3
Compartilhamentos
Redefinição de Impressão Google+

Contadores de diferentes culturas se unem para celebrar as tradições orais de seus países na 8ª edição do “Boca do Céu – Encontro Internacional de Contadores de Histórias”, que ocorre de 22 a 26 de maio na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Sesc Bom Retiro, no Auditório Ibirapuera, nas Fábricas de Cultura, na Cinemateca Brasileira e no Itaú Cultural, todos na capital paulista. A programação do evento tem cerca de 100 atividades gratuitas, entre espetáculos, oficinas, rodas de conversas e intervenções artísticas.

Com o objetivo de propiciar ao público diferentes formas de contato com a arte da narração oral, a programação está dividida em oito eixos temáticos, que refletem diferentes “urgências poéticas”. São eles: Percurso – processos de criação de contadores de histórias; Urgências poéticas em diferentes escutas: questões de acessibilidade; Urgências de encontros – festivais de contadores de histórias no Brasil; Urgências de pertencimento: raízes ameríndias na alma brasileira, Multiplicidade cultural – vozes de outros povos e Raízes africanas na alma brasileira e Urgências poéticas na Educação.

“O Encontro é estruturado a partir da Abordagem Triangular para o Ensino e Aprendizagem da Arte elaborada por Ana Mae Barbosa. Isso significa, antes de mais nada, que a Arte Narrativa é considerada como fenômeno das culturas humanas que ocupa um lugar ao lado das Artes Visuais, Teatro, Música, Dança e artes midiáticas e multilinguísticas contemporâneas”, comenta a curadora Regina Machado.

Criado em 2001, o Boca do Céu é considerado o maior encontro de contadores de histórias do Brasil. A última edição do evento bienal, que ocorreu em 2016, ofereceu atividades com mais de 80 artistas nacionais e 9 contadores estrangeiros, e recebeu 10,3 mil pessoas ao longo de oito dias de programação.

Destaques da programação

Para trazer à tona todos esses temas, o Encontro fomenta uma pluralidade de vozes de sete países. Os convidados internacionais são Nacer Khémir (Tunísia), Charlotte Alston (Estados Unidos), Ana Sofia Paiva (Portugal), Mercedes Carrión (Peru), Malika Halbaoui (Marrocos) e Pépito Matéo (França). Já o time de artistas brasileiros é formado por André Gravatá, Cristino Wapichana, Daniel D’Andrea, Eric Chartiot, Marcus Borja, Marcelo D’Salete, Rosana Reátegui, Teatro Griô, Tião Carvalho, Vinícius Mazzon e muitos outros.

Um dos destaques da programação são as Noites de contos, que ocorrem no Sesc Bom Retiro, durante as quais artistas nacionais selecionados por meio de um edital e os narradores estrangeiros se apresentam para pessoas de todas as idades. Na terça-feira, 22 de maio, a estadunidense Charlotte Alston conta histórias tradicionais e contemporâneas africanas enquanto toca instrumentos como djembe, mbira, shekere ou a kora de 21 cordas. Já a portuguesa Ana Sofia Paiva narra histórias de dentro e fora de sua terra-natal, centrando-se na musicalidade da performance oral.

Boca do Céu 2016. Foto: divulgação

Na noite da quarta, 23 de maio, as atrações principais são a peruana Mercedes Carrión, uma das narradoras com mais tradição na cena oral, e o francês Pépito Matéo, um dos mais representativos contadores da França, ator e estudioso da Arte da Palavra, que constrói narrativas incluindo contos tradicionais e criando ambientes como um pronto-socorro ou uma prisão, falando de temas como a morte e a velhice.

A contadora-cantadeira, poeta slam e letrista de canções Malika Halbaoui, nascida no Marrocos, usa corpo e voz no espetáculo da quinta-feira, 24 de maio. O segundo convidado principal da noite é o contador, diretor de cinema e escritor Nacer Khémir, que apresenta as histórias contadas por sua mãe na infância e a cultura de seu país. Ele também é homenageado com uma mostra de seus filmes, que ocorre na Cinemateca Brasileira, de quarta-feira a domingo. No dia 27, Nacer participa de um debate sobre sua obra.

Outra atividade do encontro é a oficina Despertar através da cultura popular, em que o mestre maranhense Tião Carvalho ensina ao público uma série de danças populares, como ciranda de roda, bumba-meu-boi, tambor-de-crioula e maculelê. O minicurso, que não demanda inscrições prévias, acontece durante todos os dias na Oficina Cultural Oswald de Andrade, às 8h.

A Oswald de Andrade também recebe, na quinta, 24 de maio, a tarde Danças, cantos e contos de culturas do mundo, em que grupos de várias nacionalidades são convidados para compartilhar suas histórias e ensinar danças e cantos tradicionais, sempre com foco na narrativa. Ao longo da semana, o espaço também sedia Rodas de conversa sobre os temas trazidos pela atual edição do evento. Dois convidados especiais para esses debates são o quadrinista e professor Marcelo D’Salete (autor do livro em quadrinhos Angola Janga) e o premiado escritor Cristino Wapichana, que desenvolve atividades e vivências culturais, educativas e recreativas sobre a cultura indígena.

Cristino Wapichana. Foto: Pedro Napolitano Prata

Famílias e crianças têm espaço especial na programação. No sábado, 26 de maio, o Sesc Bom Retiro recebe Minha aldeia, do grupo Teatro Griô (Salvador/BA). Para aquecer os ouvidos do público infantil, a Trupe Alumiada (Campinas/SP) e a contadora Tâmara Bezerra (Fortaleza/CE) contam suas histórias antes do espetáculo.

O tema da acessibilidade na arte é uma grande preocupação do encontro. Na quarta-feira, 23 de maio, a Oficina Cultural Oswald de Andrade recebe o Questões de acessibilidade, três rodas de conversa, com participação do Grupo Mãos de Fada, Carla Mauch, coordenadora da ONG + Diferenças, Bruno Ramos, Thalita Passos e Patrícia Torres. Essa série de bate-papos e as sessões das Noites de contos no Sesc Bom Retiro terão tradução simultânea em Libras – Linguagem Brasileira de Sinais.

Celebrando o encerramento de mais uma edição do Boca do Céu, na sexta-feira, 25 de maio, o Auditório Ibirapuera recebe o espetáculo inédito Todo nó cego eu desato, preparado especialmente para o Encontro. O espetáculo reúne artistas convidados, músicos e contadores de histórias, além das crianças da Oca Escola Cultural, de Carapicuíba, com seus tambores e a narração de um romance da cultura popular brasileira.

Sobre os convidados internacionais

Ana Sofia Paiva (Portugal)

Nascida em Lisboa, em 1981, Ana Sofia Paiva é formada pela Escola Superior de Teatro e Cinema e especializada em Promoção e Mediação da Leitura pela Universidade do Algarve. Paralelamente ao trabalho como atriz, dedica-se, desde 2007, à narração de contos, dentro e fora de Portugal. É membro do Instituto de Estudos de Literatura e Tradições da Universidade Nova de Lisboa e da cooperativa Memória Imaterial, onde trabalha como pesquisadora, coletando e transcrevendo folclore poético e narrativo.

Ana Sofia. Foto: Mariana Otero

Charlotte Alston (Estados Unidos)

Charlotte Blake Alston sopra vida nas histórias tradicionais e contemporâneas africanas e afro-americanas. Suas apresentações solo costumam ser acompanhadas por instrumentos tradicionais como djembe, mbira, shekere ou kora de 21 cordas. Em 1999, Charlotte começou a estudar a kora e as tradições da arte de contar histórias da África Ocidental. Tem se apresentado em diversos lugares da América do Norte e do mundo, como o John F. Kennedy Center for the Performing Arts, o Kimmel Center, o Festival Women of the World na Cidade do Cabo, na África do Sul, prisões, centros de detenção e um campo de refugiados no norte do Senegal.

Charlotte Alston. Foto: Deborah Boardman

Charlotte tem levado suas histórias e canções para festivais nacionais e regionais, escolas, universidades, museus, bibliotecas e centros de artes por todos os Estados Unidos e Canadá, assim como para rádio e televisão nacionais. Atua também como contadora de histórias junto a várias orquestras, como a Philadelphia Orchestra. Ela foi uma das quatro americanas selecionadas para se apresentar na primeira International Storytelling Field Conference em Gana, e foi artista de destaque no Segundo Festival Internacional da Cidade do Cabo, na África do Sul. Recebeu o Zora Neale Hurston Award, o prêmio mais importante conferido pela National Association of Black Storytellers.

Malika Halbaoui (Marrocos / França)

Contadora-cantadeira de histórias há mais de 24 anos, poeta slam e letrista de canções, Malika Halbaoui nasceu no Marrocos de um pai imerso na tradição oral berbere. Dessa fonte, ela bebeu desde a infância os cantos, as poesias e a palavra entoada que aparecia tradicionalmente com gestos costumeiros durante tarefas particulares como nas festas, na tecelagem e nas colheitas. Foram necessários muitos anos para que ela inventariasse essa herança e a conjugasse com a língua do país onde vive, a França. Trabalho que só foi possível graças ao conto.

Malika Halbaoui. Foto: Eric Chiclet

A dimensão poética ganha cada vez mais espaço em seu trabalho com o conto. Malika tem diversos livros publicados envolvendo coletas de poemas e contos tradicionais berbere. Tendo contado em mais de 480 creches, ela considera os bebês e as crianças a sua grande escola como contadora de histórias – seu verdadeiro diapasão para a palavra justa, bem dita. É a esses pequenos que ela agradece os frutos que colhe como contadora de histórias, assim como o despertar do seu gosto pela escrita de canções.

Mercedes Carrión (Peru / Espanha)

Mercedes Carrión nasceu em Lima, no Peru, e atualmente vive em Madri, na Espanha. Há mais de 45 anos dedica-se às artes cênicas, e mais recentemente também à literatura. É membro-fundadora da Associação Madrilena de Tradição Oral (MANO). Em 1987, recebeu o primeiro prêmio de Magia Feminina no Congresso de Magia em Lisboa, Portugal. Em 1988, foi a primeira mulher honrada com o prêmio García Cabrezizo de Magia Cômica, da SEI (Sociedade Espanhola de Ilusionismo).

Em 1995, recebeu o Prêmio Chaman de Narração Oral, com seu grupo Cuantocuento, no Centro Cultural de la Villa, em Madri. Em 2009, recebeu o Prêmio Magia Estudio, do Memorial Ascanio, em Madri, e, em 2010, uma Menção Honrosa como autora do poema do álbum ilustrado “Nana de las Niñas de mis Ojos”, da Biblioteca Del Cabildo de Gran Canaria.

Mercedes Carrion. Foto: divulgação

Há 25 anos, junto com o Cuantocuento, programa as sessões de contos do Café Libertad 8 de Madri. Desde 1989, conta histórias em festivais e eventos nacionais e internacionais, em países como França, Hungria, Irlanda, Peru, Portugal, Estados Unidos e Venezuela. Na Espanha, realiza há 15 anos a programação semanal La hora Del cuento e Déjame que te cuente nas três bibliotecas de Coslada, em Madri.

Nacer Khémir (Tunísia/ França)

Contador, escritor, ilustrador, escultor, calígrafo e diretor de cinema, Nacer Khémir nasceu em Korba, na Tunísia, onde cresceu escutando as histórias contadas por sua mãe. Depois de se graduar em cinema em Paris, volta para a Tunísia para seguir os passos dos contadores da medina de Tunis, fonte de inspiração de seus quatro primeiros filmes. De retorno à França, publica um “conto caligráfico” e participa do movimento conhecido como “renouveau du conto” (renascimento da arte de contar histórias), principalmente ministrando oficinas de formação de contadores. Em 1982 e 1988, Nacer Khémir conta As mil e uma noites durante 25 noites seguidas – uma história por noite – no Teatro Nacional de Chaillot, na França. Sua filmografia reúne mais de 15 títulos, entre longas, médias e curtas metragens, que receberam diversos prêmios. Restaurado pela Cinemateca da Bélgica, seu filme Les baliseurs du désert (Andarilho do deserto), de 1984, foi selecionado para participar da Mostra Veneza Clássico 2017 do Festival de Veneza.

Pépito Matéo (França)

Contador, ator e formador de contadores, Pépito Matéo escreve e atua há mais de 30 anos. Graduado em teatro, tornou-se contador de histórias criadas por ele próprio, de contos adaptados livremente, ou a partir de coletas de narrações, que inspiraram os espetáculos sobre hospitais Urgences (Pronto-Socorro), Paroles sur les prisons (Palavras sobre as prisões) e Dernier rappel (Última chamada), sobre a morte e a velhice.

Pepito Mateo. Foto: divulgação

Pépito Matéo participa de todos os grandes encontros da arte da palavra na França e na Espanha e publica artigos, obras teóricas, narrações de espetáculos e livros de contos. Também oferece oficinas de formação sobre a arte da palavra, conferências e encontros em torno da escrita do texto oral. Ele também cria espetáculos originais que apresenta em teatros, centros culturais, festivais, e participa de criações com outros artistas (música e canto, circo, dança, improvisações etc.).

Serviço

Evento: Boca do Céu  – Encontro Internacional de Contadores de Histórias

Data : de 22 a 26 de maio

Classificação: Livre

Ingressos: grátis (sujeito à lotação dos espaços)

Oficina Cultural Oswald de Andrade – Oficinas, rodas de conversa, rodas de histórias, espetáculos de narração. Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro. Telefone: (11) 3222-2662. Tem acessibilidade.

****
Sesc Bom Retiro – Noite de Contos
Alameda Northmann, 185 – Bom Retiro. Telefone: (11) 3332-3600. Bilheteria aberta com uma hora de antecedência. Tem acessibilidade. Capacidade: 291 lugares

Dia 22 de maio, às 20h – Charlotte Alston (Estados Unidos) e Ana Sofia Paiva (Portugal)

Dia 23 de maio, às 20h – Mercedes Carrión (Perú/Espanha) e Pépito Matéo (França)

Dia 24 de maio, às 20h – Malika Halbaoui (Marrocos/França) e Nacer Khémir (Tunísia/França)
Abertura às 19h com contadores nacionais

Dia 26 de maio – Contadores Selecionado via Edital:

Trupe Alumiada (Campinas/SP), às 11h

Tâmara Bezerra (Fortaleza/CE), às 11h30

Espetáculo de Narração para Crianças e Famílias. Teatro Griô (Salvador/BA) – Espetáculo Minha Aldeia, às 12h

****
Auditório Ibirapuera – Todo nó cego eu desato. Dia 25 de maio, às 20h. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº – Parque do Ibirapuera. Telefone: (11) 3629-1075. Bilheteria aberta com uma hora de antecedência. Tem acessibilidade. Capacidade: 806 lugares

****
Cinemateca Brasileira – Mostra de cinema Nacer Khémir. De 24 a 26 de maio, às 19h e 21h e 27 de maio, às 16h, 18h e 20h. Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino. Bilheteria aberta com uma hora de antecedência. Tem acessibilidade. Capacidade: 210 lugares. Programação completa: www.cinemateca.gov.br

Informações:

Site – www.bocadoceu.com.br

Cursos online de qualificação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Acesse!

Comentários

Comentários

Postagem anterior

13 de maio: lembrar sim, comemorar jamais

Próximo post

Biblioteca-Parque do Estado reabre em meio à programação do Salão Carioca do Livro