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Aproximadamente quando o terceiro cachorro late, eu acordo de um sono vazio, sem sonhos ou pesadelos, e coloco os dois pés bem firmes no chão. Olho para o lado e vejo minha esposa dormir. Melhor assim. Nos últimos meses, ela tem entrado em constante estado de tédio. Um desânimo sobrenatural parece assombrá-la nas horas mais atribuladas do dia. Pobre mulher! Desejou uma cidade e uma vida que não consegue suportar.

O céu está escuro e a rua sem qualquer movimento. Posso apostar que até as almas penadas desistiram de passar por aqui. Levanto da cama tentando não fazer barulho – tarefa difícil, pois o colchão range como o grito de alguém que se joga de uma ponte – e vou direto para o banheiro. O som violento dos primeiros veículos entra pela janela. Escapamentos quebrados e roncos de motocicletas também fazem parte do coro.

Tomo uma ducha fria enquanto sinto o cheiro miasmático da rua. Há uma casa na esquina repleta de gatos – contam as línguas da região que uns cem gatos dividem cinquenta metros quadrados – e, vez por outra, o fedor parece vir de lá. O esgoto da rua também colabora para a decrepitude. Todos os dias, o portão da vila está repleto de sacolas abertas, garrafas de cerveja e lixos diversos. É apenas a rotina.

Coloco duas colheres de café instantâneo no copo enquanto ouço música alta vinda de algum ponto do bairro. Um grupo de rapazes passou a madrugada assim, tentando fugir da vida por meio da música. Todos da rua estão muito incomodados; eu tento entender. Tomo a bebida quente enquanto engulo o pão francês de quinze reais, o quilo. Visto a roupa e deixo minha casa, cujo aluguel é quase metade do meu salário. Tenho algumas economias, mas logo elas irão voar para longe também.

Apressadamente, caminho até o ponto de ônibus. Nenhuma loja está aberta. Dois ou três sujeitos mal encarados correm em direção oposta. Peço a Deus que me poupem hoje – semana passada, levaram o meu celular, a carteira e a medalha de São Bento. Felizmente, passo invisível. E agora já sei a razão: eles estão fugindo da polícia. A viatura passa acelerada e um dos policiais grita do passageiro:

– Para onde eles foram?

Eu aponto uma direção qualquer – confesso que nem reparei em nada – e os policiais seguem. Torço para que seja a certa, caso contrário… O ônibus chega. Rostos exaustos, bocejos incontidos e necessidade. Dentro desse ônibus, somos todos guiados pela necessidade de sobrevivência. Trinta minutos depois, entro no escritório de advocacia. Trabalho como secretário aqui. Os advogados de panças enormes e ternos desalinhados chegarão às dez da manhã. Os estagiários às oito. Os bajuladores chegaram antes das nove horas e nós, os braçais, chegamos às seis.

As horas vão se arrastando – pavorosas horas – enquanto o trabalho continua. Barulho fino de impressoras e máquinas de xerox, passos apressados de um lado para o outro, o toque lancinante do telefone – ele nunca interrompe – e papéis… Muitos papéis. Eles estão por todos os lados, enterrando corpos inteiros debaixo de avalanches.

Perto da hora do almoço, que vai ser o mesmo PF de treze e cinquenta com direito a um refresco de maracujá ou guaraná, vou ao banheiro do escritório. Na sala do café, seis advogados do time dos bajuladores trocam ideias sobre como aumentar a produtividade dos funcionários terceirizados.

– Que tal o aumento da carga de horário? -, diz o calvo.

– Assim podem reclamar. Melhor fazer um turno no final de semana. Ter o sábado todo livre é desperdício -, retruca o gordo.

Outras vozes se juntam para definir a produtividade e a vida de quem atua na bancada. Afinal de contas, “produtividade, vestir a camisa e amar o seu trabalho” é um slogan de poucos beneficiários reais.

Saio do banheiro e quase fecho o meu ponto quando escuto a voz do velho rabugento me chamar. Ele grita da sala um “Carmelo” bem seco quando, na verdade, meu nome é Camilo. Claro que o velhote fumarento nunca se deu o trabalho de aprender.

– Antes de sair para o seu horário de almoço, digita isso aqui com urgência! -, cuspiu sem olhar para mim. Na mesa, dez ou quinze páginas de papel amarelado. Demoro quase uma hora para sair e tenho meu horário de almoço reduzido. Nem consegui ver a frigideira de teflon que minha mulher pediu – provavelmente, haverá uma briga épica mais tarde.

Termino o expediente quase às seis e meia da tarde e caminho em direção ao ponto de ônibus. Um engarrafamento gigantesco e um acidente bloqueiam a via. Mais uma vez, precisarei pegar duas conduções para chegar em casa. Impossível encontrar um ônibus direto nesse trecho.

Condução lotada. Em pé, agarrado em um dos ferros e espremido por mais outros pobres-diabos como eu, lembro da conversa que tive com meu amigo Alfredo. Ele reclamava da situação do transporte público na cidade e de todos os perrengues vergonhosos que passamos. Antes de piscar os olhos, desço no ponto e espero o próximo coletivo. Muita gente, bagunça sem fim, empurra-empurra e algazarra. No trânsito, homens bem vestidos mantêm a cabeça baixa, conferindo seus celulares pela milionésima vez. Eles estão em carros blindados e com ar-condicionado. Nós estamos aqui, no meio do caos.

Quase vinte minutos depois, o ônibus que, muito provavelmente – porque sempre há riscos -, vai me levar para casa desponta no horizonte de carros. Subo, sou entubado dentro do ônibus e vou me segurando entre gritos e suores até o ponto perto de casa. Quase duas horas de sufoco para chegar no portão da vila. Ouço uma voz desesperada gritando com outro alguém que já deve estar de saco cheio:

– EU PEDI UM SANDUÍCHE COM BACON E VOCÊS ENVIARAM TOMATE! TOMATE NO LUGAR DE BACON! EU QUERO BAAAAAAACON!

Respiro fundo e entro em casa. O prato com a janta fria espera na mesa. Minha mulher está assistindo uma novela qualquer na televisão e solta um “boa noite” nada convincente. Nos últimos tempos, ela não fixa o olhar em mim. Vou para o banheiro lavar o rosto e escuto o som da privada do vizinho. Também ouço o barulho de tiros. De longe, eles parecem gritar:

– Que vida abençoada!

Mas o que eu realmente escuto é:

– Nada mole, hein? Que bênção ácida!

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