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Por Jessamyn West, do medium.com. Do original Things That Make the Librarian Angry. Tradução por Moreno Barros, do morenovsky.wordpress.com.

“Prometo tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana”

Eu fui atraída para a biblioteconomia porque gosto de ajudar as pessoas, sou organizada e acredito na liberdade intelectual – o direito das pessoas de aprender, ensinar e saber o que elas quiserem. Eu gosto de tecnologia porque ela pode resolver problemas, muitos deles. Às vezes, a sobreposição entre as minhas duas coisas favoritas cria bolsões de dissonância cognitiva, onde a tecnologia que resolve um problema para o mercado cria outro para a biblioteca e seus usuários. Aqui está um.

Ter uma lista de espera para ebooks na biblioteca é realmente estúpido, está na cara. Como bibliotecária eu sou bastante esclarecida sobre conteúdo digital –  o suficiente para saber que os usuários o querem bastante. No entanto, temos uma pequena lista de maneiras como podemos oferece-lo de uma forma “emprestável”. No trabalho eu mantenho a minha cara de blefe. Em casa eu só desejo dizer às pessoas a verdade, a verdade frustrante: oferecer conteúdo digital desta maneira traz benefícios no curto prazo, mas consequências negativas a longo prazo.

As pessoas que acabaram de conhecer as bibliotecas e os empréstimos de ebooks escrevem regularmente para o Open Library, onde eu trabalho, para dizer que nós somos estúpidos porque temos listas de espera para ebooks. Não entendemos a tecnologia e sabemos que você pode fazer cópias infinitas de um arquivo digital? A gestão de direitos digitais (DRM) não aumenta o atrito entre o leitor e o livro que eles querem? O Internet Archive não é responsável por oferecer coisas de graça? Toda a internet não deveria ser livre?

Para ser caridosa, talvez eles estejam apenas dizendo que a ideia de ter listas de espera para ebooks é estúpido. Eu não discordo, mas é difícil não levar essas coisas pro lado pessoal. Eu fico um pouco indignada com isso às vezes. Os bibliotecários têm um monte de ressentimentos sobre alguns dos papéis que desempenhamos na nova economia. Há muita coisa que nós não dizemos.

Se você quiser pegar um livro emprestado do Open Library e colocá-lo no seu dispositivo (em vez de lê-lo online através do BookReader) você precisa lidar com o DRM da Adobe. Todas as bibliotecas que emprestam ebooks usam alguma forma de DRM. Sinto muito. Estou bem ciente de que qualquer decisão sobre DRM não é um valor neutro, e que a Adobe em específico não tem inspirado muita confiança recentemente. Ao mesmo tempo, não há um grande número de opções. Empréstimo via Amazon e Kindle é pior, conectando ainda mais suas informações pessoais – o seu endereço, o seu cartão de crédito, o seu histórico de compras – com seus hábitos de leitura. Em uma cultura nacional de bibliotecas públicas onde todos os cinquenta estados têm diretrizes ou leis sobre privacidade do leitor, nenhuma solução atualmente disponível sobre empréstimos nos ajuda a manter os dados dos nossos usuários realmente privados. Não há uma solução boa para empréstimos de ebooks, ainda.

Todo trabalho requer compromisso, ou pelo menos é isso que eu digo a mim mesma. Meu trabalho envolve doar coisas – que está muito em linha com os meus valores de Cultura Livre – e ao mesmo tempo ensinar as pessoas uma  dança de mistificação bizantina por e-mail para acessar esse material “livre” espalhando uma mensagem enganadora e desnecessária de que “tecnologia é difícil “.

A tecnologia não tem que ser difícil. As pessoas tornam difícil porque elas têm outras prioridades além daquela que é fornecer a interface mais simples ou a melhor experiência ao usuário.

Nada de errado com isso necessariamente, mas nós devemos ser capazes de ser honestos sobre essas prioridades. Embora haja alguma utilidade em pessoas ganhando habilidades na instalação de software, ou criar e lembrar múltiplas combinações de usuário/senha, este parece ser um número grande de obstáculos para pegar emprestado um livro da biblioteca.

Em primeiro lugar, obtenha uma conta no OpenLibrary.org. Em seguida, baixar, instalar e registrar o software da Adobe ou, se preferir, algum outro software que irá trabalhar com o DRM da Adobe. Você vai precisar de um Adobe ID não importa o software que você escolher. Seu software leitor de ebooks habitual pode não funcionar. Na verdade, ele provavelmente não irá. Aqui está uma lista de opções de software para vários dispositivos. Alguns deles são de código aberto. Sim, existem opções para Linux. O empréstimo do livro irá expirar após duas semanas. Eu sei, é estranho. Tudo fica mais fácil depois da primeira vez. Sim, eu gostaria que fosse diferente.

Meu dilema pessoal moral – eu fiz as pazes em trabalhar com DRM, por enquanto, embora eu não esteja sempre feliz sobre isso – é quão honesta eu deveria ser sobre este processo? Transparência, franqueza e honestidade são traços valorizados, especialmente para organizações 100% online. E, no entanto, a honestidade completa vem com suas próprias desvantagens. Fomos ensinados nos EUA a ser cautelosos, a ter medo.

Quando alguém manda um email para dizer que não conseguiu terminar um livro até o final do período de empréstimo, sugiro soluções embaraçosas (“Coloque-se na lista de espera para o livro e você pode te-lo de volta em breve”), mas eu não digo a eles que existem aplicativos que podem retirar o DRM para que possam manter o livro para sempre. Quando alguém manifesta preocupação sobre o software invasivo da Adobe eu ofereço-lhes alternativas de software, mas não explico como se inscrever para um ID Adobe usando uma identidade falsa e um servidor proxy. Eu sei como fazer essas coisas. Eu não falo sobre como fazer essas coisas.

Este processo funcionava de forma diferente na biblioteca física onde eu conhecia todos os usuários pessoalmente e poderia falar silenciosamente sobre a mesa que eles poderiam gravar o CD do audiobook para o seu computador portátil, se eles não tivessem conseguido ouvir tudo em duas semanas . Eu costumava desenhar a linha em mostrar-lhes como fazê-lo. Normalmente. “Usar algo como o Handbrake para ripar DVDs é uma violação da DMCA” eu diria, e meu usuário ouvia e acenava de cabeça e anotava a mão Handbrake. Ou eu poderia dizer às pessoas para ignorar o aviso ameaçador na máquina de fotocópia, quando elas estavam copiando um artigo de revista para o seu grupo de leituras … que pôs em questão a presença do adesivo na máquina de cópia em primeiro lugar.

“Talvez não seja tecnicamente legal, mas é tecnologicamente possível” é o que eu diria, acrescentando que eu não conhecia ninguém nos EUA que havia ficado em apuros legal para usar esta ou qualquer outra fotocopiadora de biblioteca, apesar das mensagens de pavor. Estou bem ciente de que a ignorância da lei não é realmente uma desculpa razoável ou defesa, mas colocar a mente das pessoas à vontade, diferenciando possibilidade de probabilidade é um passo importante na alfabetização digital. Ensinar às pessoas sobre como a tecnologia pode atendê-los inclui ajuda-los a aprender a analisar e avaliar o risco para si mesmos.

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Na faculdade de biblioteconomia, aprendemos muito sobre a entrevista de referência; como tirar o que um usuário está dizendo e convertê-lo em uma necessidade de informação, mesmo quando o usuário pode não saber exatamente o que ele quer. A pergunta “Posso fazer isso?” tem uma gama de respostas, dependendo do que exatamente está sendo perguntado.

  • Isto é tecnologicamente possível?
  • Está de acordo com as regras do sistema em que estamos inseridos?
  • É permitido de acordo com um conjunto de leis que podemos concordar?
  • É ético de acordo com um conjunto ético que podemos concordar?
  • Eu, o bibliotecário, sei como fazê-lo?
  • Poderiam eles, os usuários, entender como fazê-lo?

Quando um usuário do Open Library me pergunta por e-mail se eles podem manter um ebook mais tempo do que o período de empréstimo de duas semanas, as respostas reais para estas questões são todas alguma variante do “Posso fazer isso?”: sim, não, não , talvez, sim e talvez. Se você veio até a minha casa e tinha quinze ou vinte minutos disponível, eu explicaria as nuances dessas respostas para você. Se você veio e me perguntou isso em uma biblioteca eu faria alguns julgamentos e decisões em frações de segundo sobre a maneira correta de responder a sua pergunta. Mas por e-mail, com uma pessoa que eu não conheço e não posso ver, eu permaneço do lado da cautela e apenas digo “Não, você não pode fazer isso.” E isso me deixa um pouco com raiva; furiosa comigo mesma e com raiva de um sistema que me coloca neste lugar estranho, dizendo inverdades para as pessoas que possivelmente não sabem melhor, as pessoas que confiam em mim.

Eu não tenho certeza, depois de tudo isso, se eu estou mais preocupada com os usuários que nos dizem que este sistema é estúpido, ou com os usuários que parecem aceitar que esta é uma maneira totalmente razoável de um sistema funcionar.

Recentemente parece que apenas dizer às pessoas que o DRM é burlável não é em si um ato ilícito. Esta é uma boa notícia. Organizações de biblioteca estão trabalhando no problema maior, tanto na arena política, bem como a tecnológica. Eu tenho uma boa sensação de que a minha angústia é temporária, não permanente. Mas toda vez que eu entro em minha biblioteca local e veja as etiquetas de direitos de autor sobre as impressoras, sinto que parte da solução tem de ser uma de cunho social. Os profissionais da informação precisam estar disposto a intensificar e ser mais honestos sobre como a tecnologia realmente funciona e não silenciosamente nutrir sistemas ruins. As pessoas confiam em nós para dizer-lhes a verdade.

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1 Comentário

  1. […] (ou tentar pensar) esse novo cenário também passa por nós bibliotecários, inclusive leiam o texto da Jessamyn West que trata de umas questões bem incômodas. Mas pra pensar é preciso conhecer o contexto e isso […]

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