibliotecas universitárias, Chico mencionou que estas são espaço fundamental para a democracia, pois, como se sabe, no Brasil temos uma grande deficiência de bibliotecas públicas, comunitárias e escolares, e quando temos, nem sempre são de qualidade. “As bibliotecas fazem as vezes de bibliotecas públicas, o que aumenta a sua importância”, lembrou.

Chico de Paula falou sobre democracia nas bibliotecas universitárias. Foto: Luciana Rodrigues

Fabiano Caruso falou sobre o seu projeto, o Extralibris, uma plataforma criada para apoiar a adoção de metodologia exclusiva para a implementação dos Núcleos de Inteligência Social, permitindo que os profissionais possam, a partir da organização de artefatos culturais, adotar uma série de soluções orientadas a Inteligência Colaborativas.

Segundo Caruso, a plataforma que pode ser utilizada por colecionadores, pesquisadores, educadores, historiadores, bibliotecários, arquivistas, museólogos, curadores, produtores culturais, além de qualquer entidade interessada em adotar proposição inovadora para articulação entre plataformas digitais e ambientes presenciais.

Fórum Permanente

Após a última palestra do dia, houve a leitura do manifesto e abertura de Fórum Permanente – Condições de trabalho e democracia em Arquivos e Bibliotecas Universitárias e a apresentação da Orquestra de Cordas da Grota (UFF).

O Encontro foi bastante enriquecedor para todos que estavam presentes e discutiu diversas temáticas atuais que nem sempre são pautas em outros eventos acadêmicos da área. Durante os intervalos de cada apresentação, havia o sorteio de brindes da EdUFF que enriqueceu ainda mais o evento. Diferente do evento anterior, não houve apoio de órgãos de classe como APCIS/RJ, SINDIB/RJ e CRB/7, embora estivessem presentes dois membros da nova gestão do CRB-7 (2018-2019), Luan Yannick (Bibliotecário da UFF, Mestre em Biblioteconomia/UNIRIO, membro CTBA 2016-2017) e Yolle Bittencourt (Bibliotecário da UFF, Mestre em Ciência da Informação/IBICT).

Poema “Somos Livres”, lido durante a abertura do II Encontro sobre Bibliotecas e Arquivos Universitários.

SOMOS LIVRES

(Nildo Lage)

Somos livres…

Quando a cidadania

Nos concede o direito

De sermos o que queremos…

De termos o que nos é de direito…

Somos livres…

Quando a democracia

Nos oferece liberdade

Para decidir o que faremos

Irmos para onde temos segurança

Somos livres…

Quando conquistamos autonomia

Para exigirmos o que nos convém,

O que é melhor para nós.

Somos livres…

Quando as leis

Usam o seu poder

Para fazer justiça…

Defender o bem comum…

Somos livres

Quando a educação nos proporciona estrutura

Para transformarmos a nossa realidade…

Somos livres…

Quando adquirimos consciência

Para administrarmos a nossa própria liberdade

Nos aprisionamos…

Quando sufocamos a nossa voz,

Aceitamos imposições…

Omitimos opiniões, verdades…

Nos aprisionamos…

Quando nos calamos perante as injustiças,

Aos abusos de poder… de autoridade…

… deixando-nos ser escravizados…

tratados como objetos.

Nos aprisionamos…

Quando desistimos de lutar,

Abrindo mão dos sonhos…

Do desejo de sermos felizes…

E nos acorrentamos em nós mesmos,

Quando achamos que sabemos o suficiente

E que nada mais temos a aprender.

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