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Em 1757, o crítico literário italiano Giuseppe Baretti debochou da ignorância histórica dos estudantes espanhóis com a seguinte frase: “Cerca de 30% pensam que Galileu foi queimado na fogueira pela Inquisição.”[1] Em nome do bom senso, contive o riso. É que durante muito tempo, cultivei a mesma ideia, ou coisa pior.

Cheguei a ficar desapontado ao descobrir que a pena aplicada a Galileu foi rezar sessenta vezes os salmos penitenciais em prisão domiciliar, num belíssimo palácio toscano, cercado por fontes e jardins. Parecia tudo tão distante das requintadas técnicas de violência adotadas por frades sádicos e encapuzados que povoavam o meu imaginário.

Ainda nos meus primeiros anos como bibliotecário, a palavra censura me remetia, automaticamente, ao Museu do Prado; é lá, numa de suas paredes, que repousa o famoso óleo sobre tela, de Pedro Berruguete. Nela, São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores – a gestora do Tribunal do Santo Ofício –, e os hereges albigenses travam uma disputa: ambos lançam seus livros na fogueira, e por intervenção divina, as obras do santo padroeiro da inquisição são preservadas.

Muito antes de conhecer o quadro de Berruguete, os monges de O Nome da Rosa,[2] decididos a matar e a morrer em prol do sistema, me levaram a reputar ao Medievo uma péssima fama. A imagem do venerável Jorge de Burgos devorando as páginas envenenadas do segundo livro da Poética, de Aristóteles, me levou a suspirar aliviado, acreditando ter nascido em tempos de paz. Tolice.  Agora mesmo, a espada afiada está suspensa sobre nossas cabeças. Duvidam?

Capa do livro “Meninos Sem Patria”, de de Luiz Puntel, censurado pelo Colégio Santo Agostinho no Rio. Imagem: divulgação

Pois sugiro que leiam os sinais dos tempos. Nesta semana, a Veja[3] noticiou que o Santo Agostinho, famoso colégio católico, um dos mais caros da cidade do Rio, censurou um livro. A obra Meninos sem pátria,[4] de Luiz Puntel, conta a história de Zé Maria, que anuncia para a família o fechamento do jornal em que trabalhava pelos militares, obrigando-o a deixar o país, juntamente com a mulher e os dois filhos.

Foi esta narrativa, publicada em 1981 e já na 23ª edição, acusada por alguns pais de alunos da escola, de “doutrinar crianças com ideologia comunista”, promovendo um “discurso esquerdopata” entre os alunos.[5] Procurado por jornalistas, o escritor explicou que a obra, produzida logo após a anistia, ilustra o sofrimento do retorno dos exilados políticos.

Tentativa inútil. É que o ovo da serpente já eclodiu. Aplica-se ao caso, as palavras de Steiner[6]: “[…] Nossas ditas democracias tampouco são inocentes. Clássicos e obras de literatura contemporânea foram retirados das estantes e das bibliotecas públicas ou escolares em nome de um ‘politicamente correto’ tão pueril quanto degradante.” Onde há cultura escrita, há repressão da mesma.

Profecia de Chartier:[7]  “A cultura escrita é inseparável dos gestos que a reprimem.” Isso se dá de diversos modos. A primeira e a mais óbvia delas é diabolizar a narrativa, obtendo com isso a marginalização de quem a produziu e do local de onde se fala. Em outros termos, se estabelece uma relação de absoluto estranhamento entre o eu e o outro.

Essa estratégia de silenciamento, ou se preferirmos, de fuga, faz com que eu deixe de ser responsável pelo outro. Afinal de contas, a responsabilidade, na perspectiva de Lévinas,[8] é consequência de estar em face do outro. A humanidade nasce daí. Portanto, a censura é, fundamentalmente, uma estratégia desumanizadora. Desumanizadora e recorrente, diga-se de passagem.

Pedro Berruguete (1450-1504), Milagre de S. Domingos de Gusmão frente aos albigenses (séc. XV) – Museu do Prado (Madri).

Nos últimos anos, o país tem enfrentado uma profunda crise econômica, atrelada a uma estrutura política corrompida até a medula pela lógica de favores. Frente a este quadro, brotou no coração do brasileiro comum, o sentimento de desesperança no Estado e a aposta na violência. A hipótese pode ser facilmente confirmada pelos últimos números das pesquisas eleitorais.

Os mais bem cotados para ocupar o Planalto e as cadeiras do Parlamento são os que apostaram em temas de moral repressora, como legalização do porte de armas e defesa da família (entenda-se “família cristã”). Por sua vez, as pautas de direitos humanos, costumeiramente negligenciadas no Brasil, sofreram um processo explícito de execração.

A paga de quem ousa defender direitos para negros, gays e favelados é receber na testa ou na lombada o ferrete de “antipatriota” ou “defensor de bandidos”. Parece-me que foi o triste fim do livro do Puntel. O mais assustador é que há outros ovos no ninho. Na última semana, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Dias Toffoli, em palestra na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, intitulou de “movimento feito por militares” o golpe de 1964.[9] Eufemismo leviano.

As duas situações fazem parte de uma mesma estratégia. De um lado, a tentativa insana de atribuir significados escusos e confabulatórios a um livro. Submetidos ao binarismo idiota instaurado no país (coxinhas versus mortadela, patriotas versus comunistas, defensores da família versus inimigos da família), os pais elevaram o texto de Puntel à condição de objeto detestável, “inimigo número 1” de gente de bem.

Do outro, um ministro desajuizado mitigando um regime de barbárie. Discursos alinhavados, urdidos no calor da ignorância, comprometidos em silenciar a verdade. E qual a verdade? Não esperem verdade dos violadores. Interroguem os corpos violados. Contemplem os 424 assassinados.[10] Leiam os 430 livros censurados durante a ditadura, impedidos de circularem entre as mãos dos leitores.[11]

Meu temor é que destes discursos destinados a transformar o golpe militar em movimento gremista, e a censura em prática pedagógica, nasçam mais serpentes venenosas, resolutas em censurar livros e reprimir corpos. Essa relação sempre foi estreita: “Aqueles que queimam livros, acabam, mais cedo ou mais tarde, por queimar homens”[12].

Torço para que, no próximo domingo, dia de eleição, outros ovos não eclodam das urnas, vindo a se reunir com outras serpentes no pátio do Santo Agostinho, ou, quem sabe, em algum gabinete do STF.

[1] ROCA BAREA, María Elvira. Imperiofobia y leyenda negra: Roma, Rusia, Estados Unidos y el Imperio Español. Madrid: Ediciones Siruela, 2018. p. 273.

[2] ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

[3] MOLICA, Fernando. Escola católica do Rio censura livro acusado de ser de esquerda. Veja, São Paulo, 2 out. 2018. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/escola-catolica-do-rio-censura-livro-acusado-de-ser-de-esquerda/. Acesso em: 4 out. 2018.

[4] PUNTEL, Luiz. Meninos sem pátria. 23. ed. São Paulo: Ática, 2016.

[5] MOLICA, op. cit.

[6] STEINER, George. Aqueles que queimam livros. Veneza: Ayine, 2017.

[7] CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP, 1999. p. 23.

[8] LÉVINAS, Emmanuel. Ética e infinito. Lisboa: Edições 70-Brasil, 2007.

[9] PESSOA, Gabriela Sá. Toffoli diz que hoje prefere chamar golpe militar de ‘movimento de 1964’. Folha de S. Paulo, São Paulo, 1 out. 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/toffoli-diz-que-hoje-prefere-chamar-ditadura-militar-de-movimento-de-1964.shtml. Acesso em: 3 out. 2018.

[10] MIRANDA, Nilmário. Dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado. 2. ed., rev e ampl. São Paulo: Fundação Perseu Abramo Boitempo,2008.

[11] SILVA, Deonísio da. Nos bastidores da censura: sexualidade, literatura e repressão pós-64. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.

[12] HEINE, Heinrich. Almansor. Eine Tragödie. In: Windfuhr, Manfred (Org.). Historisch-kritische Gesamtausgabe der Werke. Hamburg: Hoffmann und Campe, 1973-1997. p. 16, tradução nossa. Disponível em: <http://hhp.uni-trier.de/Projekte/HHP/Projekte/HHP/searchengine/werke/baende/D05/enterdha?pageid=D05S0016&bookid=D05&lineref=Z34&mode=2&textpattern=koran&firsttid=0&widthgiven=30%7CHistorisch-kritische>. Acesso em: 4 out. 2018.


A partir de hoje, Cristian Brayner passa a integrar a equipe de colunistas fixos da Biblioo. Ele escreverá mensalmente sobre políticas públicas e indústria cultural, além de debater temas atuais relacionados à livro, leitura, literatura e bibliotecas.

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