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Divido meus dias entre a biblioteca de uma conhecida e badalada universidade carioca, localizada na zona sul da cidade e as obrigações profissionais e domésticas da minha vida privada. De ônibus ou metrô, o trânsito até lá não muda: a demora intensa se transforma em angústia quando os ponteiros do relógio contabilizam mais um atraso.

Pessoas estressadas passam pela catraca do ônibus sem olhar para os lados; corpos projetam-se com total desespero para dentro do coletivo, mesmo que as portas de acesso estejam em processo de abertura. Para confrontar a lerdeza do transporte, a vida passa em velocidade meteórica e quase ninguém vê.

A palavra “quase” vem coroar uma noite de agosto de 2015, especificamente uma turbulenta sexta-feira. A fadiga expressa e o mau humor indisfarçável carregavam os passageiros da linha 439 (Vila Isabel – Leblon). O motorista seguia freando minuto sim, minuto não, tornando a viagem de volta para casa em um retorno ao tempo em que carruagens, cavalos e carroças eram as únicas opções disponíveis. Dentro do estômago da condução, braços de todos os tamanhos e cores espremiam-se entre as cabeças recostadas – e como eram felizardas por estarem reclinadas em assentos duros!

Naquela sexta-feira, eu era uma dessas felizardas. Depois de duas matérias, um copidesque e mais algumas listas de questões finalizadas, eu finalmente poderia voltar para casa. Nem a estafa mental seria capaz de tirar meu ânimo: finalmente, eu tinha concluído todas as atividades que me foram confiadas. O trote do ônibus provocava sacolejos semelhantes a espasmos, aniquilando o resto de paciência de cidadãos exaustos.

Plásticos de balas e salgadinhos disputavam com vozes escandalosas a trilha sonora do ônibus; pessoas indiferentes ao mundo ouviam suas músicas preferidas com o auxílio de fones de ouvidos; tosses e espirros eram ouvidos por todos os cantos. Uma adolescente perdeu o equilíbrio entre uma rua e outra e deixou sua espiga de milho cozido rolar pelo chão – não sem antes praguejar por minutos seguidos. Todos os rostos e ações seguiam o curso normal de mais uma semana arrastada, até que ele entrou. Sua cabeça despontou dentro do veículo na parada situada antes do Jardim Botânico. Esticando os braços finos, ele pagou o cobrador e entrou carregando um livro.

Por um segundo perdido no infinito, cruzamos nossos olhos. Foi o suficiente para que eu notasse os símbolos tatuados na parte interior do braço direito: triângulos, círculos e frases em latim dividiam espaço na pele morena. O cabelo curto deixava à mostra uma imensa cicatriz no pescoço. De calça jeans e camiseta branca, ele não aparentava ter mais do que trinta anos. Apertava entre os dedos o livro de capa azul. Praticando a técnica do soslaio, consegui visualizar “Não leia este livro à noite” na parte de trás. No meio de tantas cabeças esgotadas, aquele olhar vivo, enigmático e silencioso chamou minha atenção. A rotina cava espaços inexplicáveis em nossa percepção. Precisamos estar aptos a captar esses pequenos sopros. E foi exatamente o que eu fiz.

Esperei que ele atravessasse quase todo o ônibus e finca-se estadia perto do meu assento. Quando notei que seus dedos equilibravam o livro de capa azul e o próprio peso do corpo, perguntei em tom amável se ele gostaria de ajuda. “Posso segurar para você”, lembro de ouvir minha voz repetir. “Eu agradeceria”, foi o que o ouvi dizer. E assim transcorremos todo o percurso da viagem. Nenhuma outra palavra foi dita, mas permanecemos ligados pelo livro.

A pele dos nossos dedos passeou pela capa; em momentos distintos, nossos olhos encontraram as mesmas palavras e passearam pelo relevo dourado que cobria o título. Em um dos galopes acelerados do ônibus, senti o corpo dele tentando manter o equilíbrio e aproximando o cotovelo da parte de trás do meu assento. Os barulhos continuavam a todo vapor; a fuligem impregnava os vidros das janelas e as lentes dos óculos.

Antes de atravessar o túnel Rebouças, um dos bancos à esquerda ficou vazio e tratei de desocupar o meu para ceder ao dono do livro. Por outro rápido instante, nossos olhares encontraram o mesmo ponto. Entreguei o objeto de capa azul que compartilhamos naquele trajeto e ouvi um quase inaudível “muito obrigado”.

Ele saltou na Praça da Bandeira, carregando o livro debaixo do braço. Nosso contato se dissipou no exato momento em que aquele jovem colocou os pés para fora do ônibus. Pouco mais de cinco minutos depois, ouço o sussurro alto de duas senhoras no banco da frente. Espantosamente, elas falavam do mesmo homem que chamou minha atenção.

– Sim, é ele. Eu estou te dizendo, é o filho da Z*. Depois que a esposa morreu, ele ficou assim… Doido de pedra.

– Não sei como ele aguenta enfrentar esse trânsito todo dia!

– Pois é. Depois do acidente, ele deixou de trabalhar, de fazer tudo… Deixou de viver. Então, pega o ônibus todos os dias no mesmo ponto e vai ao Jardim Botânico para ler. Aquela mulher lá da cantina do hospital que conhece a mãe dele disse que algum conhecido viu esse rapaz sentado no banco, bem perto daquela fileira de árvores, lendo sem parar. Ele foi e voltou, e esse filho da Z* continuou por lá… Simplesmente lendo.

– Tá doido mesmo, hein? Que perca de tempo. Tem que se recuperar e pegar no batente…

Nesse ponto, deixei de prestar atenção às palavras soltas no ar. Concentrei meus pensamentos nos dedos macios que apertavam o livro de capa azul. Dedos que falam por um homem que aprendeu a abafar a solidão no meio do vai e vem cotidiano. Alguém que vive. Alguém que respira. Alguém que funde a própria existência com as eternas palavras de um livro.

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