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As escritoras Ana Maria de Souza e Sara Alves, ambas moradoras do Complexo da Maré, participaram Concurso Nacional de Novos Poetas, Prêmio Poesia Livre 2015 e foram premiadas, tendo seus poemas divulgados na coletânea Poesia Livre 2015. Sara Alves que além de escritora é pedagoga e agente comunitária, participou da disputa com o poema “Ê Vila de Gente”. Reconhecida pelo seu grande talento como poetiza, Sara havia lançado em 2013 o seu primeiro livro, chamado “Momentos”. Confira a entrevista onde ela fala um pouco mais sobre seu segundo livro:

Como foi participar do concurso de poesia?

Participar do Concurso Nacional Novos Poetas, Prêmio Poesia Livre 2015, foi resultado de um estímulo recebido de uma grande amiga, Claudia Santos. Ela postou no Facebook a divulgação do concurso com um recadinho de incentivo. Ousei em me inscrever e, sinceramente, não acreditava que seria classificada, pois vi que nos anos anteriores do concurso havia um grande número de inscritos de todo o país.

Fiquei feliz com a classificação e mais ainda porque o poema escolhido (devemos enviar dois para o concurso), pela equipe julgadora, foi o Poema “Trato Feito” que dediquei ao meu esposo, Iran, na noite em que eu o escrevi.

O prazer de fazer parte do livro, Antologia Poética – Prêmio Poesia Livre 2015, com inúmeros poetas e poetisas de diversos estados do Brasil, é muito grande, além de ser a prova de que é possível realizarmos nossos sonhos se acreditarmos, concretamente, neles e ousarmos.

Como chama o seu primeiro livro? Quando foi lançado?

Chama-se “Momentos”, um livro de poesias, ele foi lançado em 05 de abril de 2013 e esta realização só foi possível, pois existe na Editora Multifoco (Lapa- RJ) um projeto que se chama Publique. Esse projeto tem o objetivo de ajudar os escritores e escritoras que não têm condições de bancar a publicação de seu livro.

Quanto à quantidade de exemplares vendidos até hoje, na noite de autógrafo foram vendidos 30 livros e, posteriormente, amigos e amigas encomendaram direto comigo, pois eu havia solicitado alguns a editora, já que desejava presentear pessoas muito queridas que sempre me incentivaram.

Por que resolveu ser escritora?

Não resolvi ser escritora, a questão da escrita, pra mim, surgiu de maneira natural, fui descobrindo que em muitos momentos da minha vida a escrita estava presente e as razões sempre foram e são inúmeras; vários são os “motivos” para escrever, estar feliz, triste, ansiosa, pensativa, estressada, alegre, esperançosa, tranquila, em paz, enfim, a vida em todos os seus sentidos mais complexos e mais simples me convidam a escrever…

Acredito que a gente não resolver ser escritora ou escritor, a coisa acontece naturalmente pelo prazer, pelo envolvimento, pela diversão, independente de compartilhar ou não o que se escreve. Minha escrita é minha terapia.

Qual é a sua profissão? E sua formação acadêmica?

Sou Funcionária Pública da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social/SMDS desde 1988, Agente Comunitária com Muito Orgulho! (Muitas pessoas não sabem que existe Agente Comunitário/a sem ser Agente Comunitário/a de Saúde. Nossa categoria luta por Reconhecimento e Valorização da Prefeitura do RJ/SMDS).

Iniciei minha vida profissional em 1986, como Educadora Voluntária na Escola Comunitária Tia Lúcia, no espaço da Ação Comunitária do Brasil – Vila do João. Sou Pós-Graduada em Pedagogia Empresarial.

Você mora na Maré há quanto tempo?

Sou moradora da Maré desde que nasci, sou a única dos filhos que não nasci no barraco em que fui criada [risos], nasci no hospital… Fui criada na Nova Holanda, antiga Rua B e em 1982 meu pai, Alair, e minha mãe, Marina, decidiram mudar para a Vila do João, já que ela tinha sido inaugurada recentemente e assim continuamos moradores do Complexo da Maré.

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Ana Maria de Souza, de 85 anos, moradora da comunidade da Maré, só teve a oportunidade de desenvolver suas habilidades artísticas depois da aposentadoria. Há alguns anos ela atua como pintora, desenhista, atriz, cantora e poetisa. Todo este talento está sendo mostrado na Flupp (Feira Literária das Periferias), cuja edição de 2015 dura até outubro. Uma de suas pinturas ilustra a capa da coletânea de textos realizados especialmente para a Feira. Este ano lançou seu novo livro de poesia “Faces de Ana 2” e participou do Concurso Nacional de Novos Poetas, Prêmio Poesia Livre 2015, onde teve sua poesia divulgada em livro. Confira a entrevista onde Ana Maria fala um pouco mais sobre seu segundo livro:

Como foi participar do Concurso de Poesia Livre 2015?

Foi muito gratificante, já que sonhei com este prêmio e com o reconhecimento que ele está me dando no mundo da literatura.

Como você se sente ao lançar o seu novo livro Faces de Ana 2?

Me sinto muito feliz, pois no ano passado tive muito sucesso com o meu primeiro livro depois de mais de 50 anos tentando lançar, mas por obra de Deus consegui ajuda no projeto social Maré Latina, que me ajuda gratuitamente em tudo, tanto na produção, divulgação e no lançamento. Começamos no dia 05 de maio, no Museu [da Maré], depois 08 de maio no Projeto Maré Latina, 11 de maio na UFRJ.

Como foi e é participar da Flupp 2014 e 2015?

É a realização de um sonho, pois pude ser mais reconhecida no mundo da literatura. Conheci o Júlio Ludemir, que me convidou para ilustrar a ultima edição da coletânea de livros da Fluppe. Este ano recebi o convite para participar novamente deste grande evento literário.

Você tem blog e redes sociais?

Sim, tenho meu blog www.livrofacesdeana.blogspot.com.br e página no Facebook. São os meus principais canais onde eu mostro minha vida artística e literária.

Momentos

Ê VILA DE GENTE.

Ê Vila da minha vida.

Dos meus pesadelos e realidade.

Realidade e sonhos…

De Cidade Fantasma, eu te chamava.

Tudo desconhecido.

Ninguém me encantava.

Sofri com a dor,

mas não perdi as

raízes da minha

infância querida.

Amigos que não vejo mais.

Amigos que ficaram pra trás.

Amigos que não esqueço jamais.

Ê Favela Querida!!!

Nova Holanda é seu nome.

Alegrias ao entardecer…

Bola, peteca e muita correria.

Isso sim é que é infância!!!

Medo do homem do saco.

Pavor da mulher loura.

Nunca vi o porco com cabeça de gente…

Só sente quem vive…

Só sente quem é Gente.

Belas lembranças…

Cupins nas paredes…

Êta tardes ensolaradas…

Haja bacia com água pra

sossegar tantos bichinhos.

Quem bom!! Faltou a luz ê, faltou a luz ê…

Agora, papai contará contos e causos.

Êta criançada danada!!!

Cada história de arrepiar.

Oh! Meu Deus! E os filmes nos Galpões?!

A Leão XIII é famosa…

Até hoje sinto o cheiro de vampiro.

E a mulher com meia

cara de esqueleto?!

Não me lembro da Páscoa…

Não me lembro de ovos de chocolate…

É, mas de Festa Junina, hum…

Êta coisa boa: canjica, bolo e doces…

Não esqueço da cadeia.

Quem não paga pra sair,

fica até o amanhecer!!!

Que pena, tenho que dormir.

Criança não fica acordada

à noite toda, mamãe dizia.

Eu não sei quem inventou

que a noite é pra dormir…

Ah! Meu Deus, por que não

posso brincar à noite ?

Seria tão BOMMMMM!!!!!!

Vi estrelas pelas frestas do telhado.

Vi chuva molhar o assoalho.

Imagina! Tem rato e ratazana.

Tinha tristeza com a morte.

Ê coisa esquisita,

defunto na sala de casa…

E os piques??

Pique-tá, pique-esconde,

pique-alto, pique-baixo…

Haja pique.

Ê Vila Querida, não sintas ciúmes, não!!

Hoje, você é bela também.

Meio louca, mas bela.

Aprendi gostar de você.

Agora, o Castelo Encantado,

até luz lilás tem!

Que lindoooo!!

Você nunca reparou?

Pare e repare.

Novos amigos, eu fiz.

Novos amigos, perdi.

O Amor, nela, conheci.

E você, hoje, é enorme.

Não é mais Inferno Colorido.

Muitos não te conhecem,

e te consideram o inferno.

Mas NÃO É NÃO!!!!!!

Tardes lindas.

Céu com lua quebrada…

Estrelas nunca faltam…

Trabalhadores saem cedinho.

Haja ônibus, kombis, vans,

bicicletas

e tudo mais

para tantos Lutadores.

Ê VIDA… Ê VILA…

Quem não te conhece, te julga.

Têm “os meninos…”, você sabe…”

os meninos…

Mas onde não existem

mais esses “meninos”????

Aqueles…, aqueles… os excluídos ?!!

Não posso falar.

É perigoso!!

É melhor me calar.

Quem mora na “favela”

não sabe de nada,

não vê nada,

e nada fala!

Essa é a lei!

Ê favela, hoje, você é CO-MU-NI-DA-DE.

Êta orgulho besta!!! Êta coisa boa!!!

Dona Omissão, você só vive na favela?

Fala Omissão! Pode falar que

eu não conto pra ninguém.

Em que canto você vive?

Pode deixar, eu não conto pra ninguém.

Fale baixinho.

EU SABIA, EU SABIA !!!!

Você está em Todos os cantos!!!

Mas deixa pra lá…

Porque eu só quero declarar

as belezas que a Vila tem

e que muitos desconhecem também.

Vila, você cresceu!

Êta coisa doida: é Gente no meio dos carros,

é carro no meio de Gente!

Forró, pagode, festas,

futebol e muito churrasco.

Êta povo Trabalhador,

que inventa o que fazer

pra sobreviver.

E ainda tem gente que comenta

que essa Gente não é valente.

E ainda tem gente

que diz que essa Gente é vagabunda.

Essa gente nada sabe sobre Gente…

Violência?! Lógico que tem.

Mas onde, agora, não tem???

Vila, você cresceu!

E eu aprendi gostar de você

com todos os seus defeitos.

E sei que não sou a única.

Muita Gente te admira,

mesmo contrária à mídia,

você tem o seu valor.

Vila, você é mais que do João.

É, hoje, dos Josés e das Marias

e acorda todos os dias

com o cantar dos pássaros,

com o andar dos Trabalhadores

e também dos “vagabundos”

quando, ainda, há estrelas

que guiam a

VIDA na VILA

que hoje

também

é

Querida

por

esse

Alguém.

 

 

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Comentários

Comentários

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1 Comentário

  1. Lucas
    24 de março de 2016 a 14:15 — Responder

    Poesia maravilhosa!

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