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A Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN) divulgou no último fim de semana uma nota em que manifesta seu compromisso com a educação e a democracia brasileira. Fazendo uma referência indireta às posições conservadoras do candidato à presidência, Jair Bolsonaro (PSL), o documento informa que a instituição se solidariza com distintas instituições e associações acadêmico-científicas no sentido de alertar a sociedade sobre o perigo de se estabelecer no país um regime autoritário.

“Repudiamos toda e qualquer violação aos direitos fundamentais do cidadão, em especial àqueles que impeçam ou limitem o acesso à informação, educação e cultura. Foram anos de luta e resistência de muitos cidadãos brasileiros que proporcionaram a democracia que ora vivenciamos e, exatamente por essa razão, não podemos permitir que todas as conquistas obtidas até aqui sejam simplesmente descartadas ou violadas”, diz a nota.

Na nota, a instituição reafirma seu compromisso para consolidar o Estado democrático e conclama a comunidade acadêmico-científica da área de arquivologia, biblioteconomia, ciência da informação, gestão da informação e museologia “a defender as instituições vinculadas à educação e à cultura e seus importantes papeis para a formação de cidadãos críticos e reflexivos e, portanto, aptos a defender a democracia do país”.

A ABECIN, que é uma associação sem fins lucrativos, tem por finalidade fortalecer e integrar a atuação das instituições públicas e privadas e dos profissionais de educação superior que tenham como missão precípua a formação, no nível de graduação, de profissionais capacitados a atuar em ciência da informação, bem como contribuir para o aperfeiçoamento do ensino dessa área, promovendo o intercâmbio de educadores e defendendo os interesses das Instituições que a integram etc.

Além da ABECIN, a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB) também divulgou uma nota em que se manifesta sobre o atual contexto político do país. De acordo com a instituição, o Brasil vive um momento político muito delicado, onde a ausência de valores e as tempestades de notícias falsas ocasionam desinformação e o aumento constante da intolerância.

“Esse fenômeno está se agravando com as disputas eleitorais em curso e coloca em risco alguns princípios democráticos constitucionais necessários para a convivência social, como: a proteção dos direitos fundamentais, a liberdade de expressão, de religião e cultural da sociedade brasileira”, alerta a Federação que congrega associações de profissionais da informação de todo o país.

“Considerando que a liberdade de um povo é soberana, e que as bibliotecas são por essência um espaço democrático e de livre-saber, declara que está e sempre estará defendendo os princípios que norteiam a profissão do bibliotecário e cientista da informação, a manutenção da democracia, da liberdade e dignidade humana, da investigação científica, da verdade, e da disseminação da informação”, diz o documento.

O Centro Acadêmico de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal Fluminense divulgou nota tornando pública sua posição diante dos acontecimentos ocorridos em torno do processo eleitoral no domingo, 7 de outubro de 2018, e ao longo do último ano. Numa referência a intensa disseminação de notícias falsas nesta eleição, a instituição estudantil lembra o comunicado da IFLA sobre fake news, no qual se explicita que é papel da biblioteca e bibliotecários lutar contra a desinformação.

“Observamos, por exemplo, a utilização de redes sociais, particularmente o aplicativo de mensagens WhatsApp, como forma de descredibilizar ou popularizar a imagem e projetos de diversos candidatos. A ascensão das chamadas fake news tomou proporções catastróficas, trazendo ainda mais intolerância para o cenário atual”, elaram os estudantes.

A nota também lembrou a exclusão da lista de leituras dos alunos do 6º ano do Ensino Fundamental do Colégio Santo Agostinho, no Rio, do livro “Meninos sem Pátria”, de Luiz Puntel, sob o argumento de que provocaria “doutrinação esquerdista”, além da declaração do general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, ligado à Bolsonaro, que disse que “os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”.

“É disso que o fascismo se trata, de um regime que controla o aparato inteiro da informação — sua criação, distribuição e acesso — o que nos coloca na posição de optar por trabalhar sob a censura num futuro próximo ou lutar neste momento para que não precisemos passar pelo o que muitos de nossos colegas já passaram no passado”, alertam os estudantes.

Abaixo as notas das instituições:

Nota em defesa da democracia brasileira – ABECIN

A Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN), vem a público para manifestar seu compromisso com a educação e a democracia brasileira.

Neste momento em que a sociedade brasileira vivencia um processo eleitoral decisivo para seu futuro, entendemos que a diversidade político-partidária é saudável e merece ser fortalecida, pois é assim que se constrói uma democracia forte e defensora da justiça e da igualdade social.

Nessa perspectiva, a ABECIN se solidariza com distintas instituições e associações acadêmico-científicas no sentido de alertar a sociedade sobre o perigo de se estabelecer um regime autoritário. Repudiamos toda e qualquer violação aos direitos fundamentais do cidadão, em especial àqueles que impeçam ou limitem o acesso à informação, educação e cultura.

Foram anos de luta e resistência de muitos cidadãos brasileiros que proporcionaram a democracia que ora vivenciamos e, exatamente por essa razão, não podemos permitir que todas as conquistas obtidas até aqui sejam simplesmente descartadas ou violadas.

Nossa Constituição aprovada em 22 de setembro de 1988, trinta anos atrás, estabelece em seu Artigo 5° os direitos básicos, dos quais se destacam: a) todos são iguais perante a lei; b) é livre a manifestação do pensamento, de expressão e de religião; c) é inviolável a vida privada; d) é assegurado a todos o acesso à informação; e) é livre o direito de manifestação. Nenhuma outra lei pode contradizer ou se sobrepor à Carta Magna.

A ABECIN reafirma seu compromisso para consolidar o Estado democrático, o respeito à pluralidade de opiniões, o respeito à diversidade, o respeito às pessoas e repudia qualquer tipo de discriminação e violência, político-partidária, étnica, de raça, de gênero ou de religião, bem como o incentivo à cultura do ódio que ameaça a democracia conquistada a duras penas ao longo de nossa história.

Nesse intuito, conclama a comunidade acadêmico-científica da área de Arquivologia, Biblioteconomia, Ciência da Informação, Gestão da Informação e Museologia a defender as instituições vinculadas à educação e à cultura e seus importantes papeis para a formação de cidadãos críticos e reflexivos e, portanto, aptos a defender a democracia do País.

São Paulo, 13 de outubro de 2018.

Diretoria ABECIN

Gestão 2016-2019

Nota da FEBAB frente ao atual contexto do país

O Brasil vive um momento político muito delicado, onde a ausência de valores e as tempestades de notícias falsas online ocasionam desinformação e o aumento constante da intolerância, o que parece cegar aqueles que não têm compreensão do que é um país democrático de direito. Esse fenômeno está se agravando com as disputas eleitorais em curso e coloca em risco alguns princípios democráticos constitucionais necessários para a convivência social, como: a proteção dos direitos fundamentais, a liberdade de expressão, de religião e cultural da sociedade brasileira.

Diante deste contexto, a FEBAB, por meio de sua Diretoria, decidiu se posicionar quanto ao momento político atual e, em total sintonia com Agenda 2030 da ONU de “Não deixar ninguém para trás” e considerando que a liberdade de um povo é soberana, e que as Bibliotecas são por essência um espaço democrático e de livre-saber, declara que está e sempre estará defendendo os princípios que norteiam a profissão do Bibliotecário e Cientista da Informação, a manutenção da democracia, da liberdade e dignidade humana, da investigação científica, da verdade, e da disseminação da informação.

São Paulo, 14 de outubro de 2018.

Nota de repúdio ao fascismo crescente – CA/UFF

“Há muito tempo, muitos (bibliotecários) adotaram a ideia do ‘fim da ideologia’, sustentando que as bibliotecas não deveriam ser somente (o que é discutível) senão que, de fato, instituições ‘neutras’, alheias a ideologia, e que a política, que no sentido clássico é ‘ideológico’, é irrelevante para nossa profissão. Isso preparou caminho para que a ‘mão invisível’ do mercado se ocupasse de encontrar soluções ótimas e eficientes para cada problema.” – Mark Rosenzweig. “Libraries at the end of history?”.

O Centro Acadêmico de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal Fluminense vêm através desta nota tornar pública nossa postura diante dos acontecimentos ocorridos em torno do processo eleitoral no domingo, 7 de outubro de 2018, e ao longo do último ano.

Primeiramente, gostaríamos de saudar a memória de Marielle Franco e junto dela, a de todos os que foram vítimas da intolerância política, racial e de gênero que assola nossa sociedade. Intolerância esta que tomou seu lugar dentro da discussão política após o ressurgimento de partidos de extrema direita, que trazem fantasmas como os que assolaram a América Latina durante os períodos ditatoriais e antes disso, a Alemanha em 1933.

Estamos vivendo um momento onde a confiança nas instituições foi abalada por diversos processos políticos, junto a isso, a urgência da população pela solução de problemas básicos que se alastram por décadas, criou um cenário onde discursos e táticas populistas espalham-se como a peste na Idade Média.

Observamos, por exemplo, a utilização de redes sociais, particularmente o aplicativo de mensagens WhatsApp, como forma de descredibilizar ou popularizar a imagem e projetos de diversos candidatos. A ascensão das chamadas fake news tomou proporções catastróficas, trazendo ainda mais intolerância para o cenário atual. A IFLA, em seu comunicado sobre fake news, explicita que é sim papel da biblioteca e bibliotecários lutar contra a desinformação que leva ao surgimento e promoção de tais notícias.

Outro fato que chama a atenção é a avassaladora disseminação de discursos contrários aos direitos fundamentais modernos e que tem como bandeira a defesa da pátria, da família tradicional e das liberdades individuais em detrimento do coletivo. A defesa destes direitos é inferida do discurso de uma biblioteconomia humanista que nosso juramento nos exorta a tomar para nossas vidas pessoais e profissionais: “Prometo tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de Bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana”¹, e passa pelo fato que no nosso curso mulheres, pretas e pretos além de todo o espectro do arco íris da bandeira LGBT+ são maioria gritante, o que por si só já deveria trazer um posicionamento nosso contra toda e qualquer discriminação.

Estes dois pontos são a base de um dos projetos de governo que estão disputando o cargo para presidente da república, um projeto baseado no ódio, medo e desinformação. Um projeto fascista que se sustenta do ódio e ignorância de seus seguidores.

Na semana anterior ao primeiro turno vimos a censura de um livro² que aborda a ditadura militar no Brasil após a pressão de pais preocupados com a “doutrinação esquerdista” e logo antes, a menção de um general a “eliminação” de livros que não falem a “verdade” sobre o “regime” militar³. É isso que o fascismo se trata, de um regime que controla o aparato inteiro da informação — sua criação, distribuição e acesso — o que nos coloca na posição de optar por trabalhar sob a censura num futuro próximo ou lutar neste momento para que não precisemos passar pelo o que muitos de nossos colegas já passaram no passado.

Diante de todo este cenário, torna-se indispensável se posicionar contra a utilização da desinformação como processo formador de opiniões, contra a perseguição do ser humano por se expressar, contra o crescimento do fascismo e neonazismo, contra todo discurso que que precariza e despreza a dignidade humana.

E mais importante que de se posicionar, torna-se impreterível agir e é importante reconhecer que estamos num local privilegiado para isso, pois bibliotecas em suas mais diversas formas, são centros de referência para uma boa parcela da sociedade. É mais do que nosso dever criar meios para não somente defender nosso lado, mas que para que cada vez mais o cidadão que se encontre num papel de vulnerabilidade saiba onde recorrer, onde possa encontrar uma luz no meio das trevas que pairam sobre nossas cabeças.

É neste espírito de luta que deixamos nosso singelo convite para que todos se posicionem e tomem seus lugares ao nosso lado na defesa da humanidade. Desde Centros Acadêmicos a entidades de classe instituídas como Sindicatos, Federações e Conselhos, a hora não é de ponderar ações estratégicas ou mesmo de temer se posicionar com medo de retaliações quaisquer.

Finalizamos com as palavras da bibliotecária e poeta Audre Lorde, que no seu ensaio “There is no hierarchy of oppression”, disse o seguinte:

“Não posso me permitir escolher entre frentes, eu devo enfrentar essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecerem para me destruir, não vai demorar muito até que elas apareçam pra te destruir”

Niterói, RJ – 11 de outubro de 2018

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