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“Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário, e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo”.

Hegel, 1807 

“A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história.”

 

(Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de história, 1940)

 

O ano era 1987. Eu era um menino de 11 anos e estava cursando a sexta série ginasial (fundamental II) numa escola chamada Bandeirantes, no município de Lago da Pedra, minha cidade natal, interior do Maranhão, região da Pré-Amazônia, conhecida como Amazônia Legal.

O Brasil das Diretas Já vivia às vésperas da promulgação da Constituição de 1988, e os adultos ainda se constrangiam ao falar da censura, da ditadura militar e de suas marcas reforçadas pela política coronelista nas oligarquias do interior do Brasil. Se em 1970 a classe operária urbana se insurgia contra o patronato a partir de São Bernardo do Campo, no campo, a luta pela posse da terra e pela Reforma Agrária fez tombar muitos lavradores, lavando com seu sangue o solo que tanto desejava sementes, colheita e fartura.

O latifúndio fez muitos mártires na Amazônia Legal a partir da Terra das Palmeiras. Quem não se lembra da execução do Padre Josimo, coordenador da Comissão Pastoral da Terra na região do Bico do Papagaio, na divisa entre Maranhão, Pará e, à época, o estado de Goiás? Capelas eram profanadas, imagens quebradas, casas queimadas, religiosos ameaçados de morte, mulheres, homens e crianças eram patrulhadas pelos capangas dos grandes senhores de terra. Enquanto se discutia os rumos da democracia no Brasil, no interior, a lei era do “Olho por olho, dente por dente”.

Eu era fascinado pelos livros de Geografia e de História. Lembro como era bom receber os livros didáticos e sentir o cheiro deles, folhear, percorrer assuntos desconhecidos, de mundos tão distantes e tão próximos. E foi com interesse que recebi aquele livro de História do Brasil novinho, cuja capa tinha o escudo da Bandeira do Brasil com uma foto de fatos históricos do Brasil contemporâneo.

Pois aquele livro, lá no fim do volume, exibia fotos da luta estudantil na época da ditadura e a resistência da classe operária no ABC Paulista, cujo centro era São Bernardo do Campo. O capítulo ostentava uma foto de milhares de operários ouvindo atentamente um líder: Luís Inácio Lula da Silva. O texto mostrava a importância do homem, do líder sindical e das greves nesse período. Mostrava também Lula preso por liderar aqueles operários todos contra o patronato. Esse era o crime dele.

Eu queria que o ano passasse depressa apenas para poder ler sobre aquele cara, que era discussão lá em casa, e agora tornava-se conteúdo de um livro oficial de História do Brasil. Os professores eram todos leigos, tinham mal o magistério de primário. Vestibular era sonho inatingível para nós, pobres e periféricos. Apenas os filhos de fazendeiros podiam sair para a capital para estudar medicina e direito. Nossos professores tinham como fonte de pesquisa os livros didáticos mesmo.

Sentia que falar daquela história recente era estranho, como se fosse proibido, uma espécie de tabu, uma página que devesse ser apagada ou arrancada do livro. E era assim mesmo que faziam: quando um livro de conteúdo transgressor ou de denúncia passava ileso pelo crivo do MEC, as escolas ou arrancavam as páginas sobre a luta do campo e do operariado, ou tratavam de silenciar. O conteúdo estava ali, mas no limbo e jamais seria trabalhado, pro bem das escolas. Quem queria se comprometer diante de patrulheiros de plantão?

Padre Josimo foi assassinado no dia 10 de maio de 1986. Foto: internet

Hoje, esse mesmo homem está preso, depois de ter sido duas vezes presidente do país. Depois de ter contribuído um pouquinho para o acesso da classe pobre aos serviços que sempre lhe foram negados. Depois de ter levado o Brasil a ser visto na horizontalidade do respeito por potências mundiais. Hoje, inúmeros trabalhadores estão e estarão nas ruas, não para defender um partido, mas para defender uma causa. Trata-se claramente de uma prisão política.

Os organismos internacionais de direitos humanos, os partidos de esquerda do mundo inteiro, a imprensa internacional, todos têm referendado isso. Uma prisão política, arbitrária, arquitetada para que não um homem fosse preso, mas um projeto de nação que esse sujeito ousou elaborar. Enquanto a imprensa nacional celebra o encarceramento de Lula, a imprensa internacional denuncia o acordo feito pela imprensa, o judiciário e o empresariado para defenestrar a esquerda e seu projeto de diminuição das desigualdades sociais.

Por isso, você que nasceu depois dos anos 2000, que não viveu esse período de extrema desigualdade social, quando lugar de pobre, preto e assalariado era na favela ou na periferia, e não na universidade, você precisa assumir uma luta que não começou agora. Você precisa dizer sim ao projeto de um país onde todos tenham seus direitos respeitados e suas vidas valorizadas. Você precisa entender que não é um homem que estão querendo prender, mas um símbolo de luta, para que sejam anuladas todas as conquistas e para levar de volta ao poder aqueles que estão a serviço da manutenção dos seus interesses e dos patrões, e não do povo.

Por isso, concluo meu relato com um poema que virou música e canto e dança de resistência naquela época. Agora precisa ser resgatado, entoado e gritado aos quatro cantos, porque o tempo exige isso. É do amazonense Thiago de Melo:

Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.

O presente evoca o passado. E o futuro é logo ali. A manhã vai chegar. Eu sei! Agora está escuro, ouve-se um rumor, um choro, um medo que tenta nos paralisar, um lamento. Mas a manhã vai chegar. E com ela o sol de um novo dia, cujo clarão cegará a injustiça e queimará a desonra, a desfaçatez, o hediondo e todas as mentiras construídas para parecerem verdade. E nesse dia, aqueles que estão criminalizando a luta do povo hão de prestar contas, haverão de ser envergonhados pela afronta de se assumir saudosos do tempo de dor, genocídio, escravidão e desigualdade.

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