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Na coluna do mês de setembro escrevi um texto (disponível em: http://biblioo.info/sobre-o-que-escrever/) pautado em duas perguntas: “como selecionar temas para produção de trabalhos acadêmicos?” e “como desenvolver esses temas?” promovendo atenção especial à primeira pergunta e aplicando a realidade de monografias e dissertações que envolvam os cursos de Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia e a pós-graduação em CI. Porém, mais complexo do que selecionar temas é conceber estratégias para desenvolvê-los, sendo a segunda pergunta nossa questão central neste texto.

O “como desenvolver um trabalho acadêmico” se situa notadamente nas perspectivas de afirmar aquilo que o pesquisador percebe junto ao recorte (ou contexto) que estabelece. Para tanto, o pesquisador deve considerar as seguintes questões preliminares para desenvolver o trabalho acadêmico: criticidade – o ato permanente de duvidar, perguntar e questionar (este ato deve ser marca em todo o processo de pesquisa); intuição e interação – referente aquele contexto do que e como o pesquisador pretende desenvolver. Para aprimorar a intuição é pertinente que o pesquisador procure estabelecer estratégias, como levantamentos bibliográficos (focalizar principais leituras sobre o tema selecionado), solicitar sugestões de colegas e até pesquisadores no assunto para dinamizar estratégias de pesquisa e identificar pontos/tópicos polêmicos para sustentar possíveis questões da pesquisa; percepção – o pesquisador precisa atuar como um catalisador, pois como não é possível abordar o todo é pertinente extrair os principais questionamentos que possibilitem o recorte objetivo para, por conseguinte, pensar os rumos da pesquisa.

No contexto propriamente dito de como desenvolver a pesquisa, consideramos pertinente pensar as seguintes questões:

a) Problemática – este, ao meu ver, é ponto embrionário na produção de sentidos (entender o que se quer pesquisar). Por isso, a problemática deve ser encarada como ponto crítico (questionar e perguntar). Muitos especialistas consideram que a hipótese é o ponto de partida, o que prontamente discordo, pois hipóteses são comumente apreciadas em pesquisadores e/ou pesquisas já maduras e passíveis de condições estratégicas mais sólidas. Esse pensamento força pesquisadores, especialmente aqueles que estão iniciando em monografias (e até em dissertações), a desenvolver substratos perceptivos, sem passar por procedimentos críticos e intuitivos deliberando ruídos ininteligíveis ao pesquisador. Para o desenvolvimento da problemática, o pesquisador deve ponderar o que chamo de integração temática da problemática que se constitui a partir da tese de que todo título de trabalho acadêmico possui uma concepção de complementaridade ou relação entre os termos que o compõem. Essa complementaridade entre os termos permite a construção de uma problemática clara e integrada.

Exemplo:

Título do trabalho: Gestão da informação em bibliotecas universitárias: um estudo no sistema de bibliotecas da UFPE

Construção da problemática:

– Um ou dois parágrafos questionando a gestão da informação como sendo relevante instrumento de reflexão e aplicação profissional, sendo necessário seu aprimoramento no âmbito da literatura da Biblioteconomia e Ciência da Informação;

– Um ou dois parágrafos questionando a gestão da informação em bibliotecas universitárias, como sendo uma associação necessária, mas ainda pouco vislumbrada na prática profissional.

– Um ou dois parágrafos versando sobre a gestão da informação aplicada ao sistema de bibliotecas da UFPE, sendo pertinente definir quais bibliotecas do sistema serão contempladas (caso todas não é preciso especificar na problemática) apontando a necessidade dessa aplicação, deficiências prévias referentes à estrutura física, pessoal, serviços, tecnologias, entre outros.

– Fechar com a(s) pergunta(s) que considero pertinente dividir em pergunta(s) central(is) e pergunta(s) secundária(s).

Pergunta central

Como tem sido desenvolvida a gestão da informação no sistema de bibliotecas da UFPE?

Perguntas Secundárias

Quais serviços promovidos por bibliotecas universitárias? Como são definidos os processos de atuação do bibliotecário em bibliotecas universitárias? Como a biblioteca universitária deve compor sua estrutura humana e tecnológica?

Observem que as perguntas secundárias, que podem ser de cunho teórico ou teórico-prático (a depender do recorte da pesquisa), respaldam conteudisticamente perspectivas de consecução/concretização da pergunta central (que é comumente de execução prática, teórica ou teórico-prática).

b) Justificativa – esta é diferente da problemática porque não tem a finalidade de questionar e perguntar, mas de apontar os motivos pelos quais a pesquisa é desenvolvida. Para tanto, indicamos os seguintes pontos que compõem a justificativa:

– Modo como foi escolhido o fenômeno a ser pesquisado (falar brevemente como se deu a seleção da pesquisa);

– Relevância do tema (defesa da temática de pesquisa);

– Relevância do problema (objetivamente envolve a defesa das perguntas concebidas na problemática);

– Razões que justificam a pesquisa como científica (mostrar a pertinência de investigar o tema escolhido por meio de métodos e estratégias científicas); social (dialogar e compartilhar junto às diversas comunidades envolvidas na pesquisa, novos conhecimentos produzidos); profissional (mostrar que a pesquisa demanda efetiva exequibilidade profissional); institucional (envolve questões relativas a pesquisas junto a órgãos e organizações públicas e/ou privadas), além de outras razões que o pesquisador considerar pertinente.

– Vantagens e benefícios que a pesquisa pode proporcionar.

c) Objetivos – constituem a finalidade da pesquisa, sendo divididos em geral (define o que se pretende alcançar com a realização da pesquisa) e específicos (como o próprio já sugere, visa esmiuçar o objetivo geral em tópicos). Vale ressaltar que os objetivos específicos são fundamentais para o desenvolvimento do referencial teórico e empírico da pesquisa, ou seja, se o pesquisador insere no objetivo específico que vai discutir, refletir, analisar, abordar, identificar… tal questão, deve fazê-lo no decorrer da pesquisa. Por exemplo, se o pesquisador afirma que pretende “discutir sobre impactos da leitura na escola”, este objetivo deve compor um tópico ou capítulo do referencial teórico. Em síntese, os objetivos específicos, devem ser o teor basilar para o desenvolvimento do referencial teórico e empírico (análise dos dados). Acrescento ainda que os objetivos se dão pela prática definida do uso de verbos com os seguintes sentidos: conhecimento (apontar, assinalar, relacionar, relatar…); compreensão (descrever, discutir, expressar, identificar, narrar…); aplicação (aplicar, demonstrar, empregar, esboçar, ilustrar, interpretar…); análise (analisar, comparar, investigar, abordar, examinar, distinguir…); síntese (construir, propor, esquematizar, coordenar, reunir…); avaliação (avaliar, apreciar, selecionar, escolher).

d) Referencial Teórico – concebido a partir de tópicos referenciados pelo proposto nos objetivos específicos e deve ser baseado em questões como quem já pesquisou algo semelhante; busca de trabalhos semelhantes ou idênticos, pesquisas e publicações na área; e exposição das ideias de alguns autores ou fontes que possivelmente estão sendo lidos pelo pesquisador a fim de mostrar suas perspectivas teóricas. O referencial teórico deve atentar para aplicação de objetivos que envolvam discussão/reflexão, análise, interpretação, descrição, identificação, avaliação… de questões através de diálogos com autores que permite convergir, divergir, complementar, criticar e criar novas questões a partir desses diálogos.

e) Metodologia – é a explicação minuciosa e rigorosa de toda ação desenvolvida no trabalho de pesquisa. Em linhas gerais, a metodologia pode ser definida da seguinte forma: caracterização do objeto (descrição geral dos dados que compõem o objeto da pesquisa que pode ser uma instituição/organização pública e privada ou determinada comunidade/grupos de pessoas); sujeitos da pesquisa (envolve os públicos que são delimitados na pesquisa e podem ser desenvolvidos em sujeitos humanos e não-humanos, sendo estes últimos representados comumente por documentos/artefatos que constituem a análise dos dados através de uma análise documental); caracterização do estudo (nível da pesquisa quanto aos fins que pode ser descritiva, exploratória, explicativa ou preditiva; quanto aos meios que pode ser bibliográfica e/ou documental; natureza dos dados que pode ser quantitativa e/ou qualitativa; escolha do método que pode ser indutivo/dedutivo, hipotético-dedutivo, dialético, funcionalista, estruturalista, compreensivo, fenomenológico, positivista, indiciário, hermenêutico, entre outros; e instrumento de coletas de dados que é relativo a descrição dos procedimentos de aplicação/colhimento dos dados, como aplicação de técnicas de questionário, entrevista, formulário, grupos focais…, além da delimitação de técnicas que permitam a análise dos dados, tais como análise de conteúdo ou análise do discurso, sendo que esta última deve ser utilizada apenas caso o pesquisador considere necessário. Na caracterização do estudo ainda é possível a elaboração de contextos, conforme necessidade da pesquisa, como, por exemplo, considerações éticas (envolve a justificação de sujeitos que estão inseridos no contexto, mas que não podem participar por questões institucionais, pessoais ou profissionais ou para mostrar formas de conduta da pesquisa primando pelo respeito as diferenças e a confidencialidade de dados) considerações estatísticas (no caso de se utilizar alguma técnica quantitativa de pesquisa) etc.

f) Análise, discussão/interpretação dos dados – é a parte empírica da pesquisa e envolve a análise das técnicas aplicadas. Na análise dos dados é possível tanto analisar técnicas empíricas quanto a análise documental que é constituída por documentos que não receberam tratamento analítico como documentos institucionais (atas, estatutos, regulamentos, ementas de órgãos públicos, privados, mistos, terceiro setor, comunitários etc.).

Enfim, evidentemente que os pontos elencados não abarcam a totalidade das perspectivas estratégicas para o desenvolvimento de pesquisas no âmbito acadêmico, mas buscam promover alternativas de compreensão para pesquisas nas mais variadas áreas do conhecimento através da articulação de cada etapa da pesquisa e como construir sentidos contextualizados entre essas etapas favorecendo uma percepção holística da pesquisa que pense o todo estratégico da pesquisa, ou seja, a realidade geral do fenômeno a ser delimitado/investigado e os procedimentos para investigação.

Fiquem a vontade para utilizar o espaço para comentários (sugestões, perguntas e questionamentos), visando o enriquecimento do texto e aprimoramento do debate.

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Comentários

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3 Comentários

  1. Eliene Gomes
    21 de outubro de 2013 a 9:49 — Responder

    Parabéns pelo texto, tornar didático um tema bastante complexo é admirável e produtivo, farei uso de seus ensinamentos em busca do Doutorado.

  2. 25 de outubro de 2013 a 3:59 — Responder

    Muito pertinente este artigo. Pena que o sistema educacional seja tão falho nas escolas públicas advindo dos problemas sociais de nossa população fazendo com que grande parte dos alunos advindos daqueles espaços não conseguirem produzir nem pequenos textos com desenvoltura. Assim nossa Universidade pública tem de muitas vezes tentar reparar isso ensinando ao alunos de graduação ainda coisas muito básicas de escrita. Eu na minha época de graduação em Arquivologia via muito esse problema entre muitos que cursavam juntamente comigo a faculdade. Um grande abraço.

  3. Sonia Ferreira
    5 de maio de 2014 a 18:42 — Responder

    Parabéns, o texto está bastante conciso e explicativo, utilizarei essas informações para elaborar meu projeto de doutorado.

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