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Embora ainda não se possa afirmar com exatidão o tamanho dos estragos causados pelo incêndio que destruiu o Museu Nacional (MN), instituição ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na noite deste domingo (2), é quase certo que dois arquivos e uma biblioteca foram completamente destruídos pelo fogo.

A Seção de Memória e Arquivo do Museu Nacional/UFRJ (SEMEAR) possuía um acervo de documentos que registravam os primórdios do trabalho científico no Brasil e as alterações ocorridas no cenário internacional das ciências. Além disso, ele custodiava também diversos arquivos privados pessoais, de cientistas e professores.

O objetivo da Seção era o de proporcionar a recuperação e disseminação das informações contidas na documentação arquivística e garantir a sua integridade física, subsidiando o desenvolvimento de pesquisas sobre a história do Museu Nacional/UFRJ e do Palácio Imperial e, principalmente, sobre a institucionalização das ciências no Brasil.

A vista dos fundos do Museu Nacional deixa bem claro o tamenho do estrago causado pelo incêndio. Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo

Sua origem remonta à implementação, na década de 1990, do Projeto Memória do Museu Nacional/UFRJ, que possibilitou, a partir de 1994, a informatização do catálogo já existente e a higienização, identificação e acondicionamento primário dos documentos do século XIX, projetos financiados pela Fundação Vitae e pela FAPERJ.

Um convênio com o Arquivo Nacional trouxe para o Museu uma nova abordagem técnica para o processamento da documentação (a Descrição Multinível Integrada – DMI), bem como o uso de seu sistema informatizado (SIAN). A ideia era o de que num futuro próximo os dados referentes ao acervo estivessem disponíveis na base Minerva, que é o catalogo bibliográfico online da UFRJ.

Entre os documento que faziam parte do SEMEAR, e que agora podem estar destruídos, está o original do decreto de criação da Biblioteca do Museu (decreto de 11 de julho de 1863), assinado pelo então ministro do Império, Manuel de Araújo Lima, o Marquês de Olinda.

“Pouco a pouco o Arquivo vem se constituindo em um dos principais pólos de pesquisa e acesso a informações sobre o Museu Nacional/UFRJ e seu corpo científico, ganhando a confiança do público interno e externo e tendo seu acervo como base para a produção de dissertações e teses”, diz o site da instituição.

Outro importante instrumento que também deve ter sucumbido por completo às chamas é o Centro de Documentação de Línguas Indígenas (CELIN). Criado formalmente em 2004, o CELIN, que era vinculado ao Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ (SIBI), era um Centro especializado em línguas indígenas e variedades do português do Brasil, sendo seu acervo composto de materiais textuais, sonoros e visuais.

Uma das laterais do Museu mostra bem o abandono no qual a instituição estava submetida. Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo

No âmbito dos materiais textuais, o CELIN possui também um acervo bibliográfico associado, principalmente em teoria linguística, educação indígena, antropologia, arqueologia, literatura e filosofia, sendo que grande parte deste acervo já se encontrava disponível para consultas no catálogo online da Universidade.

O Acervo Documental era constituído por numerosos documentos, em sua maioria relativos a dados primários e resultados de pesquisas sobre línguas indígenas das terras baixas da América do Sul (vocabulários, formulários, análises fonológicas e gramaticais). Esses documentos, que permitem um primeiro acesso de pesquisadores e alunos de pós-graduação a dados sobre línguas indígenas sul-americanas, em especial aquelas localizadas no Brasil, cobriam um conjunto amplo de línguas pertencentes a diferentes famílias e troncos linguísticos.

O Acervo Sonoro, por sua vez, abrigava fitas cassete, fitas de rolo e discos, além de CDs, material esse que, também relativo a línguas indígenas, permitia acesso direto de pesquisadores a dados primários dessas línguas. As fitas alcançavam número expressivo, incluindo discursos narrativos, cantos, parte sonora de vocabulários e formulários referentes a línguas indígenas e, ainda, material sonoro correspondente a português de contato.

No que se refere aos Arquivo Visual, este era constituído, majoritariamente, por materiais fotográficos (com negativos flexíveis e negativos em vidro) voltados para grupos indígenas brasileiros. Mais recentemente, houve a incorporação de vídeos/filmes. Estima-se que tudo tenha se perdido.

Interior da Biblioteca Francisca Keller, que também foi destruída pelo fogo. Foto: divulgação

Outro importante instrumento cultural do Museu que deve ter sido destruído por completo foi a Biblioteca Francisca Keller, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS). A Biblioteca contava com mais de 37 mil volumes, entre obras de referência, livros, periódicos, teses, dissertações, entre outros materiais. Como se tratava de uma biblioteca que não contava com obras raras, já se iniciou na UFRJ um movimento para recriá-la.

“A única biblioteca que pode ser recriada, embora diferente da original, é a biblioteca da Antropologia. Então nossos primeiros passos serão na direção de criar uma nova coleção. As bibliotecas da UFRJ que tiverem exemplares de livros que também estavam naquela coleção, devem verificar a possibilidade de doação”, disse Paula Mello, que é coordenadora do Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ.

“Também estamos buscando imagens digitalizadas de documentos pertencentes a essas unidades de informação, que foram utilizados por pesquisadores nacionais ou internacionais. Se souberem de alguém que se encaixe nesse perfil, por favor tentem resgatar alguma coisa. Podem utilizar a rede de seus usuários solicitando isso”, apelou a bibliotecária que, assim como muitos servidores da UFRJ, estava muito emocionada.

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