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Há lugares que nascem para ser passagem, surgem para ser espanto, são erguidos para mapear transgressões. Há lugares que são mais que habitats, abrigo ou permanência.

Há lugares que nasceram para atravessar os que neles, e por eles, atravessam. Isso é um paradoxo, porque foram erguidos para a impermanência. Eles têm suas marcas cruéis, despóticas, ensimesmadas, quando deveriam ser maleáveis e quase incorpóreos. E parecem mesmo cheios de defeitos e rachaduras.

Mas há brechas.

E é por elas que os inconformados atuam.

Há lugares que têm muros, mas é como se não os tivessem. As pessoas ali é que, às vezes, se acham muros intransponíveis. Apenas esquecem que esses lugares foram feitos para o transitório. Que tudo o que respira aí, cedo ou tarde, vai embora. Em boa ou má hora. Ai daquele que chegou e se acomodou até ser jubilado. Que palavra bonita! Que recheio tão cruel! Ai dos senhores que pensam que adquiriram um pedacinho desse latifúndio para si, para os seus.

Há lugares que nascem e não têm, nem nunca terão, dono. Lugares de passagem, para passageiros, para transeuntes, para viajantes, para turistas.

Esses lugares têm a dureza do concreto por dentro e por fora, espinha dorsal de cimento, de ferro. São rígidos como o aço que os sustenta. Talvez por isso as pessoas que aí passam ficam ferruginosas e ásperas. Sei lá. Talvez a aspereza venha da fundação, de se reconhecer como coisa a serviço de si, não gente em serviço. Ou do seu aspecto quadrado, retangular (nunca circular e curvilíneo). Por que insistem em erguer prédios assim tão… tão… quadrados? Gostaria tanto de que esses edifícios tivessem o desenho do cérebro, as curvas do coração, as labirínticas dobras do intestino. Mas não. São quadrados. Como caixas. Prefiro pensar que são contêineres viajantes, então.

Há muita confusão, nesses lugares, com essa coisa que se chama pertencimento. Quem plantou essa mangueira nesse bosque? Quem tirou esses sapotis sem permissão? Quem pichou essa parede antes branquinha? Quem vandalizou “nosso” espaço? Quem gritou aí? Quem chorou quando devia ser forte? Quem esboçou fraqueza quando devia engolir palavras e pancadas? Quem plantou capim onde devia haver pedra brita? Quem isso, quem aquilo? O mais duro é o uso do “nosso”, como se pronome de posse tivesse sentido ali. Não tem.

Há lugares que testemunham discórdias e euforias, esperanças e decepções, silêncio contrito e voz troante. Há histórias neles e através deles. Histórias que obliquamente os atravessam para que sejam espaços melhores. Nem sempre isso é possível, porém. Tudo pode ficar apenas em intenções e tentativas. Não confundir concreto com concretude.

Muitos passageiros passam aí quatro, seis, dez, vinte, trinta anos, e só reparam nos desejos seus e dos outros quando eles, os desejos, são grandes. Reparam nos grandes projetos que deverão fabricar, como se fossem obrigados a servir a um sistema que tem maior apreço a quem consegue adequar sua vida ao câmbio do dólar, aos papéis da bolsa, ao não tão concreto, mas duro, mercado financeiro: “estamos aqui”, dizem os habitantes transitórios, “para aprender uma profissão, que vai nos dar casa, comida, conforto e segurança”. Esses lugares foram erguidos para servir ao mercado? Para formar mão-de-obra? Para ensinar o jogo da aceitação e frear a rebeldia?

São lugares-veículo. Não saem de onde estão, mas levam ao mundo. Lugares-navio, lugares-avião, lugares-carro. Eles são a própria estrada. Parados em movimento. Parece que nunca se alteram. Só parece. Estão o tempo todo em alarida convulsão. E são feitos de pequenas coisas, de pequenos gestos, de miudezas. Essas coisas estão ali, invisíveis para a maioria dos passageiros. Alguns as veem e, no futuro, elas ficarão guardadas nas lembranças como se fossem ouro, mesmo não tendo valor algum.

São essas coisas insignificantes que se tornam signos repletos de significados. Um pombo que fez “pru” ali, uma gata que deu cria lá, uma fruta que caiu sobre um casal de namorados, vaticinando-lhes a futura e inevitável separação; uma coxinha comida a muitas bocas, o café ruim, mas bebível, da cantina ou da banquinha, a estação dos ventos executando música nos galhos e folhas do bosque.

Tantas coisas insignificantes; tantas memórias que haverão de arrancar suspiros e lágrimas e vontade de rebobinar o tempo. Aquele poste que deixava de ser só suporte para luz e iluminava os afetos; ou aquele banco sinuoso que acolhia os que estavam putos da vida e os que estavam querendo abreviar mais ainda sua permanência e se dispunham em matar o tempo, matando aula, matando desafetos, matando a preguiça, matando o futuro; essas coisas são testemunhas do desperdício bom e do desperdício ruim.

Mas esses lugares são como o tempo: não voltam nunca. São impermanentes. Os muros estão aí para dizer isso, não porque têm sua função de esconder esses lugares e protegê-los dos perigos do fora. O fora não existe. Os muros dizem quando se tornam pergaminhos, linhas do tempo desses lugares. São como eles, paredes que se sujam, que recebem inúmeras demãos de tinta, que ganham cartazes, palavras de protesto, frases de revolta. E depois vão se apagando, se apagando, recebendo outras marcas, rasgões, manchas, quebras. São palimpsestos, suportes sempre prontos a receber mensagens, que sumirão sob outras ações. Ações humanas ou do tempo. Se aprendêssemos a lição dos muros… Mas não, ainda nem fomos alfabetizados nessa cartilha. Não somos fortes o bastante para a escola de muros que, quando deviam proteger o dentro do fora, dá é recado, xinga, grita, berra; ou simplesmente vira suporte para arte. A melhor arte é a que o tempo cuida em apagar com o auxílio da luz do sol e das mãos humanas.

Estou falando de lugares que nasceram com vocação para passagem. Eles são como o biscoito “brevidade”, que a gente mal começa a comer e: “quê, já acabou? Nem percebi! Queria mais!”. Mas não tem outro brevidade. Não será mais o mesmo brevidade da primeira mordida. O gosto será outro.

Há lugares que nasceram para ser passagem. Eles ficam. A gente é que, mal ou bem, passa por eles. Querendo ou não, eles ficam em nós apenas como lembrança.

 

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