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É comum na dimensão acadêmica (ensino, pesquisa, extensão, relação com as práticas profissionais, incluindo estágio), no mercado de trabalho (convencional e não convencional), entre os órgãos de classe e na biblioteconomia de maneira geral, assim como em documentos públicos oficiais de cunho governamental, a reflexão/proposição sobre o conceito de biblioteca.

A priori, a pergunta-título deste texto pode parecer simplória e supérflua, mas, observada sob o ponto de vista da concepção, pondero que discutir, compreender, empreender e empoderar as semânticas teórico-aplicacionais da biblioteca pode ser o cerne que norteia a atuação da biblioteconomia.

E esse cerne reside especialmente no conflito, algumas vezes velado e outras vezes declarado sobre a concepção de biblioteca para a biblioteconomia e para o Estadoe para a iniciativa privada. Esse conflito pode ser destacado quando da proposição do conceito de biblioteca (escolar) instituído no texto da lei nº 12.244/10, que trata da universalização das bibliotecas escolares quando esta afirma que “considera-se biblioteca escolar a coleção de livros, materiais videográficos e documentos registrados em qualquer suporte destinados a consulta, pesquisa, estudo ou leitura”.

Na concepção técnico-científica da biblioteconomia, por sua vez, a biblioteca é reconhecidamente concebida na sua matriz curricular como uma “unidade de informação” ou, a nosso ver, de maneira mais didática: “ambiente de informação”.

Quais as diferenças entre pensar a biblioteca como “coleção de acervos/documentos” ou um ambiente de informação? Apresento as seguintes possibilidades de diferença:

  • A concepção de que a biblioteca é, por si só, “uma coleção de acervos/documentos” reduz os múltiplos significados da biblioteca, visto que não reconhece o caráter geral da intencionalidade político-social da biblioteca (os sentidos pelos quais uma biblioteca deve existir e atuar);
  • A biblioteca como “coleção de acervos/documentos” não a constitui como ambiente programático de prática informacional (referente à construção de serviços, produtos e ações gerais/específicas de informação);
  • A biblioteca, como “coleção de acervos/documentos”, focaliza mais a dinâmica de uma estrutura estanque da biblioteca, enquanto a biblioteca como ambiente de informação denota as múltiplas dinâmicas de atuação da biblioteca no âmbito da gestão, processos (incluindo organização e mediação da informação), fluxos e tecnologias de informação voltadas para a comunidade;
  • A biblioteca, como “coleção de acervos/documentos”, é inerente a um olhar voltado para a biblioteca em si, enquanto a biblioteca como “ambiente de informação” focaliza as relações entre a biblioteca e a(s) comunidade(s) de usuários/sujeitos da informação (olhar holístico da biblioteca como ambiente de informação);
  • A biblioteca como “ambiente de informação” agrega para si a concepção da “infosfera” que revela a possibilidade de produção, acesso e uso da informação em qualquer tempo, espaço e suporte, visto que o ambiente aqui é compreendido como tudo que rodeia a biblioteca (gestão, processos, fluxos, tecnologias, serviços, produtos e a realidade social dos sujeitos de uma maneira geral) e não a disposição do acervo em si.

Evidentemente que a ideia não é menosprezar o acervo na composição da biblioteca, mas galvanizar uma concepção mais ampla no contexto da ação de informação. Desse modo, implicar conceitualmente a biblioteca como “coleção de acervos/documentos” é limitar o seu papel estratégico-informacional na contemporaneidade.

Diante dessas questões, como é possível representar o conceito de biblioteca a partir de um ideário técnico-científico e aplicativo da biblioteconomia? O quadro abaixo indica uma percepção:

Quadro 1 – Percepção conceitual de biblioteca

É um ambiente de informação no sentido de ser estrategicamente planejado com intencionalidades político-institucionais e sociais que atuam com gestão (de pessoas, acervos, tecnologias e serviços/produtos), processos (a exemplo da organização, mediação, disseminação, acesso, recuperação, uso e apropriação), fluxos (atinente ao curso/fluidez da biblioteca em suas diversas ações) e tecnologias (disposição/acesso/uso dos diversos suportes/documentos/acervos/equipamentos de cunho físico e/ou digital) para e com sujeitos humanos (equipe de profissionais e usuários), não humanos (documentos/acervos/artefatos) e institucionais (gestores) com a finalidade de promover ações para satisfação de desejos/demandas/necessidades de informação, formação de competências, tomadas de decisão, construção de novos conhecimentos, geração de novos processos comunicacionais e resolução de problemas de informação.

Fonte: elaborado pelo autor

O conceito apresentado denota uma visão ampla do caráter normativo (o que deveria ser) acerca da conduta da biblioteca como ambiente de prática político-cultural, político-informacional e cultural-informacional, de sorte que consolida dois aspectos fundantes: a informação como prática gerencial, processual, de fluxos e tecnologias e a constituição dos sujeitos da informação.

A integração/união desses dois aspectos preconiza um protagonismo ideal da biblioteca a partir de uma concepção biblioteconômica, bem como fomenta a biblioteca como ambiente dinâmico, programático e acessível a comunidade para concretizar o que é planejado em diversos contextos espaço-temporais.

Entretanto, considerando que há um hiato semântico significativo entre o que pensa a biblioteconomia e o Estado/iniciativa privada/mercado de trabalho e, atentando para múltiplas possibilidades de compreensão/atuação da biblioteca, como é possível estabelecer uma aproximação mais efetiva entre pensamento técnico-científico e visão de Estado/mercado?

A forma mais adequada e consistente reside na formação das políticas públicas para o desenvolvimento de bibliotecas e outros ambientes de informação, tanto as políticas gerais como a Política Nacional de Bibliotecas (projeto de lei hoje em tramitação no Senado sob o nº 28/2015) e políticas vinculadas à cultura, educação e informação, quanto políticas específicas concernentes à biblioteca pública, escolar, universitária, comunitária, especializada, prisional, entre outras.

A política pública que contempla um conjunto de ações, quais sejam, planos, programas, projetos, cursos, eventos e formações em geral, permite que o conceito técnico-científico seja aplicado na prática no cotidiano das bibliotecas brasileiras. Por isso é fundamentalmente relevante que órgãos como Conselho, Associação e Sindicato de bibliotecários promovam estratégias propositivas junto aos órgãos público-privados nas esferas municipal, estadual e/ou federal, visando a promoção mais qualitativa do conceito de biblioteca.

Portanto, pensar a biblioteca de maneira mais idealmente alvissareira no Brasil, demanda a seguinte lógica: diagnóstico sobre a realidade das bibliotecas; concepção e prognóstico-conceitual das bibliotecas (envolve diretamente a elaboração de políticas públicas e privadas de atuação) e aplicação do prognóstico no cotidiano geral das bibliotecas através da execução das políticas.

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