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Os lamentos são antigos: há muito tempo, os fãs de histórias de terror sobrenatural – daquele tipo que prioriza a boa escrita e o enredo bem pontuado – estão se alimentando do passado. Desde o final dos anos 1990, não há nada de verdadeiramente empolgante nas narrativas de horror (com exceção do sueco Let the Right One In – “Deixa ela entrar” na versão brasileira, de 2008).

As produções do gênero seguem apelando para remakes mal feitos ou focando na saga de adolescentes que lutam contra demônios e possuídos. Essa turma hollywoodiana, é claro, ostenta o melhor estilo High School Music. Há ainda as carnificinas sangrentas e desnecessárias, sem enredo ou gatilhos. Tudo isso vai se arrastando ano após ano, seja na literatura, no cinema ou nas séries de televisão.

As águas estavam paradas até o lançamento de “A Maldição da Residência Hill” (The Haunting of Hill House – 2018), série de terror que estreou na Netflix em outubro. Dirigida e criada por Mike Flanagan, conhecido por seus filmes de terror e seu fascínio por fantasmas (Absentia, Hush: A Morte Ouve, O Espelho, Ouija 2), a primeira temporada tem conquistado sucesso absoluto entre crítica e público.

A série é baseada no livro “A Assombração da Casa da Colina” (1959), escrito pela norte-americana Shirley Jackson (1916 – 1965), obra que recebeu elogios de críticos mordazes e exigentes como Harold Bloom e inspirou escritores do calibre de Stephen King.

Na adaptação feita por Mike Flanagan, todo o horror começa com uma mudança entusiasmada e cheia de esperanças realizada pela família Crain para uma mansão antiga e isolada. Tudo indicava que o verão de 1992 seria habitual e trabalhoso para Olivia e Hugh. Acompanhados de seus cinco filhos (Steven, Shirley, Theo, Luke e Nell), o casal se muda para a mansão Hill na expectativa de reformá-la e vendê-la. O que eles não faziam ideia era de que aquela casa antiga era a guardiã (e a devoradora) de muitos segredos macabros.

O que era para ser uma passagem temporária, transformou-se em uma catástrofe familiar. A alegria dos Crain é pouco a pouco canibalizada por problemas, lapsos de insanidade, visões fantasmagóricas, medo, desunião e dor. Assombrações medonhas começam a atacar os gêmeos caçulas Luke e Nell, e entram na cabeça de Olivia, a bela e sensitiva mãe. Uma tragédia põe fim ao núcleo familiar e, vinte e seis anos depois, continua perseguindo os sobreviventes.

Em dez episódios, conheçamos a versão de cada um dos Crain e penetramos em seus conflitos, segredos e medos. A mansão Hill tornou-se um elemento macabro de separação e união. Todas as pontas soltas, ignoradas por quase três décadas, começam a indicar um labirinto. Mas o preço de saber a verdade é alto.

Cada um dos filhos do casal Crain representa um nó na complexidade das relações, que transitam entre negação, raiva, culpa camuflada, depressão e resignação inoperante. Olivia e Hugh, que podem ser entendidos como gatilhos para que esses conflitos aflorem, usam as máscaras que o amor às vezes impõe.

Os efeitos especiais da série conseguem prender a atenção do espectador por trazerem de volta o “horror primário” (ex-habitantes da casa – agora espectros – que vivem presos em suas culpas) e a edição é primorosa, priorizando o efeito flashback constante e exigindo a atenção plena para que não se possa perder nenhuma peça do quebra-cabeça. Há também a presença oportuna do plot twist (mudança radical e abrupta na direção esperada do enredo), ampliando ainda mais o fascínio natural que a série exala.

A sintonia entre o elenco é tão bem encaixada – tanto na primeira fase (infantil) quanto na segunda (adulta) – que, por muitas vezes, é possível esquecer que se trata de um programa de ficção e pensar que se está assistindo a um documentário ou reality show.

Apesar de possuírem o velho aspecto lodoso, os fantasmas da residência Hill têm ‘feeling’ próprio e a casa se mexe e range tal qual o casarão que fica na misteriosa propriedade de Bly, descrita por Henry James na clássica novela “A outra volta do parafuso” (1898).

Com pontuação acima de 90% nos principais indicadores e agregadores de crítica e opinião pública, “A Maldição da Residência Hill” dá novo fôlego para os apaixonados pelo gênero. Quando você está quase fechando o portão das expectativas, eis que surge uma voz indecifrável lá no final do túnel que diz: “Ainda tem gente aqui”. Tremendo e feliz, você deixa o portão aberto.

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